Como um inverno sombrio vai testar como nunca o apoio da Europa à Ucrânia

CNN , Análise de Luke McGee
22 ago, 22:00
Um inverno sombrio vai testar como nunca o apoio da Europa à Ucrânia

ANÁLISE. A situação está prestes a tornar-se muito mais difícil. A maioria reconhece que ninguém faz ideia de como este conflito vai terminar

Seis meses depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia, a resposta do Ocidente à crise manteve-se forte e em grande parte unida, para surpresa de muitos.

Apesar de anos de relações comprometidas durante a era do ex-presidente dos EUA Donald Trump e da pandemia Covid-19, a aliança transatlântica conseguiu unir-se e chegar a acordos sobre o apoio financeiro e a doação de armas a Kiev, acordos para deixar de usar energia russa, bem como sanções destinadas a atingir o Presidente Vladimir Putin e os seus comparsas.

No entanto, quando a crise atinge meio ano, as autoridades de toda a Europa receiam que o consenso possa desmoronar-se à medida que o continente entra num inverno desolador de subida dos preços dos produtos alimentares, energia limitada para aquecer as casas e a possibilidade real de recessão.

Vários funcionários e diplomatas ocidentais falaram com a CNN sob condição de anonimato para descrever de forma sincera conversações sensíveis entre os governos.

Num possível vislumbre das medidas mais draconianas que serão implementadas, a capital alemã, Berlim, desligou as luzes que iluminavam os monumentos para poupar eletricidade, enquanto as lojas francesas foram aconselhadas a manter as portas fechadas enquanto o ar condicionado está ligado ou ficam sujeitas a multa.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que captou a imaginação do Ocidente e pressionou os países para apoiarem o seu esforço de guerra, poderá ter mais dificuldade em chamar a atenção dos seus colegas líderes europeus à medida que o conflito se arrasta.

"O desafio para a Ucrânia mantém-se desde o primeiro dia: manter o Ocidente ao seu lado, pois os custos de apoio a Kiev atingem os seus próprios países - não só a chantagem de Putin quanto ao gás e aos cereais, mas também o custo do apoio económico e humanitário", diz Keir Giles, um consultor sénior do think tank Chatham House.

"Pode muito bem ser esse o motivo por que Zelensky declarou que queria que a guerra terminasse antes do Natal, porque as verdadeiras questões vão fazer com que o Ocidente cumpra as suas promessas a longo prazo."

A crise dos combustíveis de inverno é algo em que os funcionários e diplomatas europeus pensam diariamente, com a Rússia a representar cerca de 55% das importações totais de gás da Europa em 2021.

Os países europeus também recorrem muito a petróleo russo, com quase metade das exportações russas de petróleo a ir para o continente. A UE terá importado 2,2 milhões de barris de petróleo bruto por dia em 2021.

"No seio da União Europeia, será muito difícil e temos de tentar cumprir a nossa promessa de cortar a Rússia no que diz respeito a quaisquer lucros de gás e outras fontes", diz um diplomata europeu sénior, referindo-se a um acordo alcançado entre os Estados-membros da UE para reduzir em 15% a sua utilização de gás russo.

No entanto, o acordo tem sido criticado por ser voluntário, e os funcionários temem que, quando chegar a hora da verdade, alguns países da UE simplesmente não cumpram a sua parte.

"Há a bolha da Europa Ocidental que está protegida à distância e não se convenceu de que ficar dependente da energia russa era uma vulnerabilidade catastrófica autoinfligida, e ainda agora espera um regresso à 'normalidade' com a Rússia", diz Giles.

As autoridades receiam também que a estratégia ocidental de armar os ucranianos esteja a tornar-se uma solução a curto prazo para um problema a longo prazo: uma guerra sem um ponto final claro.

As armas francesas estão atualmente no campo de batalha na Ucrânia, enquanto a Alemanha quebrou décadas de políticas pacifistas para aumentar os seus próprios gastos em defesa e enviar armas, embora tenha sido criticada pela entrega dessas armas, que demoram mais tempo do que o necessário.

"No início, a resposta ocidental foi mais dura do que a Rússia esperava. O Kremlin enganou-se muito em termos táticos. Politicamente foi muito fácil apoiar a Ucrânia e ter argumentos para doar armas e dinheiro", diz um funcionário da NATO à CNN.

"Com o tempo, os tipos de armas que estamos a enviar são mais sofisticados, assim requerendo formação necessária para a sua utilização eficaz. O lado positivo é que estas armas estão a ajudar os ucranianos a aguentar-se. O lado negativo é que, quanto mais tempo a guerra durar, menor será o fornecimento destas armas, tornando-se mais difícil abrir mão das mesmas", acrescenta o responsável.

