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Guterres já não acredita na paz entre a Rússia e a Ucrânia: "Ambas estão convencidas de que vão vencer"

9 mai 2023, 10:46
António Guterres, secretário-geral da ONU. (Hadi Mizban/ AP)

O otimismo que até agora pontuou a postura do secretário-geral da ONU perante o conflito na Ucrânia parece ter chegado ao fim

António Guterres acredita que neste momento não há qualquer pespetiva de paz entre a Rússia e a Ucrânia porque ambas as partes "estão convencidas de que vão vencer" o conflito.

"Infelizmente, creio que neste momento não é possível uma negociação para a paz. As duas partes estão convencidas de que podem vencer", assumiu o secretário-geral da ONU, numa entrevista ao El País, publicada esta terça-feira, dia em que a Rússia celebra o Dia da Vitória.

Reiterando a ilegalidade da invasão russa, do ponto de vista do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, Guterres assume que a ONU não pode fazer mais do que "estabelecer um diálogo com as duas partes para resolver problemas concretos". E, neste momento, o responsável da ONU admite que "a Rússia não está disposta a retirar-se dos territórios que ocupa", enquanto a Ucrânia resiste ao conflito mantendo a "esperança" de que vai reconquistar as regiões ocupadas.

Guterres lembra o acordo para a exportação de cereais ucranianos, impulsionado pela ONU e pela Turquia, para mostrar como o diálogo entre as duas partes tem resultados concretos, classificando-o mesmo como "a iniciativa mais importante" da ONU neste conflito. Esse acordo tem prazo de validade - dia 18 deste mês - e Guterres diz estar a fazer de tudo para que seja renovado, assumindo-se "totalmente envolvido para tentar salvar a iniciativa".

"A última coisa que fiz antes de ir dormir, e a primeira coisa que fiz esta manhã, foi entrar em contacto com os meus colegas que tratam do assunto. A Rebeca Grynspan [secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento] esteve Moscovo e o Martins Griffiths [secretário-geral adjunto dos Assuntos Humanitários] está em Istambul. Vamos preparar uma reunião com as quatro partes [Rússia, Ucrânia, ONU e Turquia] em Istambul e estamos a fazer todos os possíveis para responder melhor aos problemas russos", adiantou.

Guterres pede "cuidado" para evitar "tragédia" em Zaporizhzhia

Quanto ao risco de uma escalada do conflito, nomeadamente com o uso de armas nucleares táticas ou um eventual acidente nuclear em Zaporizhzhia, Guterres admitiu estar muito preocupado com esta última: "Espero que haja cuidado suficiente das duas partes para não provocarem uma tragédia." 

Ainda assim, o secretário-geral da ONU acredita que "a possibilidade de uma escalada nuclear é muito pequena", sobretudo depois das críticas da China à decisão da Rússia em colocar armas nucleares na Bielorrússia. Guterres assume que esta "iniciativa" por parte da China "foi muito importante para afirmar de forma muito clara que uma escalada nuclear é inaceitável". "O facto de a China ter assumido essa posição é muito importante para evitar uma tentação que seria um absurdo intolerável", argumentou.

Questionado ainda sobre o envio de armamento para a Ucrânia, o responsável respondeu que nunca fez nem nunca fará "qualquer comentário sobre os apoios que existem ou que não existem" nesta guerra. "É evidente que as duas partes têm procurado adquirir armamento e isso é o que ocorre nas guerras. O objetivo é que seja possível, não no imediato mas a longo prazo, uma paz que seja justa, conforme a lei internacional e a Carta das Nações Unidas", indicou.

"Mas ainda estamos muito longe disso", assumiu, encerrando assim o tema da guerra nesta entrevista, publicada no dia em que recebe o Prémio Europeu Carlos V pela mão de Felipe VI, no Mosteiro de Yuste, em Espanha. Uma distinção que reconhece o trabalho de "pessoas, organizações, projetos ou iniciativas que contribuíram para o conhecimento geral e o engrandecimento dos valores culturais, sociais, científicos e históricos da Europa, assim como para o processo de construção e integração europeia", segundo a Fundação da Academia Europeia e Iberoamericana de Yuste, que o atribui.

Jacques Delors, Wilfried Martens, Felipe González, Mikhail Gorbachev, Helmut Kohl, Simone Veil, Javier Solana e Angela Merkel foram outras personalidades anteriormente galardoadas.

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