Trump “deitou gasolina no fogo” e “escolheu não agir” perante violência no Capitólio

Agência Lusa , AM
22 jul, 06:20
Invasão ao Capitólio (John Minchillo/AP)

Oitava audiência pública focou-se na inação de Trump por mais de três horas durante o assalto

Nas horas que se seguiram à invasão do Capitólio por uma multidão de apoiantes, o ex-presidente Donald Trump “deitou gasolina no fogo” e “escolheu não agir”, disse a comissão parlamentar que investiga o ataque. 

“O presidente escolheu não fazer o que toda a gente lhe implorou que fizesse”, afirmou a congressista Elaine Luria, um dos membros da comissão parlamentar que lideraram a oitava audiência pública esta madrugada em Washington. 

A sessão, transmitida em horário nobre, debruçou-se sobre as ações de Donald Trump durante a tentativa de insurreição e a sua recusa em pedir aos invasores que parassem o ataque e fossem para casa. 

Mesmo no rescaldo da violência e vários mortos, o presidente não queria ceder. “Não quero dizer que a eleição está terminada”, reclamou Trump numa versão não editada do discurso filmado a 7 de janeiro, que estava a ler num teleponto. 

A comissão apresentou também imagens nunca antes vistas da mensagem gravada várias horas depois do início do ataque, a 6 de janeiro, nas quais Trump se recusou a ler a declaração preparada pelo seu staff e em vez disso improvisou, dizendo aos invasores que a eleição foi roubada e eles eram “muito especiais”. 

"Trump escolheu não agir"

O intuito foi mostrar, com uma cronologia ao minuto, como o ex-presidente “abandonou” o seu dever para com a nação. Em vez disso, passou várias horas na sala de jantar da Casa Branca a assistir ao ataque na televisão, via Fox News, e a fazer telefonemas a senadores pedindo-lhes que adiassem a certificação dos resultados das eleições.

“O presidente Trump não falhou por inação, ele escolheu não agir”, sublinhou o congressista republicano Adam Kinzinger, outro dos membros que lideraram a audiência. 

As notas que o então presidente publicou no Twitter foram consideradas incendiárias pelos seus próprios assistentes. Uma das notas repetia a falsidade sobre fraude eleitoral e criticava o vice-presidente Mike Pence, o principal alvo da fúria dos manifestantes, por não ter suspendido a certificação da vitória de Joe Biden. 

“Era óbvio que a situação estava violenta e o 'tweet' sobre o vice-presidente era a última coisa de que precisávamos”, disse a vice-secretária de comunicação da Casa Branca, Sarah Matthews, que se demitiu naquele dia. “Foi como dar luz verde àquelas pessoas, de que a sua raiva era justificada”. 

“Foi um 'tweet' terrível”, considerou, num testemunho em vídeo, o ex-advogado da Casa Branca Pat Cipollone. “Fui muito claro que era preciso uma declaração imediata e firme de que as pessoas tinham de se ir embora”, afirmou. “Muitos disseram isso, não apenas eu”. 

Mas, durante 187 minutos, Trump não acedeu aos pedidos feitos por assistentes, aliados, membros da sua administração, legisladores republicanos e familiares para urgir o fim do ataque. Também não pediu reforços para auxiliar a polícia do Capitólio nem deu qualquer ordem ao Secretário da Defesa, Procuradoria-Geral, Segurança Interna ou FBI.

Foram mostradas mensagens de texto, testemunhos gravados em vídeo, áudio e os testemunhos presenciais do ex-vice-conselheiro de segurança nacional Matthew Pottinger e da vice-secretária de comunicação Sarah Matthews sobre as tentativas falhadas de persuadir Trump a agir.

Estas provas foram sendo alternadas com imagens e ficheiros de áudio inéditos mostrando a gravidade da situação, com legisladores encurralados e a fugir, e conversas entre invasores transmitidas via 'walkie-talkie'. 