Vários responsáveis ocidentais dizem temer que, a dada altura, os líderes políticos decidam que o melhor é mediar um acordo de paz na Ucrânia.

Para além dos custos económicos e militares que afetam a generosidade do Ocidente, existe também uma séria preocupação de que o mundo comece a sentir fadiga da guerra à medida que o conflito estagna.

"Em fevereiro, era fácil saltar para o lado anti-Putin. Agora a guerra está numa fase estratégica maçadora. Há menos ganhos e perdas diárias e há menos oportunidades fotográficas", diz um diplomata da NATO.

Claro que isto não será tão simples quanto os países retirarem simplesmente o seu apoio. Mas pode implicar que os países mudem os parâmetros dos modelos de apoio.

Alguns países da Europa Ocidental, nomeadamente a Alemanha e a França, afirmaram publicamente que o diálogo terá de existir entre o Ocidente e Moscovo. O Presidente francês, Emmanuel Macron, tem dito repetidamente que acredita que, a dada altura, terão de ser realizadas negociações entre a Rússia e a Ucrânia, enquanto o chanceler alemão Olaf Scholz tem estado debaixo de fogo por mensagens contraditórias quanto ao gás russo e, mais recentemente, quanto a saber-se se a Europa deve ou não proibir os russos de obterem vistos de viagem.

"Ainda temos todos a mesma visão do resultado final? É só regressar às fronteiras de antes da invasão da Rússia? Ou será o regresso a antes de 2014, antes da Rússia anexar a Crimeia? E vamos lidar com Putin depois da guerra ou ele terá de se retirar?", diz um diplomata europeu. "Estas são as questões a longo prazo que temos de colocar, mas não se está a fazê-lo. É melhor não abordar estas questões agora.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky (à direita), reúne-se com Emmanuel Macron em fevereiro, em Kiev. O Presidente francês disse acreditar que terão de ser realizadas negociações entre a Rússia e a Ucrânia.

Os próximos meses serão os mais difíceis para as nações europeias desde o início da guerra. Os cidadãos sentirão a crise do aumento do custo de vida em todo o continente. Alguns terão de fazer escolhas entre aquecer as suas casas e comer. Esta crise surge porque muitos países europeus já acolheram milhares de refugiados ucranianos. Neste contexto, é difícil para os líderes políticos justificarem gastos de dinheiro e energia a apoiar um país distante, especialmente quando alguns dos seus cidadãos podem sentir que já foram suficientemente generosos.

Vários responsáveis ocidentais disseram à CNN que, a dada altura, os líderes políticos podem decidir que o melhor é mediar um acordo de paz e subverter o jogo final preferido da Ucrânia, obrigar as forças russas a regressarem às fronteiras anteriores.

"Há uma preocupação crescente em alguns setores de que se a Ucrânia parece estar a perder terreno para a Rússia, isso pode acelerar os apelos para um acordo negociado. Zelensky deve continuar a recorrer à sua magia de relações públicas e promover a mensagem de que a Ucrânia continua a progredir, a lutar arduamente e a precisar de armas", diz à CNN Theresa Fallon, diretora do Centre for Russia Europe Asia Studies.

Por mais que o que o Ocidente possa razoavelmente congratular-se pela sua resposta inicial à crise, a situação está prestes a tornar-se muito mais difícil.

"Assim que as pessoas perceberem que [Kiev] está do lado dos vencidos, podem começar a perguntar porque é que continuamos a fornecer armas dispendiosas à Ucrânia num momento de tensão económica. Porque estamos a deitar dinheiro ao ar”, diz.

Isto será crítico, sublinha, visto que muitos dos principais aliados estão a viver também períodos políticos turbulentos no seu país. Itália vai realizar eleições, o Reino Unido terá um novo primeiro-ministro e os Estados Unidos vão realizar eleições intercalares que poderão determinar o resto do primeiro mandato do Presidente Joe Biden.

"À medida que as questões políticas internas começam a dominar, os cidadãos podem perguntar porque estamos a ajudar a Ucrânia em vez de construir infraestruturas", acrescenta Fallon.

Por mais o que o Ocidente possa razoavelmente congratular-se pela sua resposta inicial à crise, a situação está prestes a tornar-se muito mais difícil. A maioria dos funcionários reconhece que ninguém faz ideia de como este conflito vai terminar. E embora a maioria gostasse de ver a Ucrânia alcançar os seus objetivos de enfrentar Putin e obrigá-lo a sair do seu país, a sua verdadeira determinação ainda não foi completamente testada.

E a desoladora verdade é que, se tiver de ser, uma paz negociada que envolva Putin pode não ser uma preocupação grande para países que não partilham fronteira com a Rússia e, francamente, não veem Moscovo como a única causa de uma crise existencial.

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