Novo aeroporto: “A opção Alverca foi ignorada porque o próprio ministro foi mal informado pelos técnicos”

11 set, 21:07

Em entrevista à CNN Portugal, José Furtado, que lidera um grupo de peritos que tem um projeto para colocar o novo aeroporto na base aérea de Alverca garante que essa opção permitiria poupar 15 mil milhões de euros em relação a Alcochete

O projeto desenvolvido por um grupo de peritos nacionais prevê a criação de um aeroporto em Alverca, que ficaria ligado a um terminal a manter na Portela apenas para voos de médio curso. O plano já foi entregue ao governo, e também mais recentemente foi apresentado a Luis Montenegro.

Os especialistas que o elaboraram avisam que a opção tem de ser considerada nos estudos que vão ser lançados pelo Executivo uma vez que “é melhor e mais barata” do que as outras. Numa entrevista exclusiva à CNN Portugal, José Furtado, engenheiro que lidera o grupo de peritos, adianta que fizeram uma candidatura oficial ao Parlamento para entrar na Avaliação Ambiental Estratégica em breve será lançada pelo governo em que serão comparados os vários locais que podem receber o novo aeroporto. E explica que se o concurso lançado pelo ministro Pedro Nuno Santos para uma empresa comparar as opções Montijo, Alcochete e Portela não tivesse sido suspenso, eles teriam avançado para Tribunal por considerarem que a avaliação em curso não tinha base legal nem “salvaguardava o interesse nacional”.

Do grupo de peritos faz parte além de José Furtado, , especialista em Ppaneamento Estratégico de Infraestruturas de Transporte, Carmona Rodrigues, especialista em hidrálica, António Gonçalves Henriques, antigo diretor da Agência Portuguesa do Ambiente; António Segadães Tavares , , autor dos projetos da ampliação do aeroporto da Madeira, Fernando Nunes da Silva, urbanista e Ricardo Ferreira Reis, Rui Vallejo de Carvalho e Luis Póvoa Janeiro, todos da Universidade Católica.  

Em que consiste este projeto do aeroporto em Alverca?

O nosso conceito é fazer um só aeroporto, um só hub que inclui a Portela e Alverca. Ou seja, serão dois terminai, unidos por um shuttle dedicado. A ideia é não dividir tráfego e este estar concentrado na mesma operadora e funcionar de forma una.

Ou seja, o que defendem é que a junção do Aeroporto da Portela com um em Alverca?

Sim, interligados por o shuttle, como há pelo mundo. Alverca fica a 14 quilómetros da Portela e facto de serem os dois na mesma margem permite fazer este comboio automático e o passageiro não paga nada pois é só do aeroporto

Como surgiu a ideia do Aeroporto em Alverca?

Num meio de um estudo colateral sobre o abastecimento da Portela, a ideia surgiu depois de ter ido a Alverca numa visita ao local. A partir daí iniciei o projeto. Depois vários peritos foram-se juntando por acharem que é a melhor localização. Pelo meio, em logo em 2016 contactei a concessionária dos aeroportos, ou seja, a Vinci, para lhes apresentar o conceito mas eles não mostraram interesse e disseram-nos que estavam já muito adiantados com o Montijo.

E quando apresentaram a ideia ao Governo?

Em dezembro de 2017

A ideia é fazer o aeroporto na base aérea de Alverca?

Aproveitamos a base aérea e a envolvente que está devoluta. Assim,  juntando estas duas à sorte de ter um mouchão que é uma ilhota fluvial que está encostada permite-nos ter uma área de 1200 hectares. Somando estes mais os 450 hectares da Portela teremos um aeroporto de 1650 hectares. Para se ter uma ideia o aeroporto de Heathrow, em Londres, tem 1250 hectares

Se este projeto já foi em tempos apresentado ao Governo porque nunca foi considerado?

