Futuro político há, mas não como Presidente. Costa ficou magoado no dia da demissão e defende Escária. Leia aqui toda a entrevista

3 mai, 18:43

Ex-primeiro-ministro esteve à conversa com Cristina Ferreira durante quase 40 minutos. Neles abordou todos os assuntos, deixando garantias e algumas bicadas

Seja muito bem-vindo. É a primeira vez que converso consigo sem o peso de um cargo público. Está leve?

Sim, tenho vindo a fazer peso.

Sim, é uma outra forma de estar na vida. Eu próprio também não me recordava bem do que era não ter funções públicas. Mas há, sim, pequenos luxos que se ganham - ter o telemóvel desligado à noite, não ter que pôr o despertador.

São estranhos no início, ou não?

 Sim, por exemplo, o desligar o telemóvel à noite foi uma coisa que eu levei algumas semanas a perceber que podia. Portanto, sim, é uma reabituação a esses hábitos normais.

Mas como é que é aquele primeiro dia? Porque esteve ainda 124 dias em funções executivas, mesmo já tendo pedido a demissão. Como é que é aquele dia em que chega ao fim?

Bem, isso é muito natural. O momento difícil, verdadeiramente, foram aqueles dias a seguir ao 7 de novembro, no dia em que apresentei a demissão, porque é aquela sensação estranha de ter sido atropelado por um comboio e ter-se ficado vivo e com as dores próprias do atropelamento. Depois, entre o 7 de novembro e o dia 2 de abril, foram longos meses.

Deu para gerir as emoções.

Sim, deu para gerir as emoções, deu para arrumar as coisas. Quando no dia 2 já saí de casa para a tomada de posse do doutor Luís Montenegro, já saí com total tranquilidade e com uma nova vida.

Então voltemos ao dia 7 de novembro, quando sabe da notícia. Porque isto é uma machadada tremenda na vida de alguém. Aliás, já lá vamos também à imprensa internacional, os destaques eram quase todos a mancha neste percurso. Como é que alguém recebe esta notícia e como é que age logo a seguir? Ligou a quem? Falou com quem?

Desde novembro de 1995 até agora estive praticamente sempre a exercer cargos públicos e cargos executivos. Com dois anos de intervalo eu fui essencialmente deputado, no resto do tempo estive sempre a exercer cargos executivos - como secretário de Estado, como ministro, como presidente da Câmara, como primeiro-ministro.

Sempre alvo de todos os olhares, não é?

Alvo de todos os olhares, de todas as atenções. Fui elogiado por umas coisas, fui muito criticado por outras, mas isso faz parte da vida política. Nunca ninguém tinha posto em causa a minha honestidade.

E é isso que dói?

Isso dói. Isso dói. Mas também para mim era muito claro que, para quem é primeiro-ministro… o primeiro-ministro não é um membro do Governo como os outros. Não pode haver uma suspeição oficial sobre a sua probidade. Isso põe em causa a sua autoridade. A autoridade do primeiro-ministro não resulta só das competências que a Constituição e a lei lhe atribuem, mas do respeito e da relação que tem com os portugueses, com os cidadãos.

Mas então o primeiro pensamento foi logo esse? “Eu não posso continuar aqui, havendo esta suspeição?”

Sim, sim. Quando eu vi aquela suspeição oficial, para mim foi muito claro, e, portanto, entre o comunicado e a minha comunicação, correu muito pouco tempo, deu tempo de eu falar com o Presidente da República, de eu informar ao Presidente da República, de eu ouvir o Presidente da República, de explicar ao Presidente da República e de anunciar ao país. Isso para mim era muito claro e acho que era a única coisa que, do ponto de vista da proteção da função de primeiro-ministro

E do ponto de vista daquilo que é, para mim, um imperativo ético no exercício daquelas funções, não havia outra solução.

Nestas situações há espaço para a família? Ou seja, há um telefonema à companheira, aos filhos, ou a pressão é tanta que isso só acontece depois?