A comissão apresentou ainda os testemunhos de duas pessoas, incluindo o sargento Mark Robinson, que corroboraram o testemunho da assistente Cassidy Hutchinson sobre uma altercação entre Trump e os agentes do serviço secreto que se recusaram a conduzi-lo para participar na marcha ao Capitólio. 

Agentes que protegiam Mike Pence temeram pela vida

Os agentes que protegiam o então vice-presidente norte-americano Mike Pence no dia do ataque ao Capitólio temeram pela vida e telefonaram às famílias para se despedirem. 

“Os membros da equipa de segurança do vice-presidente começavam a temer pelas suas próprias vidas”, afirmou um oficial de segurança da Casa Branca, cuja identidade não foi revelada, na oitava audiência da comissão parlamentar que investiga o assalto. “Havia muitos gritos e muitos telefonemas pessoais, para se despedirem das famílias”. 

Descrevendo uma situação caótica, ouvida nas comunicações de rádio, o oficial do Conselho de Segurança Nacional disse que os agentes estiveram “muito perto” de usar “opções letais ou pior”. 

A comissão partilhou vídeos e comunicações de rádio dos agentes que estavam a tentar afastar Mike Pence do perigo, mostrando as dificuldades para encontrarem caminhos desobstruídos depois de os manifestantes terem invadido o Capitólio em busca do vice-presidente. 

A certa altura, Pence esteve a apenas metros dos invasores, que confrontavam a polícia no piso inferior enquanto os agentes comunicavam para tentar identificar uma rota de fuga. 

Foi Pence que acabaria por ordenar o destacamento do exército e da Guarda Nacional para recuperar o controlo da situação, segundo testemunhou o general Mark Milley, perante a inação do então presidente Donald Trump. 

Foram também mostradas imagens do senador republicano Josh Hawley, que ao início da tarde levantou o punho em solidariedade para com os invasores mas depois teve de fugir quando os legisladores foram encurralados no congresso. 

“Não há nenhum sítio seguro para estes c****** se esconderem”, disse um dos invasores via 'walkie-talkie', em comunicações obtidas pela comissão. “Foi para isto que nós treinámos”, disse outro, perante as notícias de que os legisladores estavam em fuga. 

Trump agrediu agente que se recusou a levá-lo ao Capitólio

A oitava audiência pública, que se focou na inação de Trump por mais de três horas durante o assalto, incluiu a corroboração do testemunho da ex-assessora da Casa Branca, Cassidy Hutchinson. 

Hutchinson, ex-assessora do chefe de gabinete Mark Meadows, testemunhou, na sexta audiência pública, que Donald Trump teve uma altercação física com o agente do Serviço Secreto quando este se recusou a conduzi-lo até ao Capitólio a 6 de janeiro. 

A veracidade do testemunho foi confirmada pelo sargento Mark Robinson, que fazia parte da escolta motorizada do carro presidencial no dia do ataque. 

A congressista Elaine Luria disse que a comissão recebeu confirmação de uma segunda testemunha, um ex-funcionário da Casa Branca, que contou uma história similar à de Hutchinson. 

A ira de Trump para com o agente Robert Engel tinha sido colocada em causa por aliados do ex-presidente quando Cassidy Hutchinson testemunhou em público. 

Depois de seis semanas de audiências com grande alcance mediático, a comissão parlamentar que investiga o ataque ao Capitólio vai fazer uma pausa e regressar em setembro. 

A vice-presidente da comissão, Liz Cheney, disse que o trabalho está a intensificar-se, com o orgão a receber denúncias, documentação e cooperação de testemunhas. 

“A barragem começou a ceder”, afirmou a congressista republicana, que devido ao seu trabalho na comissão, liderada pelos democratas, deverá perder as primárias em agosto e ver a sua carreira no Congresso chegar ao fim.

As audiências públicas sobre esta investigação vão regressar em setembro.

E.U.A.

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