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Colunista e comentador

5 milhões para Paulo Gonçalves? Vão pró Milhazes!

25 mai, 19:03
Darwin Núñez festeja o golo que abriu o marcador no Ajax-Benfica (Getty Images)

Rui Santos escreve sobre a chegada de Schmidt ao Benfica, das promessas de Rui Costa e da operação a envolver a venda de Darwin Nuñez

Schmidt chegou a Lisboa, não prometeu que o Benfica vai “jogar o triplo”, mas trouxe com ele uma boa frase de marketing: “Quem ama o futebol, ama o Benfica!”

É uma frase forte que poderia, aliás, figurar num qualquer friso das bancadas do Estádio da Luz ou mesmo no Centro de Estágio do Benfica, no Seixal, mas foi pena que não tenha sido proferida por RUI COSTA ou por uma figura histórica dos ‘encarnados’, porque na verdade ficaria bem como cartão de visita das instalações desportivas do Benfica.

É o tempo das frases românticas e dos sorrisos, os adeptos já sabem que, na hora de mudanças e enquanto a bola não começa a saltar, tudo parece brilhar e ter mais encanto.

Os adeptos, no entanto, já estão escaldados com a falta de resultados dos últimos anos em contraponto com o número impressionante de promessas.

Faz parte! - vamos lá, então, relativizar.

O que não se pode relativizar são coisas que também têm a ver com amores e desamores, mas não exactamente no plano do mais puro romantismo.

Porque esta coisa do ‘amor’ aos clubes tem muito que se lhe diga.

Nem sequer é uma questão de marketing.

É uma questão de enganos e desenganos e é também uma questão relacionada com uma promessa de RUI COSTA durante a campanha eleitoral, agora recuperada pelo movimento ‘Servir o Benfica’ (SoB) e que tem a ver com a clarificação do comportamento do clube ‘encarnado’ (nesta presidência) no mercado de transferências.

“Os nossos sócios e adeptos têm de ter plena consciência das manobras que existem no Benfica” — disse, então, RUI COSTA no debate que protagonizou na BTV com o então candidato FRANCISCO BENITEZ.

A frase até nem foi propriamente a mais feliz, porque poderia intuir-se a confissão da existência de “manobras no Benfica”, no sentido mais pejorativo da expressão, na sequência de um conjunto de negócios muito mal explicados no tempo de LUÍS FILIPE VIEIRA, mas a intenção de RUI COSTA não foi certamente essa, apenas a vontade de não esconder nada aos sócios e adeptos — e daí este lembrete do “SoB”, apelando a que a promessa não caia em saco roto e se dê início à constituição de um Portal da Transparência com a explicação das tais… manobras.

No fundo, aquilo que venho defendendo há anos: a existência de clara predisposição para a criação de uma Casa das Transferências, nas quais fiquem registados TODOS os movimentos financeiros relacionados com vendas e aquisições de jogadores e treinadores.

Quem não deve, não teme, diz o povo, e já que os Governos, nesta matéria, nunca sairam do adro das intenções e só querem misturas com o futebol quando é para (ajudar a) “levantar a taça” (curioso verificar que, numa curiosa coincidência, as agendas de  MARCELO REBELO DE SOUSA e ANTÓNIO COSTA não contemplaram presença no Jamor…), seria honroso que fosse um presidente de um grande clube a propor uma iniciativa desta dimensão e significado.

Confesso já o meu pessimismo, pelas razões óbvias.

A minha proposta pública, como alguns de vós sabem, é bem mais radical, porque pressupõe a redução drástica do envolvimento dos chamados empresários nos negócios, porque entendo que os clubes só teriam a ganhar se tratassem directamente todas as questões entre ‘homens de mercado’ dos seus quadros profissionais, sem intervenção de (outros) ‘agentes’ e que os custos de eventual intermediação dos jogadores (e só destes) fossem suportados pelos próprios jogadores.

Os clubes ganhariam muito dinheiro e o ‘mercado paralelo’ teria muito menos campo de manobra (lá estão as… manobras!).

