Treze anos depois do acidente do voo 447 que matou 228 pessoas, Air France e Airbus enfrentam julgamento

CNN Portugal , MJC
10 out 2022, 08:00
Destroço do voo AF447  (AP)

Julgamento começa esta segunda-feira no Tribunal de Apelação de Paris. Processo foi instaurado pelos familiares das vítimas e pelos sindicatos dos pilotos

Nicolas Toulliou tinha acabado de propor casamento à sua namorada. Nelson Marinho Jr. iniciava um novo trabalho numa plataforma de petróleo. Eric Lamy estava prestes a comemorar o seu 38º aniversário. Eles estavam entre as 228 pessoas que morreram a 1 de junho 2009, quando o voo da Air France, que ia do Rio de Janeiro para Paris, caiu no meio do oceano Atlântico. Depois de mais de uma década de batalhas legais, as suas famílias têm uma nova oportunidade para que se faça justiça: a Airbus e a Air France são acusadas ​​de homicídio no julgamento que começa esta segunda-feira, no Tribunal de Apelação de Paris.

Foi o pior acidente na história da Air France. Nele morreram pessoas de 33 nacionalidades. E levou a alterações importantes nos regulamentos de segurança aérea - incluindo no treino dos pilotos. Mas, apesar de a Air France já ter indemnizado as famílias, as empresas insistem que não são criminalmente responsáveis.

Espera-se que o julgamento, que se irá prolongar até dezembro, se concentre em dois fatores principais: o congelamento dos sensores de velocidade e altitude e os erros do piloto. Um total de 476 familiares constituem a parte civil. Cinco dias serão dedicados àqueles que desejam testemunhar.

“Prometemos aos nossos entes queridos que procuraríamos a verdade para garantir que eles não morreram em vão”, disse Ophelie Toulliou, que perdeu o irmão de 27 anos, Nicolas, à Associated Press (AP). “Mas também estamos a lutar pela segurança coletiva, de facto, para todos aqueles que todos os dias embarcam num Airbus ou na Air France.”

Segundo esta familiar, as empresas consideram-se “intocáveis” e a Airbus não fez nenhum esforço para responder às preocupações das famílias. “Para eles, não somos nada. Eles não perderam 228 pessoas. Eles perderam um avião.”

O que aconteceu ao avião?

O voo AF447 saiu do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, às 19:30 do dia 31 de maio de 2009 com 216 passageiros e 12 tripulantes a bordo. No comando, estava o piloto Marc Dubois, de 58 anos.

O avião, um A330-200 com matrícula F-GZCP, que tinha sido fabricada em 2005, começou a enfrentar forte turbulência por volta das 2:00 do dia 1 de junho, quando estava sobre o Atlântico. Uma mensagem automática recebida em terra dava conta de uma falha no circuito elétrico. Depois disso não houve mais contactos. O aparelho desapareceu dos radares sobre o Oceano Atlântico entre o Brasil e o Senegal. 

Os primeiros vestígios só foram vistos no mar cinco dias depois. E só em 2011 é que o avião – assim como a maioria dos corpos e as caixas negras  – foram localizados no fundo do oceano, numa busca sem precedentes a mais de 13 mil pés de profundidades.

No ano seguinte, a agência francesa de investigação de acidentes aéreos BEA concluiu que o acidente se deveu uma sucessão de eventos, não sendo possível identificar uma causa única. Fatores técnicos associaram-se a erros da tripulação.

Quando uma tempestade atingiu o avião, cristais de gelo presentes em grandes altitudes desativaram os sensores do avião, bloqueando as informações de velocidade e altitude. O piloto automático desligou. Na altura, estavam apenas os dois copilotos na cabina. O comandante tinha ido dormir, mas voltou 11 minutos depois já após uma manobra manual de um dos seus ajudantes, que se revelou um erro fatal, umavez que tinha dados de navegação errados.

O comandante ainda tentou inverter a queda mas o avião voava já a tão baixa velocidade que foi impossível. O aparelho levou exatamente três minutos e 30 segundos a mergulhar nas águas do oceano Atlântico.  O A330 atingiu o oceano por volta das 2:05, afundando-se logo em seguida e matando todas as pessoas que transportava.

Após uma longa sucessão de perícias, os magistrados franceses consideraram que o acidente não tinha paralelo na aviação, o que impediu que os tripulantes agissem de forma correta para evitá-lo. Os juízes de instrução arquivaram o caso em 29 de agosto de 2019.

Indignados, familiares das vítimas e sindicatos de pilotos recorreram e, em 12 de maio de 2021, o Ministério Público abriu o processo por homicídios involuntários às duas empresas.

O que está em causa no julgamento?

Na verdade, ninguém corre o risco de prisão neste caso; apenas as empresas estão em julgamento. Cada uma enfrenta multas potenciais de até 225 mil euros –  mas podem sofrer danos à reputação se forem considerados criminalmente responsáveis.

A Air France é acusada de não ter implementado formação em caso de congelamento dos sensores, apesar dos riscos identificados. A Airbus foi acusada de ter "subestimado a gravidade das falhas dos sensores de velocidade instalados na aeronave A330, ao não tomar todas as medidas necessárias para informar com urgência as tripulações das empresas operadoras e contribuir para a sua formação eficaz".

As falhas nesses sensores foram registadas nos meses anteriores ao acidente. Após o desastre, o modelo foi substituído em todo o mundo.

"É um julgamento que será muito técnico", disse Alain Jakubowicz, advogado da Entraide et Solidarité, à AFP. "Estamos preparados para isso, mas a nossa preocupação é recuperar a dimensão humana. (...) São homens, mulheres, crianças, que estão mortos, que podiam ser vocês ou eu", declarou.

Em comunicado, a Air France garantiu que "guarda a memória das vítimas deste terrível acidente e expressa a sua mais profunda solidariedade a todos os seus entes queridos". A empresa diz que "vai continuar a demonstrar que não cometeu qualquer delito criminal que esteja na origem do acidente".

A fabricante europeia Airbus não quis pronunciar-se antes do julgamento. 

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