Um golpe de mar que acabou em tragédia: foi isto que aconteceu no naufrágio ao largo de Troia

CNN Portugal , AM e ARC
8 abr, 21:00

Há ainda dois adultos desaparecidos. Apenas o timoneiro do barco - que afundou após um golpe de mar - foi resgatado com vida

O alerta foi dado às 10:05 de domingo, três horas depois do acidente. Uma embarcação tinha naufragado a cerca de milha e meia (aproximadamente três quilómetros) de Troia, cerca das 07:00, com cinco pessoas a bordo. 

As cinco pessoas, todas do sexo masculino, tinham idades compreendidas entre os 11 e os 62 anos e, até agora, apenas um se salvou: o timoneiro da embarcação, o mais velho. Das restantes, duas foram encontradas sem vida - um menor e um jovem adulto - e outras duas continuam desaparecidas - dois homens, um deles pai do menor que morreu.

De acordo com a explicação do capitão do Porto de Setúbal, Serrano Augusto, o proprietário da embarcação terá sido surpreendido por um golpe de mar, "que fez com que os passageiros tivessem sido ‘cuspidos’ para a água”. Apesar das manobras efetuadas, o barco virou-se e afundou.

No local das buscas, a CNN Portugal conseguiu apurar que os homens "iriam aqui fazer pesca ao largo na zona de Troia", mas o estado do mar "terá ficado bastante mais complicado e ao tentar regressar a porto seguro", a embarcação acabou por virar e naufragar. Apenas a criança trazia o colete vestido e foi encontrado já sem vida, "mas ainda com este colete vestido".

O timoreiro terá explicado às autoridades, depois de três horas à deriva no mar, que "depois de ter sido atirado também ele a bordo afora, que conseguiu ainda agarrar-se a uma parte da embarcação, mas que ela foi afundando".

"Durante esse tempo em que ela afundou, o mar estava muito forte e que não conseguiu ver nenhuma das outras pessoas que se encontravam a bordo até à chegada desta outra embarcação que o salvou e deu alerta às autoridades", apurou a equipa da CNN Portugal no local. 

Segundo o capitão do Porto de Setúbal, os homens que seguiam no barco para a pesca do choco, “são todos da zona de Grândola, moram na mesma rua”. Os dois irmãos, de 24 e 33 anos, e o homem com cerca de 40 anos, seguiam sem colete, sendo que o uso é obrigatório por lei nas atividades de pesca e “fortemente recomendado” pela Autoridade Marítima e pela Marinha “sempre que se vai para o mar”, como lembra o comandante José Sousa Luís, porta-voz da Autoridade Marítima e da Marinha.

As buscas decorreram durante todo o dia de domingo, tendo sido suspensas às 20:30 e retomadas já esta segunda-feira, às 7:30, por mar, por ar e por terra: o navio NPR Viana do Castelo da Marinha Portuguesa ficou a noite toda na área de buscas e, esta manhã, foi enviada para o local a lancha salva vidas de Sesimbra. Por terra, está a ser feita vigilância costeira com drone e com meios da Polícia Marítima.

Em declarações à CNN Portugal, o capitão do Porto de Setúbal explicava, pela manhã, que os meios que empenhados no terreno, neste segundo dia de buscas, eram suficientes para cobrir as zonas em que seria mais provável encontrar os dois corpos ainda desaparecidos.

Ainda assim, as autoridades admitiam aumentar o perímetro das buscas, se os desaparecidos não fossem encontrados durante a tarde e se existissem destroços ou indícios que o pudessem justificar.

Em entrevista no "Novo Dia", o comandante Jorge Mendes explicou que as buscas desta segunda-feira iam ser "diferentes", uma vez que a Polícia Marítima iria efetuar os seus trabalhos com "uma corrente forte" e que, por isso, os corpos podiam já ter sido deslocados para "uma distância maior" do que aquela onde tiveram início as primeiras buscas. "A possibilidade de encontrar os desaparecidos é remota devido a temperatura da água", afirmou ainda, garantindo que a água estaria gélida e que terá provocado hipotermia aos corpos.

Também para o capitão do Porto de Setúbal a probabilidade de localizar os desaparecidos com vida é reduzida. "Com o passar do tempo, a probabilidade de encontrar pessoas com vida é mesmo muito difícil", garantiu. Ainda assim, tanto Serrano Augusto como Jorge Mendes relembraram que a esperança é "a última a morrer" e que "enquanto não se recuperarem os corpos essa esperança vai sempre ficar".

E já ao final do dia desta segunda-feira confirmou-se mais um dia de buscas infrutíferas. "Tínhamos grande esperança de encontrar mais objetos ou indícios na área onde a embarcação afundou, mas infelizmente durante o dia não tivemos notícias de nenhum objeto, de nada à superfície", anunciou Serrano Augusto, em conferência de imprensa.

Segue-se agora o alargamento do perímetro das buscas, que acontece já esta terça-feira. "Leva a crer que tudo o que possa ocorrer possa já estar mais longe desta área ou submerso", afirmou o capitão do Porto de Setúbal, enquanto anunciava o alargar das operações de busca para sul e para oeste em cerca de oito milhas (aproximadamente 16 quilómetros).

Entretanto, foram instaurados dois inquéritos paralelos ao naufrágio: um inquérito criminal no Ministério Público e um processo marítimo pelo próprio Porto de Setúbal, com o objetivo de averiguar "as condições em que o acidente ocorreu".

Segundo Serrano Augusto, o processo marítimo pode resultar "numa contraordenação se houver alguma infração ao edital da capitania ou à lei geral". O capitão adiantou também que o timoneiro dispõe dos documentos necessários para navegar nas águas daquela área.

O comandante José Sousa Luís, porta-voz da Autoridade Marítima e da Marinha, explicou ainda à CNN Portugal que não existe um processo de registo da saída dos barcos dos respetivos portos. Quem vai para o mar deve “verificar as condições meteorológicas e oceanográficas, se a barra está aberta ou fechada, se está tudo ok com a embarcação, se têm o material segurança” e, se a tudo isto a resposta for positiva, partir, sem fiscalização.

A "tragédia" abalou Cadoços, a aldeia alentejana à qual pertencem todas as vítimas e onde "todos se conhecem". "É uma tragédia muito grande, custa muito. São pais, são filhos, conhece-os todos e era tudo boa gente", disse uma das habitantes.

A notícia "chocou" os residentes, que aguardam agora com expectativa que os corpos dos dois desaparecidos sejam encontrados.

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