Vem aí um Benfica-Sporting: poderá este dérbi um dia encher o Estádio da Luz?

20 jan, 09:36
Supertaça Feminina: as imagens do Sporting-Benfica

Sábado é dia de jogo grande em Lisboa: os eternos rivais voltam a defrontar-se, agora em futebol feminino, com a ambição de bater o recorde de assistência num jogo da modalidade em Portugal. O Maisfutebol foi tentar perceber o que é preciso fazer por cá para sonhar encher estádios como já acontece em Espanha.

Sábado, a partir das 15 horas, no Estádio da Luz há mais um jogo grande: um Benfica-Sporting em futebol feminino. O dérbi, desta vez, conta para a Taça de Portugal e vale um apuramento para as meias-finais.

Para além da rivalidade entre Sporting e Benfica, o dérbi tem outra enorme curiosidade: poderá bater o recorde de assistência num jogo de futebol feminino.

Para isso é preciso ultrapassar os 15.204 adeptos que em 2019 estiveram no Restelo a ver o particular também entre Benfica e Sporting, com fins beneficentes. Em jogos oficiais, o máximo são 14.221 espectadores no Estádio da Luz no Benfica-Sporting do último mês de maio.

Ora a verdade é que, olhando para estes números, se percebe a distância a que ainda estamos por exemplo dos nossos vizinhos de Espanha.

Recorde-se que em 2022 o Barcelona bateu duas vezes o recorde de assistência em jogos de futebol feminino, ao conseguir em cerca de uma mês encher por duas vezes o Camp Nou: frente ao Real Madrid, primeiro, e ao Wolfsburgo, depois, o clube meteu mais de 91 mil adeptos no estádio.

Poderá um dia o futebol feminino encher um Estádio da Luz?

«Acredito que sim. Pode não ser num futuro próximo um grande estádio, mas isso acontecerá. E acontecerá como sequência natural de um processo de crescimento e desenvolvimento. Mas é preciso pensar no processo...», diz Paula Pinho, mais de vinte anos dedicados ao Albergaria, como jogadora e treinadora.

«O ano passado fui ao Barcelona-Real Madrid em Camp Nou, que foi em março, e em janeiro os bilhetes já estavam esgotados. Era uma quarta-feira às seis da tarde e estavam mais de 91 mil pessoas, um ambiente espetacular, crianças, pais, miúdos, miúdas... Temos de pegar nestas coisas boas que se fazem lá fora e trazê-las para Portugal. O Benfica fez um excelente campanha na Liga dos Campeões e tem de aproveitar isso. Todos temos de saber que podemos fazer mais», refere Mariana Vaz Pinto, ex-team manager do Sporting e da BSad.

Ora para o futebol feminino em Portugal continuar a crescer e poder atingir uma projeção internacional semelhante ao que tem o masculino é necessário ainda muita coisa. Nesse sentido, estão de acordo as quatro mulheres que falaram com o Maisfutebol. É preciso sobretudo desenvolver a modalidade.

«O grande desafio passa por ter uma Liga competitiva, em que não se verifique um desnível tão grande entre as equipas dos grandes clubes, com mega estruturas e excelentes condições, e as restantes equipas. Suponho que tudo gira em torno desta questão», diz Paula Pinha, cuja dedidacação à modalidade já foi até distinguida pela UEFA.

«É fundamental que os outros clubes tenham as condições necessárias para acolher jogadoras que façam toda a sua formação em clubes grandes. Caso contrário, o choque para estas jogadoras vai ser grande e muitas delas ou acabam por sair do país - não ajudando a que a nossa Liga seja mais competitiva -, ou por desistir do futebol», adianta a empresária Raquel Sampaio.

Edite Fernandes, antiga jogadora internacional e nome grande da modalidade, diz que é preciso haver mais gente a envolver-se no futebol feminino.