Não, claro que falei com a Fernanda e ela também não teve a menor dúvida do que é que havia a fazer. Era muito claro para nós o que é que havia a fazer, pronto, e fiz.

Há pessoas que interrogam o porquê de o ter feito e dizem que, se sabia da sua inocência, se estava tão certo de que de não tem nada que se lhe possa apontar, porque é que se demitiu tão rápido?

Não sabia e sei, mas isso é uma coisa que eu tenho a certeza que a Justiça, espero que rapidamente, o esclareça.

Aliás, é isso que pede.

Agora, relativamente ao porque é que eu o fiz, eu fiz por isso. Uma coisa é um jornal dizer, uma televisão dizer que António Costa fez isto, António Costa fez aquilo. Isso é uma dimensão. Outra coisa é a entidade máxima do Ministério Público entender que há razões suficientes para oficializar essa suspeição e a comunicar ao país. Quando o faz, obviamente é legítimo que o país passe a ter dúvidas sobre a probidade do seu primeiro-ministro.

E havendo dúvida?

 Essa dúvida o país não pode ter sobre o primeiro-ministro. Obviamente vivemos numa democracia, portanto o país pode discordar do que o primeiro-ministro faz. Pode achar que o primeiro-ministro é competente ou incompetente, antipático ou simpático, está a fazer o que está certo ou a fazer o que está errado. Não pode ter dúvidas sobre a honestidade de quem exerce essa função, porque isso mina essa autoridade.

O facto de estarem outras pessoas associadas, da sua confiança e tão próximos de si, tornou essa decisão mais premente ainda?

Não, claro. Essa questão colocou-me uma questão prévia que era saber se a minha manutenção em funções prejudicaria ou não prejudicaria o andamento do processo. Essa foi a primeira questão que eu coloquei ao Presidente da República. Quando o comunicado saiu, a questão já não era a das outras pessoas, era de mim próprio. Portanto, quanto a isso, não havia mais nada a fazer a não ser aquilo que fiz, pelo menos na visão que eu tenho da função do que é ser primeiro-ministro, e da garantia e que o cargo de primeiro-ministro tem de merecer de respeitabilidade e de consideração por parte dos nossos concidadãos.

O seu chefe de gabinete está envolvido também. O nome dele é um dos que aparece. Aliás, a existência de dinheiro no escritório levou até a uma série de memes, de anúncios televisivos brincando com essa situação. Há desilusão da sua parte?

São dois temas distintos. O próprio Ministério Público esclareceu que esse dinheiro não tinha nada que ver com este processo. Relativamente a este processo, a minha convicção é de que também o professor Vítor Escária não fez nada de incorreto, mas não conheço o processo e, portanto, não o posso asseverar, mas é a convicção que tenho. Quanto ao resto, disse o que tinha a dizer na comunicação que fiz no sábado seguinte, quando tomei conhecimento. Quando eu apresentei a minha demissão no dia 7, não sabia da existência desse dinheiro, o dinheiro não tinha sido encontrado, creio eu que nem tinha sido encontrado, as buscas na residência oficial tanto quanto sei aconteceram na parte da tarde, e, portanto, já depois de ter apresentado a admissão. Mas isso, pronto, obviamente foi uma quebra grave de confiança, relativamente ao meu chefe de gabinete.

Depois de aceite a admissão, há que seguir em frente. Dorme-se nestes primeiros dias? Tem-se medo de enfrentar as pessoas, os outros ou não?

Não. Eu tenho a minha consciência muito tranquila, portanto eu sei o que é que fiz, o que é que não fiz, portanto eu conheço o último episódio desta série, não sei é quantos episódios vai ter esta série, ou quantas temporadas. Portanto, eu sei o fim e tenho a minha consciência totalmente tranquila.

Acham que a comunicação foi mal feita?

 A minha?

 Não, não. A do Ministério Público.

Ouça, eu não quero comentar quem fez o quê até esta história estar terminada, depois teremos tempo para comentar.