As vezes são coisas inexplicáveis. Alverca sempre foi considerado o sítio ideal em termos de localização de transportes: está na ponta CREL, está perto de Lisboa, tem a Linha do Norte e a futura linha de Alta Velocidade passa por lá. Por isso, em temos de acessibilidades e de distância à cidade de Lisboa a localização é a melhor. E, se virmos estudos anteriores. só punham um único ‘senão’: a pista conflituava com a pista da Portela. E o que pensámos foi: “Porque não fazer uma pista nova, que fosse paralela à da Portela”.  Foi tão simples como isso, que é, aliás, o que se faz pelo mundo fora. Em Paris, por exemplo, nos aeroportos de que a Vinci é concessionária foi o que se fez e uma das pistas do aeroporto mais antigo rodou nove graus para ficar paralela a uma outra pista.

E aqui neste projeto em Alverca foi isso que fizeram?

Sim. Rodou-se a pista 10 graus e ficou paralela à da Portela. Aproveitámos e não fizemos apenas a rotação, mas também uma ripagem lateral de 300/ 400 metros com o objetivo de as duas trajetórias nas duas direções ficarem sobre água. Ou seja, o objetivo é ter as duas trajetórias sobre água e não sobre território.     

E qual será a capacidade desse aeroporto?

As últimas projeções, de forma otimista, indicam que Lisboa chegará aos 67 milhões de passageiros por ano, por volta de 2050. Quando se mede a capacidade de um aeroporto o que interessa é o número de movimentos em termos aéreos, e com base no valor que a ANAC considerou no futuro, que será de 155 passageiros em média por avião, já tenho em conta a taxa de ocupação, estimamos que sejam precisos 420 mil movimentos o que com duas pistas paralelas que é o que nos temos é mais do que suficiente.

Mas os movimentos seriam iguais na Portela e Alverca?

Queremos limitar os movimentos na Portela e por isso impomos um teto à Portela de 110 mil movimentos por ano o que quer dizer que sobra mais para Alverca . Aqui temos uma pista que é usada como taxiway, mas no futuro pode também entrar como pista em atividade. Nesse caso sobe imediatamente a capacidade do conjunto.

E nesse cenário mais alargado a capacidade chega a que valor?

O nosso conjunto pode ir até 500 mil movimentos, que é mais do que alguma vez se espera que Portugal venha a ter.

Ou seja, a Portela funcionaria só a certas horas e Alverca estaria sempre aberto. É isso?

Exatamente. A Portela só teria voos das 7 às 23h, e isto com teto de 110 mil movimentos anuais. Ao fim de semana e no Natal arrancaria mais tarde, por volta das 9/10 horas. Alverca tem trajetórias sob água o que é menos incomodativo e está mais afastado da população. Estamos a quase dois quilómetros da população.

O que preveem para a Portela?

Quando reduzimos a Portela em movimentos, também reduzimos o tamanho do avião que ali opera. Passam a ser só aviões de médio curso. Como a Portela tem uma pista longa podemos andar com as chuleiras de aterragem para dentro e o avião passa a aterrar 1200 metros para dentro o que faz com que sobrevoe muito mais alto a cidade. Outra vantagem é que há uma regra de segurança não escrita, mas praticada de que os últimos 1500 metros antes da pista não devem ter habitação. E assim esses 1500 metros ficam todos dentro do aeroporto e passa a ser um aeroporto citadino com boa convivência com a população. Com a Vinci há 288 mil pessoas a serem afetadas com ruído excessivo por causa do aeroporto, a nossa solução permite que sejam apenas 16 mil.

 

Mas não há um problema ambiental? Uma parte do aeroporto de Alverca ficaria na reserva natural do estuário do Tejo. Isso não pode inviabilizar o projeto?

Foi um cuidado que tivemos sempre desde o início. De facto, está dentro da área natural do estuário do Tejo, mas está rasante. Está numa extremidade. E está numa reentrância do Tejo. O que fazemos é o percurso ao longo dessa reentrância.  Além disso, com o colapso do dique, não há ali animais terrestres, e no que se refere às aves, nesta margem norte do Tejo, há apenas 1% do total  existindo na margem sul, onde se Montijo e Alcochete, 99%. E há uma questão importante, nesta solução há uma compensação ambiental importante que é afetar, em temos de ruído, menos 260 mil pessoas.