«A Federação tem feito um trabalho exemplar, mas é preciso os clubes investirem mais e as próprias associações apoiarem o futebol feminino. Ainda vão ser necessários vários anos para podermos ter uma Liga totalmente profissional como tem Espanha. Falta investimento dos clubes, dos patrocinadores, de toda a gente.»

Ora perceber o que falta para o futebol feminino atingir outro patamar em Portugal, o Maisfutebol falou com Paula Pinho, Edite Fernandes, Raquel Sampaio e Mariana Vaz Pinto e colocou às quatro as mesmas perguntas.

1. Qual o grande desafio do futebol feminino português nesta altura?
2. O que falta ao futebol feminino em Portugal para igualar o mediatismo que tem em Espanha?
3. O futebol feminino conseguirá um dia encher um estádio?

Seguem-se as respostas para a discussão.

MARIANA VAZ PINTO
Ex-team manager do Sporting e da BSad

1. O grande desafio do futebol feminino é querer mais, é desejar outros patamares. Vamos ter um dérbi no Estádio da Luz, sábado, às 15 horas, um jogo da Taça de Portugal que facilmente poderia encher, até porque a equipa masculina do Sporting joga na sexta-feira e a equipa masculina do Benfica joga nos Açores. Mas as pessoas ainda não estão habituadas a vir ao estádio ver um jogo de futebol feminino. Não basta marcar o jogo para o Estádio da Luz, é preciso o Benfica partilhar mais o jogo, o Sporting chamar mais público e todos fazermos melhor. Por exemplo, no dérbi Sporting-Benfica da semana passada estiveram 63 mil pessoas e o Benfica não foi capaz de ao intervalo ou antes do jogo fazer uma referência ao dérbi que iria haver na semana a seguir. Se tivessem feito qualquer coisa, se calhar algumas daquelas 63 mil pessoas tinham ficado sensibilizadas. É essa atenção que falta para chegarmos a outro patamar. Porque a qualidade existe. É um jogo de Taça em que tudo pode acontecer e vai ser um espetáculo incrível.

2. Em Espanha, e podia também dizer Inglaterra, o futebol feminino deu um salto espetacular, cada vez há mais jogos nos grandes palcos. Ainda esta semana tivemos um dérbi em Inglaterra, entre o Arsenal e o Chelsea, com 45 mil pessoas no Emirates Stadium. Por isso é preciso educar as pessoas, mostrar-lhes que o futebol feminino tem qualidade. É preciso mudar mentalidades. Até porque no futebol feminino existe maior proximidade da jogadora com os adeptos, uma coisa que já não existe no futebol masculino.

3. Espero que sim. Acho que se caminharmos todos juntos vamos conseguir. O ano passado fui ao Barcelona-Real Madrid em Camp Nou, que foi em março, e em janeiro os bilhetes já estavam esgotados. Era uma quarta-feira às seis da tarde e estavam mais de 91 mil pessoas, um ambiente espetacular, crianças, pais, miúdos, miúdas... Temos de pegar nestas coisas boas que se fazem lá fora e trazê-las para Portugal. O Benfica está a fazer uma excelente campanha na Liga dos Campeões e tem de aproveitar isso. Todos temos de saber que podemos fazer mais.

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PAULA PINHO
Treinadora no Albergaria

1. O grande desafio passa por ter uma Liga competitiva, em que não se verifique um desnível tão grande entre as equipas dos grandes clubes, com mega estruturas e excelentes condições, e as restantes equipas. Suponho que tudo gira em torno desta questão. Como se conseguirá isso terá a ver com reflexões e decisões que é preciso tomar em várias áreas, entre as quais:
-Investimento financeiro e humano nos clubes da I e II Liga, de maneira a que possam aproximar-se dos clubes de  topo.
- Reduzir número de clubes na Liga: sim ou não?
- Fim do ‘protecionismo’ à jogadora portuguesa: sim ou não?
- Faz sentido haver número limitado de utilização de jogadoras estrangeiras?

