Turbulência na banca não deve afastar BCE do rumo das subidas de juros

ECO - Parceiro CNN Portugal , Nuno Carregueiro e Mariana Espírito Santo
16 mar 2023, 07:43
Banco Central Europeu (GettyImages)

BCE continua focado no combate à elevada inflação, pelo que deverá confirmar uma subida de 50 pontos base na taxa dos depósitos. Instabilidade na banca deve moderar o discurso de Lagarde.

Em julho do ano passado, o Banco Central Europeu (BCE) optou por fazer tábua rasa da promessa que tinha deixado um mês antes de que a primeira subida de juros em 11 anos seria de 25 pontos base. Oito meses depois, vai o banco central liderado por Christine Lagarde voltar a atrás do compromisso que assumiu e ficou escrito em comunicado na reunião de fevereiro?

Apesar da forte turbulência no sistema bancário global, iniciado com o colapso do Silicon Valley Bank (SVB) e agravado com a queda acentuada das ações do Credit Suisse, é expectável que o BCE mantenha o rumo. Com a inflação da Zona Euro a persistir em níveis elevados e a atividade económica a permanecer resiliente, o BCE deverá anunciar esta quinta-feira a sexta subida consecutiva das taxas de juro, num total acumulado de 350 pontos base desde julho.

Se mantiver a palavra, o BCE vai subir a taxa dos depósitos em 50 pontos base para 3%, o nível mais elevado desde a crise financeira de 2008 (3,25%). Será o terceiro aumento seguido de 50 pontos base, que colocará as taxas de juro aplicáveis às operações de refinanciamento e de cedência de liquidez em 3,5% e 3,75%, respetivamente. O banco central vai atualizar as projeções para a economia nos próximos anos.

Optar por uma subida mais branda de 25 pontos base na reunião desta quinta-feira representaria mais um golpe na credibilidade do BCE e um enfraquecimento no compromisso da autoridade monetária em combater a inflação. Por outro lado, subir os juros de forma agressiva numa altura de forte turbulência na banca pode significar atirar mais lenha para uma fogueira que deve continuar a arder e ainda tem contornos imprevisíveis.

“Dado o forte compromisso do BCE e os elevados números da inflação, mantemos a visão de que o Conselho do BCE vai cumprir o aumento de 50 pontos base”, refere o Goldman Sachs. É esta a perspetiva da generalidade dos economistas — e que o próprio banco central validou esta quarta-feira de manhã, através de uma fonte não oficial, em declarações à Reuters.

50 ou 25 pontos base?

Mas nem todos os economistas partilham esta visão. O Deutsche Bank alterou a sua perspetiva para um aumento de apenas 25 pontos base, devido à “incerteza significativa” gerada com o colapso do SVB. O banco alemão até admite a manutenção dos juros caso os mercados não estabilizem.

Pelo contrário, a situação agravou-se de forma evidente esta quarta-feira, com as ações do Credit Suisse a marcarem uma queda recorde de 24% para mínimos históricos. O banco suíço está numa situação frágil há mais de um ano e se o BCE reagir à volatilidade do mercado, até poderá contribuir para agravar a situação de instabilidade.

Ainda assim, os investidores estiveram esta quarta-feira a reduzir de forma substancial a aposta num aumento de 50 pontos base por parte do BCE. A probabilidade é agora de 25%, quando na terça-feira a negociação no mercado monetário dava o aumento de 50 pontos base como garantido. Esta enorme volatilidade deve ser vista como algo normal em alturas de forte turbulência nos mercados, em que as perspetivas mudam de uma hora para a outra.

Ricardo Evangelista, analista sénior da ActivTrades, não prevê que o colapso do SVB “venha a ter grande impacto” na política monetária do BCE, pois “controlar a inflação continuará a ser o grande desígnio” do banco central.

Contudo, Ricardo Evangelista admite que o colapso do SVB “deixou os mercados hipersensíveis a más notícias no setor bancário”, sendo que “este episódio do Credit Suisse ocorre na pior altura possível”. Assim, “o BCE fica com uma escolha difícil, de por um lado cumprir o seu mandato de controlar a inflação, e por outro evitar exacerbar ainda mais a volatilidade nos mercados e contribuir para a instabilidade do sistema financeiro”.

Discurso mais cauteloso

Mais consensual entre os economistas é a visão de que, na conferência de imprensa desta quinta-feira, Christine Lagarde vai adotar um discurso mais cauteloso perante o que se está a passar na banca. Não deverá assumir compromissos firmes sobre os próximos movimentos, ao mesmo tempo que realça a situação sólida do setor financeiro europeu e a necessidade de continuar a combater a elevada inflação.

“Esperamos que o Conselho do BCE continue a enfatizar que as decisões futuras dependem dos dados, incluindo os dados económicos (que permanecem firmes e requerem maior aperto), mas também indicadores de estabilidade financeira”, refere o Goldman Sachs.

Apesar de a inflação estar a abrandar, “não está a ser ao ritmo que o BCE desejaria”, pelo que “a estratégia de decisões reunião a reunião é a que deverá prevalecer”, comenta Filipe Silva, diretor de investimentos do banco Carregosa.