A localização, devido aos vários acessos, é a mais-valia do projeto?

É uma grande mais-valia. O mouchão é, na verdade, uma sorte para Portugal, pois é aproveitado tanto para colocar as pistas aeronáuticas, como para fazer o corredor de mobilidade da entrada em Lisboa. Em cima do Mouchão podemos fazer oito quilómetros de via férrea, em substituição de túneis. 

E há outra vantagem que é a de que mais de 85% % das origens de destino são na margem norte do Tejo e assim não é preciso construir a travessia do Tejo, ou seja, a Ponte Chelas-Barreiro por causa do aeroporto.

Mas essa travessia não é necessária para a ligação Alta Velocidade Lisboa -Madrid?

Sim, mas nesse caso a travessia Lisboa-Madrid seria feita na zona de Alverca, onde apenas é necessária uma ponte de baixa altura e no local mais estreito do Tejo. Em Alcochete seria uma ponte de cerca de sete quilómetros, enquanto em Alverca será de pouco mais de um quilómetro. Os custos serão muitos diferentes.  A ponte em Alcerca que será ferroviária e custará 10% da Ponte Chelas-Barreiro que será rodo-ferroviária

Além do aeroporto em Alverca, está prevista mais algumas infraestrutura no projeto?

Sim, é uma solução integrada. Tem uma estação ferroviária acopolada, que serve aeroporto e região. Estamos no topo da CREL e muitas pessoas que são de Cascais e que hoje para apanhar o comboio têm de vir a Lisboa vai diretamente ao aeroporto em Alverca à estação exterior e apanha o comboio.

E o que contempla mais?

O shutlle dedicado de ligação de Alverca a Lisboa que já está estudado e que e que grande parte será ao longo do mouchão. Aquela ponte e um parque de estacionamento grande.

Qual é o custo deste aeroporto?

Separamos em duas fases.  Queremos por rapidamente a funcionar o tráfego budget para conseguir suprimir a deficiência de capacidade que existe em Lisboa. Começamos com duas pistas combinadas de 2600 metros, o comprimento necessário para médio curso budget, e depois prolongamos uma das pistas para quatro mil metros. E nessa altura o tráfego de longo curso passará todo para Alverca e deixa a Portela. Mas a ideia é arrancar rápido e basta fazer um só um terminal lowcost e aquelas duas pistas logo na primeira fase. E aproveitamos o projeto da Vinci para o Montijo que já desenharam um terminal para não perder tempo. É fácil porque em Alverca já existe estação uma pista e um taxiway . Por isso, terá custo baixo.

Qual será esse custo então?

Na primeira fase prevemos arrancar com 350 milhões de euros. Já com capacidade superior à do Montijo.  Ao fim de 4 anos e meio o aeroporto estará completo e terá capacidade para 50 milhões de passageiros.

E o custo total será qual?

Dois mil milhões de euros, sem a ponte e sem shuttle que são negócios à parte, pois é autofinanciado. nO mais complexo é caro é fazer o terminal maior.

Porque acha que agora a proposta vai ser considerada quando antes não o  foi?´

Nunca entendemos porque nunca fomos considerados, uma vez que fomos a única solução que atempadamente estregou uma avaliação estratégica ambiental. Entregámos à tutela, à Agência Portuguesa do Ambiente e publicamos num site próprio. Fez-nos muita confusão o nosso conceito não ser analisado. A Assembleia da República tomou uma decisão de, em novembro de 2020, tornar obrigatória uma Avaliação Estratégica Ambiental que define a comparação de todas as propostas existentes e esperámos ser contatados.

Mas nunca foram contactados?

Não. O Governo lançou um concurso para contratar uma empresa para fazer essa AEA, mas só foram contempladas três opções: Portela, Alcochete e MontijoQuando íamos contestar o contrato foi anulado.

