O Brasil vai eleger um mentiroso?

30 out, 08:00
Eleições presidenciais brasileiras

Pedro Benevides, enviado da CNN Portugal, deixa a sua visão sobre os dias que antecederam as eleições que vão decidir quem será o futuro presidente do Brasil

Pobre país este que vai ter de escolher entre um corrupto e um fascista. Pelo menos, essa foi a ideia com que fiquei indo a comícios de um e do outro - Lula é seguramente ladrão e Bolsonaro só pode ir para a prisão. 

E isto sou eu, que não acredito em tudo o que me dizem e ainda preciso de mais provas dos supostos rituais satânicos do petista e das refeições canibais do “capitão do povo”.

Parece piada, mas não é. Estes insultos e outros piores foram ouvidos durante semanas a fio pelos brasileiros (e pelos jornalistas estrangeiros) que este domingo voltam às urnas para fechar a decisão do próximo Presidente. 

E na sexta-feira, dia do derradeiro debate das eleições mais renhidas dos últimos tempos, Lula e Bolsonaro cuspiram tantas vezes a palavra mentiroso um ao outro que nem se percebia o que diziam quando simulavam ter alguma coisa de inspirador para dizer ao Brasil. Foi o que ficou: Lula é mentiroso. Bolsonaro é mentiroso.

É isto que o Brasil tem no menu para este domingo. Como se tudo estivesse bem e o país só tivesse de discutir qual dos dois cafajestes é menos mau que o outro. 

É um triste espetáculo, para nós que olhamos com admiração para o outro lado do atlântico, mesmo sabendo que o Brasil que imaginamos está ainda longe de dar certo.

Este, que é o real e o de agora, está afundado nas vergonhosas taxas de pobreza e na imensa desigualdade, hoje tão visível numa cidade como São Paulo. 

É o Brasil que continua à procura de soluções para a falta de casa e de cuidados de saúde e de saneamento básico para toda a população. Um país que ainda não saiu da lista negra dos mais violentos do mundo e que, por falar em mundo, ainda não encontrou nele um papel à altura das suas legítimas ambições.

Mas passada a campanha, é difícil encontrar um brasileiro que saiba dizer o que cada um dos candidatos a Presidente pretende fazer sobre estas matérias.

Um olhar externo e desapaixonado tem de reconhecer que nenhum dos dois, Lula ou Bolsonaro, é responsável único pelo estado a que se chegou, tal como nenhum pode vangloriar-se em exclusivo daquilo que, apesar de tudo, corre bem.

Mas ambos têm uma herança pesada e um legado negro que faz destas as eleições da rejeição.

Escolher Bolsonaro é, para muitos eleitores, escolher o candidato que continua a testar os limites da democracia, que falhou na pandemia, que despreza a ciência, apouca as mulheres, glorifica a violência e parece ter saudades da (ainda recente) ditadura.

Para a outra metade do país, regressar a Lula é voltar a um país à esquerda, e com isso acordar o papão de um Estado que oprime a iniciativa privada. E é, sobretudo, regressar ao Presidente que deixou obra, mas não lavou ainda as nódoas deixadas pelos casos de corrupção que marcaram os seus governos e traumatizaram o Brasil.

Talvez o Brasil merecesse melhor, talvez os brasileiros merecessem outra gente com outra energia para agarrar este país que é abençoado por natureza, mas nunca concretizou o seu imenso potencial.

Mas a realidade é o que é, hoje é dia de escolher o futuro e, como se costuma dizer, que vença o melhor. Ou, como parece ser o clima por aqui, que vença o menos mau. 

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