“É provável que o BCE demonstre o seu compromisso com uma abordagem reunião a reunião, ao mesmo tempo que tenta dar a maior visibilidade possível”, diz ao ECO Hélène Baudchon, economista do BNP Paribas, afastando o cenário de a autoridade monetária repetir um pré-compromisso para a próxima reunião.

Tendo em conta a elevada incerteza com a turbulência na banca, o Deutsche Bank espera que o BCE “seja mais cauteloso com os sinais que transmite” para as decisões a adotar nas próximas reuniões. Ou seja, “menos pré-compromisso, maior ênfase na abordagem ‘dependente de dados e reunião a reunião’ e sem pressa em sinalizar uma nova redução dos investimentos de dívida dos programas de compra de dívida”, refere o banco alemão.

Pausa só quando inflação subjacente aliviar

Depois das quedas acentuadas nas ações do setor bancário no início da semana, devido às ondas de choque com o colapso do SVB, os mercados estabilizaram na terça-feira. O regresso da turbulência na sessão de quarta-feira, com o Credit Suisse em queda livre a contagiar toda a banca, é uma evidência do momento complicado que se vive no setor financeiro e da margem estreita que os bancos centrais têm para agravar os juros no atual contexto.

Contudo, os economistas acreditam que o BCE terá de continuar firme no agravamento da política monetária para garantir que a inflação se encaminha para a ainda longínqua meta dos 2%. Em fevereiro, a inflação da Zona Euro desceu pelo quarto mês, para 8,5%, enquanto a inflação subjacente (excluindo energia e alimentos) atingiu um novo máximo histórico (5,6%).

“A pausa no ciclo de aperto da política monetária só acontecerá quando o BCE estiver confiante o suficiente de que a inflação subjacente ultrapassou o pico e está a caminho dos 2% em tempo útil”, assinala a economista do BNP Paribas, acrescentando que “a prioridade número um é a inflação” e o “BCE provavelmente está pronto para aceitar um cenário em que uma desaceleração económica mais acentuada, ou mesmo uma recessão superficial, seja o preço a ser pago para conter a inflação”.

“A pausa na subida de juros deve acontecer quando o BCE acreditar que tem a inflação mais controlada e que a mesma se encontra verdadeiramente numa trajetória descendente”, refere Filipe Silva, assinalando que “não basta uma contração [da economia] para se ter uma paragem na subida dos juros”, pois a “inflação é o item que tem maior peso” nas decisões do banco central.

Henrique Tomé salienta que “a inflação na Zona euro continua em níveis muito acima dos desejados, mas a atividade económica não está tão forte como nos EUA, o que pode trazer alguns riscos, se os juros subirem demasiado depressa”. Sendo notório um abrandamento da atividade económica em vários setores, o analista da XTB realça que “as perspetivas sobre a inflação deverão começar a ser revistas em baixa”, o que “poderá fazer com que não exista a necessidade de mais aumentos dos juros”.

A caminho dos 4%?

Antes de eclodir a crise bancária nos Estados Unidos, os mercados estavam a descontar uma taxa dos depósitos terminal acima de 4% no final do verão, com mais um aumento de 50 pontos base a 4 de maio, seguido de subidas consecutivas de 25 pontos base nas reuniões seguintes (15 de junho, 27 de julho e 14 de setembro).

As perspetivas são agora mais contidas, para um intervalo entre 3,5% e 4%. Hélène Baudchon classifica esta evolução de realista, pois “ainda é necessária agressividade tendo em conta o nível ainda muito elevado de inflação, a sua natureza ampla, persistente e rígida”. A economista do BNP Paribas também nota que o ciclo de aperto da política monetária está mais próximo do fim do que do início e agora serão “necessários ajustes mais finos para evitar um erro de política” com um agravamento em excesso das taxas de juro.

Mesmo o Deutsche Bank, que espera um aumento de apenas 25 pontos base esta quinta-feira, assinala que o BCE só deverá terminar os juros quando a taxa dos depósitos se situar entre 3,5% e 4%. “Seria necessário um choque significativo e persistente nas condições financeiras para compensar os riscos ascendentes para a estabilidade de preços na Zona Euro”, refere o banco alemão.

O Goldman Sachs aponta aos 3,75% devido às pressões inflacionistas. Ainda assim, assinala que “as perspetivas para além desta semana tornaram-se consideravelmente mais incertas, com o risco de que um aperto mais acentuado nas condições de empréstimos bancários possa induzir um fim antecipado do ciclo de alta” das taxas de juro do BCE.

Filipe Silva destaca que “a política do BCE vai-se ajustando e se conseguirem ter margem para subir de forma menos agressiva, é o que irá acontecer, até porque se as taxas continuarem a escalar poderemos espoletar outros problemas, que resultam do elevado endividamento de alguns estados, empresas e famílias”.

A evolução da crise na banca até pode contribuir para apertar as condições financeiras e pressionar a inflação em baixa. Contudo, para já, parece cedo para o BCE tirar o pé do acelerador.

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