Isto faz-me lembrar — em campos diferentes e apenas, como é óbvio, na medida em que coisas aparentemente tão fáceis não mudam — a desgraça que aconteceu no Texas, com o presidente e a vice-presidente dos Estados Unidos, JOE BIDEN e KAMALA HARRIS, a perguntarem a si próprios, aos senadores e ao povo norte-americano por que razão não se age contra o lobby das armas?

Por causa do negócio — já se sabe — e por causa dos interesses subjacentes.

No caso do futebol, não estamos a falar de mortes trágicas, que coloca o tema numa dimensão incomparável, mas do denominador comum da dificuldade de desmontar lobbies associados a mercados paralelos ou a operações que lesam, neste caso, o interesse de instituições e, num universo de milhõ€s, a gestão desportiva e financeira de um clube ou de uma SAD.

Sabemos que vivemos um tempo em que os sócios já contam pouco, mas quando leio que RUI COSTA e o BENFICA tiveram de pagar 5 M€ a PAULO GONÇALVES e ao empresário de DARWIN para recuperar uma procuração que lhe dava poderes para  a operação de venda do jogador uruguaio, e colocar JORGE MENDES no centro dessa operação, imagino  na cabeça de alguns adeptos: “vão mas é pró MILHAZES”.

Podem dizer-me que, feitas as contas, o Benfica vai encaixar mais do que aquilo que pagou ao Almeria (24M€, segundo o que foi comunicado em Setembro de 2020 à CMVM), sabe-se que nesta operação de venda do jogador uruguaio, o clube espanhol tem direito a 20% do produto achado para a transferência se realizar, o contrato com o clube da Luz é até 2025 e a cláusula de rescisão está fixada nos 150M€, mas o montante que vai entrar efectivamente nos cofres do Benfica fica muito longe dos 100 M€ que são propalados, a dar ideia de um extraordinário encaixe.

Vão pró MILHAZES!

Esta sofisticação associada à entrada de empresários de negócios no futebol  e a falta de regulação associada a estas operações, para além da informação que nunca é completa, está a promover a inflação, a falta de transparência e o estímulo para se repetirem mecanismos desta natureza.

Digam-me lá: não era mais económico e verdadeiro, e já agora mais saudável para a economia real do futebol, montar operações mais simples e arrecadar qualquer coisa como 30 M€, achados entre o valor da compra e o valor da venda?…

Toda a gente já percebeu que estes valores superinflacionados são comidos por um conjunto de comissionistas que tornam tudo isto muito discutível, não para os interesses de quem ganha imenso dinheiro com estas lógicas de negócio, mas sobretudo para os clubes que reúnem à sua volta conselheiros fiscais, fiscalistas, advogados, empresários, intermediários e tutti quanti de uma “fauna negocial” que nunca se sabe onde começa e onde acaba, e para a qual tudo passa no crivo da legitimação.

Acena-se com a bandeira dos 100M€ e  turba delira.

Nestas coisas, quando o ‘povo’ torce o nariz, há duas expressões muito populares que são usadas amiúde: uma diz que “quando a esmola é grande, o pobre desconfia”; a outra é mais de indignação, em forma de pergunta: “… e ninguém vai preso?”

Não no sentido literal de alguém estar a cometer algum ilícito, mas porque a complexidade destas operações só serve para muita gente ganhar dinheiro (a repartição é outra conversa) quando o objectivo deveria ser promover o maior lucro possível — com menos intermediações — nos cofres dos clubes.

E aqui entra outra vez a função, as promessas de RUI COSTA e o Portal da Transparência.

Aí está uma belíssima oportunidade de RUI COSTA cumprir aquilo que prometeu na campanha eleitoral e explicar o negócio de DARWIN, tim tim por tim tim, como se fôssemos todos crianças de 5 anos.

São mesmos necessários tantos intermediários? Porquê?

Seria uma explicação até pedagógica e colocaria RUI COSTA num patamar mais elevado, considerando as suas promessas de transparência.

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