Ontem, nos comentários, deixe-me só brincar um bocadinho consigo, alguém dizia, já se arrependeu de ter nomeado Lucília Gago para o cargo?

Ouça, foi a escolha que se entendeu que devia ser feita, que o Governo propôs, o Presidente da República nomeou. A avaliação de tudo isto, acho que haverá tempo para fazer. Relativamente à sua pergunta. Não, quer dizer, quem está com a consciência tranquila anda tranquilamente sempre na rua e também lhe devo dizer, aquilo que eu tenho sentido da parte das pessoas na rua é que a confiança que têm não se gorou. E confiam. Têm sido aliás bastante simpáticas.

O que é que lhes dizem principalmente?

Umas não dizem nada, outras têm a gentileza de agradecer eu ter servido o país. Já percebi que é mais fácil ser ex-primeiro-ministro do que primeiro-ministro.

Leva-se menos na cabeça, falando de uma forma comum.

Leva-se menos na cabeça, e as pessoas até são mais simpáticas. Muitas pessoas, aliás, dizem, eu nunca votei em si, nunca concordei com o que fez, mas quero agradecer-lhe por ter-se disponibilizado para servir o país durante estes anos.

Mas acho que as pessoas têm uma atitude muito simpática. Até diria carinhosa.

E como é que se vive nessa dualidade? Porque, de facto, há os que o agradecem e dizem que foi e que é um dos melhores políticos portugueses de sempre, e com aqueles que, de uma forma muito leviana, acho eu, esse é o meu entender, vão pondo toda a gente na mesma caixa, dizendo que são todos iguais, uns ladrões, uns corruptos, o que quer que seja. E tem quem lhe diga isso e tem quem lhe agradeça pela sua inteligência e pelo facto de ser o político que foi. Como é que se vive nessa dualidade?

Eu tenho tido sorte, porque nestes anos todos, e eu nestes anos todos não incluo só os de primeiro-ministro, incluo todos os outros para trás, verdadeiramente até agora só houve uma senhora que um dia se levantou de uma mesa num restaurante para me vir criticar duramente, não violentamente, mas duramente, mas pronto.

Como é que reagiu?

Com serenidade. Ouvindo, pronto, o que é que ia fazer? Fora isso, tenho tido sorte, e espero continuar a ter.

E não deve ter muito tempo para ler comentários, pois não? Nas redes sociais, ou lê? Teve curiosidade de perceber o que é que diziam de si.

Não, os comentários nas redes sociais não leio. Isso não leio. Porque sei que as redes sociais é um espaço de expressão quase anonimizada. É onde as pessoas podem dizer os maiores deslates e, portanto, não, os comentários nas redes sociais não leio. Leio os comentários na comunicação social. Alguns também não leio ou não vejo, porque também já sei o que é que a casa gasta e, portanto, também me poupo, porque acho que nós temos de nos defender um pouco na nossa autoestima e para podermos seguir em frente. Mas eu não convivo mal com a crítica. Eu fui advogado ainda dez anos e sei o que era a vida de um advogado. Dois colegas, estavam ali, confrontavam-se, batalhavam. Pronto, e depois, no fim, saíam, despiam a toga e tomavam café, isso fazia parte da nossa atividade. E na vida política é a mesma coisa.

Uma coisa é a vivacidade do combate, da confrontação, que deve ter de manter obviamente um certo nível, uma certa regra. E a relação pessoal que as pessoas têm, porque cada um está ali a desempenhar o seu papel, cada um está a defender as suas ideias. Todos temos a mesma legitimidade para termos ideias diferentes. E, portanto, isso nunca beliscou ou afetou a minha relação pessoal. Com os cidadãos, tenho tido a felicidade de serem todos muito amáveis.

Na saída, agradece à Fernanda, a sua companheira. Vimos ali algumas imagens. São muitos anos em conjunto, a viverem tudo ao lado um do outro. Sentiu mesmo que naquele momento era a pessoa a quem queria agradecer por todos estes anos de sacrifícios pessoais, como falou?

