“Um fim ignóbil”: os bastidores da demissão de Horta Osório, o “Torquemada”

18 jan, 23:18
Horta Osório à entrada do Lloyds Bank - 9/Jan/12

Horta Osório perdeu a confiança da administração que ele próprio presidia, depois de violações às regras da covid-19 e de abusos na utilização de jatos privados do Credit Suisse. Mas já havia antagonismo entre administradores. Incluindo dos que o tratavam como “Torquemada”, pela exigência que impunha aos demais executivos. Os bastidores de uma demissão inesperada,

“Foi um fim ignóbil para o seu curto mandato no Credit Suisse”, escreve o Financial Times. A imprensa estrangeira conta hoje os bastidores da demissão de António Horta Osório do Credit Suisse sem poupar nos pormenores. E revelando uma tensão já acumulada entre o português e os seus pares. O português deixa “uma curta nota de rodapé” na história do banco, diz um analista citado pela Reuters. A imprensa suíça “comparou a conduta do banqueiro português com as do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, e da estrela do ténis Novak Djokovic”, acrescenta o “Wall Street Journal”. Em causa as violações das restrições nacionais da covid-19. Mas também o abuso do jato privado do banco.

Apanhado de surpresa

Foi este domingo à tarde que António Horta Osório soube que o seu próprio Conselho de Administração lhe retirara o apoio, depois das violações reincidentes às regras da covid-19 e das polémicas com o abuso do jato privado do banco, de que era “chairman” há pouco mais de oito meses.

Os bastidores do processo em conflito são relatados hoje pelos jornais “Financial Times” (FT) e “Wall Street Journal” (WSJ), que conta que o banqueiro português foi apanhado de surpresa: esperaria apenas uma repreensão inconsequente. Só que, sabe-se agora, o ambiente na administração era já de tensão. Horas depois, na segunda de manhã, Horta Osório anunciou a demissão do Credit Suisse Group.

O “inquisidor”

A perda de apoio de Horta Osório na administração já tinha no entanto precedentes. Segundo o FT, pouco depois de tomar posse no Credit Suisse, o banqueiro português “orquestrou uma captura de poder que o colocou em rota de colisão com o seu presidente executivo, Thomas Gottstein”. E assim se iniciou uma luta de autoridade.

Horta Osório não foi um mero espectador e assumiu uma liderança própria, em que por exemplo passou a defender que cada chefia do banco teria de “agir como um gestor de risco”, comprometendo-se com “uma cultura de responsabilização pessoal”, o que afrontou a cultura do Credit Suisse, instituição que atravessa vários problemas.

Tanto que, segundo o Financial Times, outros executivos séniores do banco o tratavam como “Torquemada”, o histórico líder severo da inquisição espanhola, “pelo zelo com que responsabilizava pessoas”.  

“Não há dúvidas que ele fez muitos inimigos. Ele disse a vários membros da administração que eles não tinham o perfil necessário”, afirmou uma fonte próxima de Horta Osório ao FT. Outra fonte, um ex-banqueiro do Credit Suisse, diz ao mesmo que jornal que “a Suiça pode ser dura quando se impõem mudanças. Os forasteiros não são bem-vindos e mudar hábitos e práticas antigas é muito difícil.”

Horta Osório foi contratado precisamente para resgatar o banco de investimento com sede na Suíça, e uma rede global com 48 mil colaboradores, de uma “propensão para escândalos”, que se agudizou com perdas com o colapso da Greensill Capital e da Archegos, que eram clientes da Credit Suisse. Antes, rebentara o escândalo relacionado com o facto de o banco ter “espiado” sete gestores, quebrando regras da banca suíça.

Horta Osório não entrou para descansar à sombra. Conhecido por ser muito exigente, entrou em choque com alguns colegas da própria administração. Foi esse perfil que já lhe granjeou prémios em profissionais em Portugal, Espanha, Brasil e Reino Unido, onde recebeu o título de cavaleiro pelo seu trabalho no Lloyds.

Agora, sai pela porta pequena.

As viagens a jato

Foi na sequência de uma investigação da administração que o divórcio se consumou. Essa investigação confirmou pelo menos duas quebras nas regras de contenção da covid-19 e concluiu que houve uma utilização “excessiva” do jato particular do banco, explica ainda o FT.

Uma das quebras verificou-se na sua deslocação em julho à final do torneio de ténis de Wimbledon, em Inglaterra, onde assistiu à vitória daquela com quem é agora comparado, o tenista Novak Djokovic, quando supostamente deveria ter ficado em quarentena. Por outro lado, e ainda segundo o FT e o WSJ, a investigação interna analisou viagens com aviões privados pagos pelo banco para alegada utilização pessoal, incluindo uma viagem para férias nas Maldivas no regresso de uma viagem profissional.

Também Brooke Masters, colunista do “Financial Times”, compara o banqueiro português com o tenista Novak Djokovic, escrevendo que “a arrogância de alguns privilegiados destaca-se no meio das restrições da pandemia”. E acrescenta: “Horta Osório tomou a decisão certa ao admitir as suas violações à Covid e demitir-se. Ele estava demasiado manchado pela quebra de regras para impor uma transformação cultural” no banco.

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