Putin revela que pôs o seu ministro da Defesa a ligar para a NATO

27 out, 20:38
Vladimir Putin

Presidente russo revela ainda contactos com os Estados Unidos sobre o controlo de armas nucleares. Problema, segundo Putin: não houve resposta

Um jogo "perigoso, sangrento e sujo" que coloca o mundo perante a "década mais perigosa” desde o fim da Segunda Guerra Mundial: Vladimir Putin teceu esta quinta-feira duras críticas ao Ocidente e aos seus líderes e ex-líderes - nem Liz Truss foi esquecida num longo discurso em que o presidente russo defendeu também a doutrina militar e os valores do seu país. “O mundo unipolar é coisa do passado. Estamos numa fronteira histórica. À frente está a década mais perigosa, imprevisível e, ao mesmo tempo, importante desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, afirmou no Valdai Discussion Club em Moscovo.

O presidente russo abordou a "operação militar especial" em curso na Ucrânia, justificando que o que está a acontecer é "inevitável" e culpou o Ocidente por criar a crise – uma afirmação que faz repetidamente desde o início da invasão. “As mudanças na Ucrânia não começaram com o início de uma operação militar especial. Essas mudanças têm vindo a acontecer há muitos anos. A mudança tectónica na ordem mundial tem vindo a acontecer já há muitos anos”, disse Putin, prosseguindo: "O alargamento da NATO com a Ucrânia era totalmente inaceitável para nós e todos sabiam disso. Russos e ucranianos são historicamente um só povo. É quase como uma guerra civil o que está a acontecer".

Aliás, para Vladimir Putin, a região leste do Donbass “não teria sobrevivido” por conta própria se a Rússia não tivesse intervindo militarmente na Ucrânia. E admitiu: "Naturalmente tivemos algumas perdas, tivemos alguns efeitos da ação militar, nomeadamente por causa das sanções económicas". "Mas em última análise isto será o melhor para a Rússia", garante. "Estamos a fortalecer a nossa soberania, especialmente económica", apontou. "Havia uma preocupação de que a Rússia se tornasse uma colónia, que não tivéssemos o nosso próprio mercado ou capacidade de produzir a nossa própria tecnologia sem o Oeste. Dizia-se que íamos ser destruídos, mas não fomos. Concluímos que somos um grande poder"

No início do seu discurso, Vladimir Putin enfatizou a necessidade de resolver as relações com os países ocidentais, acrescentando que Moscovo “nunca considerou e não se considera um inimigo do Ocidente”. Ainda assim, termina as declarações a afirmar que a situação atual em todo o mundo tem os “pré-requisitos para uma revolução”. Mas pelo meio houve muito mais.

Os telefonemas para a NATO

Vladimir Putin tocou naquele que é um dos pontos mais sensíveis em torno da guerra da Ucrânia: armas nucleares. No discurso, garantiu que a Rússia nunca falou sobre o uso de armas nucleares e afirmou que Kiev tem a tecnologia para criar e potencialmente detonar uma “bomba suja” na Ucrânia - e, sobre isso, deixou claro que ordenou diretamente que o seu ministro da Defesa fizesse uma série de chamadas para os principais comandantes da NATO.

Aliás, Putin justifica que a doutrina militar da Rússia apenas permitiu que o país usasse armas nucleares na defesa, rejeitando alegações de que a Rússia estaria a considerar usá-las na Ucrânia. E, nesse sentido, adianta que a Rússia está pronta para retomar as negociações com os Estados Unidos sobre o controlo de armas nucleares mas não teve resposta de Washington sobre as propostas de Moscovo para conversas sobre "estabilidade."

Nas declarações, o presidente russo disse que o Ocidente, incluindo Liz Truss, envolveu-se numa "chantagem nuclear" contra a Rússia e rejeitou as alegações de que as forças russas estariam a atacar a central nuclear de Zaporizhzhia - localizada em território controlado pela Rússia no sul da Ucrânia. "Liz Truss estava louca quando falou de armas nucleares. Encarámos isso como chantagem."

Putin acusa o Ocidente de “encenar revoluções coloridas” noutros países, “como a da Ucrânia em 2014”. "Não há unidade no Ocidente", considera o presidente russo, sublinhando que o Ocidente deu “vários passos em direção à escalada” nos últimos meses. “Eles estão a alimentar a guerra na Ucrânia, aumentam as provocações em Taiwan, desestabilizam os mercados mundiais de alimentos e energia. O Ocidente quer impor a todo o mundo os seus valores e modelos de consumo. É como se a cultura ocidental quisesse aniquilar as outras culturas." Recorrendo a uma citação de Dostoiévski, o presidente russo disse assim: "Começando na liberdade ilimitada, cheguei ao despotismo ilimitado" - é neste ponto que está o Ocidente, afirma Putin.

"É uma característica deles desde os tempos coloniais porque acham que o resto do mundo é inferior enquanto apenas eles pertencem à elite", acusa. "Mas eles não têm o direito de exigir que os outros sigam os seus passos." Na sua opinião, os EUA e a União Europeia "não têm nada a oferecer ao mundo além da sua dominação". "A Rússia não está a ameaçar o Ocidente. Está só a defender legitimamente o seu direito a existir", declarou. "Querem apagar-nos do mapa político."

A Rússia não se considera inimiga do Ocidente, diz o presidente russo. "A Rússia é vítima da russofobia do Ocidente. "Tentámos manter relações com o Ocidente e com a NATO" mas o Ocidente "impôs sanções a todos os que não se quiseram submeter" às suas ordens. "Neste momento não há relações estáveis" entre a Rússia e o Ocidente. Por isso, Putin declara que está disponível para um diálogo entre a Rússia e Ocidente, que poderá restaurar a "multipolaridade" no mundo. 

Além disso, também deixou claro que ninguém pode dizer à Rússia como construir a sua própria sociedade: “O Ocidente pode fazer o que quiser com as paradas gays mas não deve ditar as mesmas regras para a Rússia”. Putin reprimiu repetidamente os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo num esforço para defender o que o seu regime considera valores familiares tradicionais.

Este discurso ocorre horas depois de os legisladores russos terem concordado em endurecer a lei discriminatória do país contra a chamada “propaganda” entre pessoas do mesmo sexo, proibindo todos os russos de promover ou “elogiar” relacionamentos homossexuais ou sugerir publicamente que eles são “normais”. A versão original da lei adotada em 2013 proibia “propaganda de relações sexuais não tradicionais” entre menores.

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