2. O que falta ao futebol feminino em Portugal? A tal competitividade que tem inerente a qualidade. Se tivermos um jogo equilibrado por alto, seguramente que será um produto mais apetecível e consequentemente que o procurarão divulgar, porque as pessoas o querem ver.

3. Acredito que o futebol feminino vai um dia encher um grande estádio em Portugal. Pode não ser num futuro próximo um grande estádio, mas isso acontecerá. E acontecerá como sequência natural de um processo de crescimento e desenvolvimento. Processo...

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RAQUEL SAMPAIO
Agente de futebol - CEO da Teammate Football Management

1. O grande desafio passa por proteger o talento existente e emergente. Se há cinco anos não tínhamos qualidade em quantidade, hoje em dia o cenário é o oposto e a tendência é que exista cada vez maior qualidade em quantidade. Ou seja, cada vez vai ser mais dificil para as gerações futuras chegarem às equipas principais dos grande clubes. Posto isto, é fundamental que os outros clubes tenham as condições necessárias para acolher jogadoras que façam toda a sua formação em clubes grandes. Caso contrário, o choque para estas jogadoras vai ser grande e muitas delas ou acabam por sair do país - não ajudando a que a nossa Liga seja mais competitiva -, ou por desistir do futebol, pelo choque de realidade e desmotivação.  Como isto se consegue? Com a profissionalização da Liga Feminina.

2. Falta passar do querer para o fazer. Em Portugal, todos querem, mas ninguém dá realmente o passo à frente, fica tudo na expectativa e à espera que os outros avancem, para ver como corre.  É certo que o futebol feminino está numa fase, diria eu, de crescimento imparável. Pode crescer mais rápido e todos beneficiarem mais cedo, ou pode crescer mais lentamente e todos beneficiarem mais tarde. Somos um país que tem todos os recursos para ser um dos melhores a desenvolver e a dar visibilidade ao futebol feminino , mas ao mesmo tempo parece que falta sempre qualquer coisa. É preciso visão. Tenho esperança que, caso Portugal se apure para o Mundial, as coisas vão ser diferentes.

3. Pela Europa fora o futebol feminino já encheu muitos estádios e em Portugal não tenho dúvidas que também o fará. Mas não será amanhã. O que não podemos é perder oportunidades e querer encher estádios sem pagar. Os bons produtos custam dinheiro. E se queremos que o futebol feminino seja um bom produto, temos que (re)educar as pessoas para isso. Futebol Feminino não pode ser sinónimo de futebol de borla.

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EDITE FERNANDES
Ex-jogadora internacional portuguesa

1. O grande desafio será nesta altura aumentar o número de praticantes. Já foi superado este ano, é verdade, mas é preciso que aumente ainda mais e com isso deixar o futebol feminino crescer naturalmente. Estamos numa fase muito boa, até pelas campanhas do Benfica na Liga dos Campeões e, principalmente, da nossa seleção na fase de apuramento para o Mundial. É preciso aproveitar isso para trazer mais gente e aumentar o número de praticantes.

2. O que falta ao futebol feminino em Portugal para chegar ao nível do espanhol? Terá de haver mais trabalho, claro. A Federação tem feito um trabalho exemplar, mas é preciso os clubes investirem mais e as próprias associações apoiarem o futebol feminino. Ainda vão ser necessários vários anos para podermos ter uma Liga totalmente profissional como tem Espanha. Falta investimento dos clubes, dos patrocinadores, de toda a gente para que todas as equipas do nosso campeonato possam ser profissionais. Espanha está aqui ao lado, mas muito longe.

3. Todos temos esperança que um dia um Benfica-Sporting, como o do próximo sábado, possa vir a encher o Estádio da Luz. Nesta altura é precoce falar disso, mas nos próximos anos, com mais promoção e com ainda mais qualidade, isso será possível. Tudo tem a ver com melhor promoção e com o crescimento da nossa seleção nas competições internacionais. Acho que se confirmarmos a presença na fase final do Mundial, o futebol feminino vai dar um passo gigante.

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