Está a falar da decisão de Pedro Nuno Santos ter avançado para o Montijo sem essa avaliação, o que depois levou António Costa a revogar a decreto?

Se tivessem prosseguido tínhamos apresentado um requerimento ao Tribunal de Contas a dizer que ma salvaguarda do Interesse Público a nossa solução  é muito menos onorosa do que as outras em cima da mesa. É preciso perceber que é obrigatório todas as soluções credíveis serem tidas em conta. Pode-se depois fazer uma primeira seleção, mas todas tem de ser consideradas E o que diz legislação e Portugal já foi julgado por isso e perdeu

António Costa ainda não anunciou o que decidiu em relação ao aeroporto. Acredita que agora todas as opções vão ser consideradas?

Sim acredito não só a nossa como a que apareceu agora de Santarém. Não há razão para não ser.

E nessa altura se não foram integrados no estudo recorre?

Se não formos tidos em conta iremos recorrer para tribunal. E não seremos só nós: a Zero já disse que a nossa solução tem de entrar pois não há razão nenhuma para o contrário

Mas sabe a razão de não ter entrado nesta última avaliação?

Descortino uma coisa e já esclarecemos essa questão ao ministro Pedro Nuno Santos. Eu acho que a opção Alverca foi ignorada porque o próprio ministro foi mal informado pelos técnicos sobre a questão da pista. Disseram-lhe que ia parar ao meio do Tejo e por isso considerou que a proposta não era credível.

A questão já está ultrapassada?

Acho que o assunto já foi ultrapassado porque já esclarecemos isso à tutela. Já explicamos que a nossa solução é a que esta a ser feita em Paris, onde é a Vinci que opera os aeroportos e é acionista. Foi um mal-entendido e está resolvido. Houve um erro da parte de quem deu a informação ao ministro.

Mas como e que os técnicos dão informações erradas?

Em Portugal não existem pistas paralelas e por isso é normal que essa falta de experiência tenha gerado algum receio em relação a uma novidade

Tem mantido contato com o Governo sobre este projeto?

Temos enviado sempre a documentação para o Governo, partidos, Assembleia da República, Zero, ANAC, Ana e mais algumas entidades.  E formalizámos ao Parlamento a nossa candidatura oficial para entrar na Avaliação Estratégica Ambiental, que o Governo vai ter de lançar.

Quanto é que esta solução permite poupar em relação aos outros cenários?

Montijo é uma solução coxa e não se pode comparar. Todo o longo curso vai ficar na Portela porque o Montijo tem uma pista muito curta. Em relação a Alcochete é uma grande surpresa pois Alcochete o preço foi estimado sem englobar uma série de custos colaterais e conexos, tendo havido inclusivamente um alerta das próprias Forças Armadas. Era sabido nessa altura, mas não entrou no custo, que teria de ser feita uma nova pista militar no Montijo pois as pistas em Alcochete iriam afetaram essa pista militar.

E o que não entrou mais nos custos?

Não foi considerado o custo nem risco dos embates com aves. E também não entrou o custo da ponte Chelas- Barreiro que é necessária para o aeroporto.

Com Alverca poupa-se quanto?

Em termos de custos diretos, deve representar em relação a Alcochete, imputando todos os custos, 15 mil milhões de euros em poupança.

E no que se refere às receitas?

Haverá grande diferencial quanto às receitas pois as tarifas de Alcochete para serem competitivas com as internacionais têm de ser mais baixas do que as de Alverca. E há também os custos para a sociedade.

Que custos são esses?

Uma vez que Alcochete obriga a uma perda de tempo de mais uma hora é preciso ver o que isso vale. Segundo o LNEC, hora deve ser valorizada a 25 euros. Então se se estima 1500 milhões de passageiros na vida útil do aeroporto, até 2062, é preciso multiplicar esse valor por 25 euros. E esse será o custo para a sociedade de estar mais perto ou mais longe. É uma brutalidade.

Relacionados

Governo

Mais Governo

Patrocinados