Sim, acho que foi a pessoa que verdadeiramente mais teve de fazer sacrifícios, que que mais lhe custou esta atividade.

Quando um primeiro-ministro não dorme, a companheira também não dorme?

Não, isso ela dorme. E eu também sou pouco dado a afetar o meu sono.

Sabe lidar bem com a pressão e com os momentos mais difíceis?

Isso não sei se sei. Mas à noite, em regra, isso não me atinge. E quando me atinge o meu médico...

Os seus mandatos passaram por uma pandemia, por uma guerra, por uma crise financeira gravíssima. Aliás, onde é mais elogiado, tenho eu essa perceção, foi na altura da pandemia, a forma como agiu e como Portugal enfrentou a pandemia tem muito mão sua. E toda a gente o elogiou naquela altura. E chegou-se a equacionar o que seria de nós se não tivéssemos um primeiro-ministro como o António Costa. Tem esse pensamento em relação a si também? Que sabe que naquele tempo soube enfrentar a pressão do desconhecido?

Sim, foi um momento muito duro, muito difícil. E acho que as pessoas reconheceram a forma como nós gerimos aquele período da pandemia. Isso, claramente, acho que sim. Se me perguntar se foi o período mais difícil, eu dir-lhe-ia que não. Por estranho que pareça.

Qual foi?

Estes últimos dois anos com a inflação foram bastante mais difíceis porque a pressão era muito grande, o desgaste acumulado. E o impacto brutal que tinha na vida das pessoas e a falta de ferramentas. Porque nós, apesar de tudo com o covid, houve coisas que fomos percebendo.

Tivemos vacinas, aplicámo-las.

 Antes das vacinas, usando máscaras, no limite, fechando-nos em casa, nós conseguíamos controlar. Aqueles picos que subiam e depois começavam a descer, nós sabíamos que ao fim de três semanas aquilo começava a descer, ia descendo, ia descendo, ia descendo, ia descendo, depois podíamos aliviar um bocadinho. E depois de três semana lá vinha outra vez. Com a inflação é muito mais difícil, não é?

Porque, como se vê, sabíamos que levava dois anos. E as pessoas não têm dois anos para aguentar isso. E, portanto, foi o período mais difícil de gerir.

Mas tinha uma maioria absoluta. Pouco expectável. Na altura, ninguém o diria. Sentiu isso como um voto de confiança dos portugueses?

Claro. Foi um voto de confiança e até foi um voto de agradecimento pelo covid. Não tenho a menor das dúvidas. Muito daquele resultado eleitoral foi em reconhecimento do trabalho que tinha sido feito pelo covid, teve uma dimensão clara das pessoas não quererem instabilidade. E teve outra dimensão também de castigo relativamente a quem criou a instabilidade. A maioria absoluta tem virtualidades, mas há problemas que a maioria absoluta não resolve. A maioria absoluta não decreta o fim da inflação. E isso acaba por tornar o debate ainda mais difícil. As pessoas acham que se tem a maioria absoluta tem maior capacidade de fazer, porque é que não faz?

E não é?

E não é assim, porque há coisas que não é possível fazer. Sabíamos que a inflação ia levar tempo. O principal remédio que existia, a que o Banco Central Europeu recorreu, foi a subida das taxas de juros. O que para as pessoas, aliás, tem um sentido contrário a ser o combate à inflação, porque aumenta-lhes o custo de vida, aumenta-lhes o peso da prestação à habitação, e isso subiu de uma forma dramática.

Sobretudo num país como o nosso, onde as pessoas predominantemente têm taxas variáveis e não taxas fixas. Portanto, o impacto da subida das taxas de juros eu diria que foi tão ou mais doloroso para as famílias do que propriamente a inflação. E quando digo as famílias, falo no plural. Porque isto afeta não só a família das pessoas que estão a pagar a prestação, mas a família dos pais e dos sogros. São muitas famílias que estão associadas e que são atingidas por isto.

Os seus filhos não se queixaram?

 Bom, o meu filho é inquilino, portanto não se queixou. E a minha filha, que é ultra-previdente….

Sai a quem?

Eu acho que sai a ela própria.

Não herdou nada nem do pai nem da mãe?

Não, a Catarina e o João, o meu genro, são ultra-previdentes, portanto, eles tinham taxa fixa. Durante anos eram, aliás, bastante gozados pelos amigos por terem taxa fixa e acabaram por ser beneficiários da previdência.

A sua saída levou a eleições antecipadas, levou a uma crise política que, na altura, toda a gente dizia ‘era tudo que nós não precisávamos que nos acontecesse’ e levou a uma derrota do PS, se assim o quiser entender. Como é que viu estas eleições e o que é que esperou delas? Esperava esta derrota do PS?

Eu tenho evitado comentar a atualidade, portanto não vou comentar muito a atualidade. É evidente que as eleições foram...

São os governantes do seu país agora.

É verdade, é verdade. Não, e eu respeito, eu respeito. E tenho de lhes dar margem para governar. E acho que a pior coisa de que quem teve oito anos a governar é não dar espaço a quem chega agora para governar.

E por isso não gosta de se manifestar, é isso?

Não gosto de se manifestar neste momento. E passar documentado a comentador, acho que requer algum tempo. Acho que as eleições objetivamente ocorreram no pior momento possível para quem estava a governar. Nós estávamos a chegar ao momento em que a inflação começava a ceder visivelmente, em que a confiança dos consumidores tinha começado a melhorar em setembro e tem vindo a melhorar progressivamente, em que as taxas de juros finalmente tinham estabilizado e se pronuncia que vão começar a descer. Era difícil ter um pior contexto do ponto de vista económico e social para que as eleições se realizassem. E depois umas eleições que se realizam com um primeiro-ministro a demitir-se acusado de um processo – por muito que muito que as pessoas deem ou não credibilidade à acusação, isso não deixa de obviamente criar um efeito negativo.

Mas há quem diga que há um verdadeiro vencedor de tudo isto, que se chama André Ventura, líder do Chega, que passa a ter 50 deputados agora na Assembleia. Concorda com essa visão de que esta subida em relação a um partido como o Chega tenha que ver com essa inconstância política que se vive?

Então vamos fazer duas coisas distintas. Uma coisa é sobre os resultados efetivos. Os resultados efetivos é que 82% dos portugueses não votaram no Chega, ou melhor, 82% dos eleitores não votaram no Chega e 18% votaram no Chega.

Isto é um copo meio cheio.

Não. É que convém pôr as coisas nos seus devidos termos Porque um dos problemas - que não é nacional, existe à escala global - é que estes partidos populistas acabam por ter uma hiperatenção que os hipervaloriza. Para dar um exemplo distante e não incomodar ninguém na comunicação social portuguesa, nas últimas eleições na Suécia, todos os pontos de reportagens estavam na sede do partido de Extrema Direita.

Ou seja, a comunicação social para si - a nível mundial, não só em Portugal - tem aqui um papel de dar demasiada importância a este tipo de partidos?

Tem uma importância relativa superior àquilo que é efetivamente da sua importância real. Nós damos mais atenção ao Chega, aos 18% do Chega, do que aos 82% que não votaram no Chega.

Mas não há uma importância real quando se tem 50 deputados na Assembleia?

Não, isso é a outra dimensão. E é o facto de, objetivamente, do conjunto do resultado eleitoral, o que mais se distinguiu foi, efetivamente, a grande subida do Chega. O PSD pouco subiu, tenho a mesma ideia que, somando os votos que o Rui Rio [PSD] e o Francisco [Rodrigues dos Santos, CDS] tinham tido nas eleições de há dois anos, o resultado da AD fica aquém desse resultado. O PS obviamente perdeu votos, o PCP e o Bloco também perderam votos, e de facto o único que teve uma subida de votação significativa foi o Chega. Agora, daí a essa hipervalorização da atenção eu acho que isso acaba por ter um efeito de valorização desses partidos. Eu percebo que é muito mais sexy e geram muito mais audiência os soundbites, as atitudes de quem está de fora do sistema. Mas depois não nos podemos queixar que isso fragiliza o sistema.

Então quais são as expectativas para as europeias agora? Pelo PS, tem uma mulher que esteve ao seu lado dias e dias a fio, Marta Temido, que é a escolha que teria feito?

As escolhas dos partidos foram as escolhas que os partidos fizeram. Eu votarei obviamente no Partido Socialista, creio que ninguém ficará surpreendido de qual é o meu sentido de voto. Como estou agora um pouco distante, só tenho acompanhado aquilo que vejo na comunicação social.

Consegue? Não troca mensagens com os seus companheiros? Consegue ter essa distância?

Sim. É uma página da minha vida que eu virei.

Mas isso não quer dizer que a política esteja terminada?

Não, não está terminada e não tenho nenhuma agrura. Tenho, aliás, dito sempre à Fernanda que, quando eu ficar naquele estado em que vejo alguns ex-primeiros-ministros a estarem relativamente à política, avisa-me que é para eu me calar. Eu nunca tive na vida essa coisa de estar a olhar para trás. Eu acabei o liceu, fui para a faculdade e pronto.

Voltou à faculdade outra vez.

E agora voltei a estudar. Não fui à mesma faculdade, fui à outra. Estou na Católica a fazer um curso de pós-graduação.

Porquê sentiu a necessidade de voltar à faculdade?

Tenho que encontrar uma atividade profissional. Enfim, nas atividades profissionais, fora a colaboração que vou iniciar na concorrência, sai amanhã o primeiro artigo no Correio da Manhã, a minha formação é jurídica, fui advogado, e acho que agora não devo ser advogado. 

Porquê?

Porque acho que o exercício da advocacia, para quem esteve tantos anos afastado e esteve tantos anos na política ativa, receio que porventura os clientes procurassem menos o meu conhecimento jurídico e mais a minha lista telefónica e acho que não é essa a função dos advogados, não é disponibilizar números de telefone. E, portanto, a advocacia… não estava para aí virado.

Mas quer um período de alguma calma na sua vida? Porque toda a gente pergunta. Vai ser Presidente da República? Quer-se candidatar?

Não, não. Isso eu já disse sempre. Há muitos anos que eu digo que isso é um cargo que eu nunca exercerei na vida, nunca me candidatarei na vida.

Podemos estar descansados (risos).

Podem estar todos descansados. Isso nunca.

A Europa pode fazer parte do seu futuro?

Depende… das circunstâncias. Eu diria que com um processo pendente é muito difícil haver essa solução. E os tempos da justiça são os tempos da justiça.

Mas conhecendo-o como o conhecemos, não é um homem de ficar parado.

 Não, não, não.

Não começou logo, mentalmente, a visualizar aquilo que poderia ser para si?

Eu vou-lhe ser sincero. Para já, tem sido muito agradável não ter horário, ter bastante liberdade de vida. Não ter um horário, poder combinar fazer isto a esta hora ou fazer àquela hora. Pronto, isso é muito agradável, não lhe desconto.

Mas não é isso que sonha para a sua vida?

Não, quer dizer, sobretudo tenho medo de daqui a dois anos já estar cansado desta vida. Portanto, tenho que prevenir e preparar outra vida.

Porque é que põe essa baliza dos dois anos? Acha que é o tempo que vai demorar o processo?

Não sei se é dois anos, se é um ano, quanto tempo é que é, pronto. Tenho de me preparar. Do ponto de vista profissional, com a minha formação jurídica, há outras áreas de atividade, fora a advocacia, onde eu acho que posso ser útil.

A consultoria, tudo isso?

A consultoria ainda está nesse âmbito da advocacia. E há duas áreas onde eu acho que posso ter atividade, que é a área da mediação, ou seja, ajudar entidades ou pessoas que estão num conflito a superar esse conflito. Acho que aquilo que aprendi na política acrescenta à minha formação jurídica, ou à arbitragem. E foi isso que fui fazer. Portanto, é um curso, uma pós-graduação, que a Católica, por mero acaso, abriu naquela altura, de contencioso dos contratos, mediação e arbitragem. Portanto, comecei ainda quando era primeiro-ministro, em horário pós-laboral. Começou a 20 de fevereiro, termina a 20 de julho.

Os seus colegas não o estranharam, no início?

Acho que ainda estranham um bocadinho (risos), mas têm sido muito simpáticos. E primeiro tem sido muito interessante. É uma área do direito que não era propriamente a área de direito a que me dediquei profissionalmente, ou ao longo destes anos, onde me dediquei mais ao direito público do que ao direito privado.

Mas como é que se passa de ter todas as decisões do destino de um país e dos portugueses para o ‘pronto, é este o meu trabalho’? Como é que se ressaca de uma vida onde tudo passava por si, a tal história de que nem o telefone podia desligar, com o ‘agora é só isto que passa por mim’?

Mas eu sempre tive a noção de que aquela função era uma função temporária. Não foi a primeira vez que eu saí do Governo. Em 2000, quando deixei de ser ministro da Justiça, custou-me imenso, tinha um trabalho em curso e pronto, e acabou. Em 2005 foi um bocadinho diferente, porque saí do Governo para concorrer à câmara [de Lisboa], e depois quando saí da câmara também foi diferente, porque saí da Câmara para assumir a liderança do PS e concorrer a primeiro-ministro. Mas em 2000 foi assim, eu tinha uma atividade muito intensa e no dia a seguir deixei de ter essa atividade.

Já está habituado aos picos e aos...

Não, eu sempre tive a noção de que era algo... Aliás, eu dizia muitas vezes, nós estamos num ramo de atividade em que nós saímos de casa no início da função e podemos voltar a casa já sem essa função. Não há atividade mais precária.

A Fernanda está feliz com a sua presença em casa?

 Eu diria… Acho que sim.

Ainda não se queixou (risos)

 Acha que sente que eu hoje ocupo mais espaço em casa do que ocupava anteriormente.

E os seus filhos estão mais tranquilos com o pai ex-primeiro-ministro, dada a leveza que disse que é muito mais fácil ser ex do que...

Não, isso eu acho que para eles é a mesma coisa. Eu acho que eles sempre se habituaram a construir a vida deles, independentemente do que eu fazia. Acho que a fase dura para eles foi sobretudo na adolescência, em que eram muito confrontados com a exposição pública do pai. Como sabe as crianças e os jovens são bastante mais cruéis do que aquela visão idílica que nós temos das crianças e dos jovens, portanto acho que sofreram, acho que sobretudo o Pedro sofreu bastante num certo período da vida.

Até porque também ele gosta da área e está ligado, não é? É mais difícil possivelmente.

Sim, mas na altura não era isso, acho que na altura foi um período difícil, foi o período dos processos da Casa Pia, acho que as coisas foram duras e acho que para ele foram difíceis, mas pronto, acho que eles depois aprenderam a ganhar a sua própria carapaça, a criar os próprios passos, a sua independência. Cada um deles tem a sua vida e nós sempre tivemos uma certa regra que é deixar a atividade à porta de casa. E pronto, acho que eles não sentiram uma grande diferença, a Fernanda sim, porque agora convive mais com uma outra pessoa em casa.

[A Mariana Vieira da Silva] é uma pessoa que o conhece bem?

É engraçado, eu e a Mariana praticamente não nos conhecíamos até 2014. Eu digo-lhe sempre que tive a sorte de não a conhecer a tempo. O Fernando Medina, quando fizemos a lista para as autárquicas em 2013, para a Câmara de Lisboa, o Fernando Medina insistiu muito para colocar a Mariana em lugar elegível. Eu não a conhecia bem e não a coloquei em um lugar elegível. E digo-lhe sempre que foi a minha maior sorte, porque se ela tivesse ficado em um lugar elegível, ela teria ficado com o Fernando Medina na Câmara e eu não a tinha conhecido na campanha de 2014. Foi aí que eu a verdadeiramente conheci, 2014-2015. E depois foi a minha secretária de Estado Adjunta, foi a minha ministra e foi no Governo o meu braço direito ao longo destes anos.

Teve a responsabilidade de o substituir quando não pôde exercer as suas funções.

Sim, neste último Governo era ela que me substituía. Mas substituiu-me muitas vezes porque somos pessoas muito diferentes. Ela complementa muito, ela é hiper-estudiosa, sabe sempre tudo. Quando eu tenho uma dúvida de qual é este número, ela sabe o número de cor. É hiper-organizada, é muito boa a coordenar equipas e tem um grande talento político. Às vezes, enfim, acho que tem falta de ambição para aquilo que as qualidades dela mereciam.

Isto é um recadinho, Mariana.

Sim, ela precisa de ter mais ambição na política.

Eu sei que não gosta de se manifestar sobre a realidade atual, mas é inevitável, tendo-o aqui, não lhe falar das últimas declarações do Presidente da República, seu professor, que lhe deu uma belíssima nota. Neste caso há aqui um conhecimento de muitos anos, não é? Como é que as entende e de que forma é que acha que tudo isto pode ter impacto também no exercício do seu cargo enquanto Presidente da República?

É, como disse, eu não quero comentar a atualidade. Já comentei um bocadinho ali naquela espera que a CNN me fez, mas pronto, já está feito. E dizer ao Presidente da República que…

Guarda dele as melhores memórias neste processo todo, enquanto um foi primeiro-ministro e outro Presidente?

Eu guardo as memórias todas, as boas e as más, mas deve ser a minha tal costela oriental que me leva a valorizar as boas memórias.

Mas no momento da despedida, por exemplo, e da decisão de se demitir, Marcelo surpreendeu-o, fez aquilo que estava à espera ou não?

Isso, sabe, temos uma regra, eu tenho uma regra, e o Presidente da República também definiu sempre a mesma regra, de que as nossas conversas nem em memórias serão contadas.

Assinaram um contrato sobre isso?

Não, não é preciso, entre pessoas de bem não é preciso assinar um contrato, tem a palavra dada, está a palavra dada, e é fundamental, porque os momentos de encontro entre o Presidente da República e o primeiro-ministro têm que ser momentos de total abertura, de total confiança. A história conta que houve momentos em que essas conversas eram gravadas por desconfiança mútua,

Isso connosco nunca aconteceu, e sempre soubemos o que é que cada um disse ao outro, e entre nós tem de ficar, porque...

Saber sair na altura certa é um dom?

É o bom senso que os políticos devem ter.

 Foi o que usou para sair?

Naquela altura não tive a menor das dúvidas de que era o que tinha a fazer, e fiz. Muita gente agora diz que sabendo-se o que se sabe hoje foi um erro mas na altura não se sabia o que se sabe hoje.

E continua a achar que foi um erro agora? Saber o que se sabe hoje?

Não, na altura eu acho que fiz aquilo que tinha de fazer.

Mas se soubesse o que se sabe hoje, tinha-se demitido?

Se soubesse o que sei hoje é a mesma coisa que se a minha avó fosse viva. Infelizmente nenhuma das minhas avós é viva.

Neste processo todo houve alguém que o surpreendeu, a nível nacional e internacional, com a mensagem que lhe enviou?

Os meus colegas estrangeiros foram todos excecionalmente simpáticos. Cá dentro também, devo dizer, muitas pessoas que são meus adversários políticos habitualmente, foram extraordinariamente simpáticos, uns por ventura satisfeitos por se verem livres de mim, mas acho que foram essencialmente sinceros.

Mas vamos ouvir falar de si, não vamos?

Sim, quer dizer, eu não sei se fica bem fazer aqui publicidade da concorrência, mas eu passarei a escrever aos sábados no Correio da Manhã e há um novo canal em gestação no qual irei colaborar.

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