TAP pagou indemnização de mais de um milhão de euros a ex-administradora

19 jan, 13:02

NOTÍCIA TVI/CNN. Teresa Lopes recebeu mais do dobro de Alexandra Reis. Acordo foi fechado em 2017 mas manteve-se desconhecido até agora. Ex-administradora ainda trabalhou até 2020 como consultora da administração.

“Houve uma diretora, antes administradora, que recebeu mais de um milhão de euros”. A denúncia foi feita esta quarta-feira à noite por Miguel Relvas na CNN Portugal. O comentador não revelou a identidade, mas a TVI/CNN Portugal apurou entretanto as informações específicas do caso.

Em causa está Teresa Lopes, que trabalhou na TAP durante mais de trinta anos, tendo ascendido à administração da empresa no final de 2014, como administradora financeira (CFO) do então presidente executivo Fernando Pinto. Esteve nessas funções durante cerca de um ano, então com um salário de cerca de 15 mil euros mensais.

Teresa Lopes, aqui numa fotografia retirada do relatório e contas da TAP, foi administradora financeira no final do mandato de Fernando Pinto, passando depois a reportar ao administrador financeiro David Pedrosa.

Depois da privatização, aprovada no final de 2015, a companhia teve uma nova administração, já escolhida pelos privados, David Neeleman e Humberto Pedrosa. Os privados escolheram o presidente executivo (Antonoaldo Neves) e o Estado indicou o "chairman" (Miguel Frasquilho). Fora da administração, Teresa Lopes assumiu a função de vice-presidente da área financeira da TAP, reportando ao administrador David Pedrosa, apurou ainda a TVI/CNN Portugal.

No final de 2017 – quando a empresa ainda era gerida pelos privados, mas o Estado já tinha recuperado metade do capital -, a administração da TAP fechou o acordo de saída com Teresa Lopes, num pacote que rondou 1,2 milhões de euros. Teresa Lopes ainda trabalharia com a TAP até março de 2020. No final, estaria já como consultora.

Quantas indemnizações pagou a TAP?

Esta foi uma das perguntas colocadas esta quarta-feira no Parlamento a Christine Ourmières-Widener, atual presidente executiva da companhia. A resposta foi de que, no seu tempo (desde 2021), só Alexandra Reis saiu com indemnizações. É aliás a polémica indemnização milionária de Alexandra Reis que provocou a crise política que levou à saída de três membros do governo: a própria Alexandra Reis da secretaria de Estado do Tesouro e de Hugo Mendes e Pedro Nuno Santos do Ministério das Infraestruturas.

Se a indemnização de Alexandra Reis foi considerada “milionária”, a de Teresa Lopes – desconhecida até agora – foi mais do dobro desse valor. Só que os dados não são públicos, até por uma razão: Teresa Lopes já não era administradora quando fechou o acordo – e só as indemnizações a administradores executivos são publicadas nos relatórios e contas.

Nestas contas pesará o facto de Teresa Lopes ter uma carreira de mais de 30 anos na TAP, enquanto Alexandra Reis esteve na empresa menos de cinco anos.

A TVI/CNN Portugal contactou insistentemente esta manhã Teresa Lopes, que no entanto ainda não respondeu aos contactos.

Um ano na administração

Maria Teresa Silva Lopes, atualmente com 60 anos, foi administradora da TAP entre dezembro de 2014 e novembro de 2015. Antes, tinha sido diretora-geral de Finanças da companhia durante cerca de 15 anos.

Enquanto administradora, esteva excecionada do Estatuto de Gestor Público, auferindo uma remuneração bruta anual de 245 mil euros, que na altura tinha sido cortada para 215 mil euros. Além deste salário, de cerca de 15 mil euros brutos mensais, recebia de regalias (seguros de saúde, de vida e de acidentes de trabalho, telemóvel, automóvel, combustível, portagens) correspondentes a cerca de 1500 euros mensais. 

O período enquanto administradora acabou por ser apenas um dos mais de 30 anos de Teresa Lopes na TAP. Esta passagem curta está ligada à privatização, aprovada pelo governo de gestão de Pedro Passos Coelho. Pessoa de confiança de Fernando Pinto, que a levou para a administração em 2014, Teresa Lopes assumiu as funções de vice-presidente da área financeira em novembro de 2015, imediatamente após a privatização. E passou a reportar diretamente a David Pedrosa, filho do acionista privado Humberto Pedrosa que assumiu funções de administrador executivo. Nessa altura, a administração já era liderada por Miguel Frasquilho ("chairman", ou presidente do Conselho de Administração) e Antonoaldo Neves (CEO, ou presidente da Comissão Executiva).  

David Pedrosa terá sido essencial na negociação de saída de Teresa Lopes. O acordo de saída terá sido fechado no final de 2017, um ano depois de o Estado ter revertido a privatização, assumindo 50% da companhia, já no governo de António Costa. Teresa Costa continuou a trabalhar com a administração da empresa até março de 2020, tendo no final sido consultora.

Em julho de 2020, o Estado acabaria por tomar a totalidade do capital da companhia, com a empresa em colapso financeiro causado pela pandemia da Covid-19. No final de 2021, apresentaria um plano de reestruturação negociado com a Comissão Europeia  de 3,2 mil milhões de euros.

TAP gastou quase cem milhões em indemnizações num só ano

A saída definitiva de Teresa Lopes da TAP, 2020, ocorre num ano excecional na TAP, com a reestruturação a toda a brida. Nesse ano, a companhia inscreveu um cálculo de quase 97 milhões de euros em indemnizações, dos quais 93 milhões de euros eram uma previsão decorrente do Plano de Reestruturação.

Em 2020, ano em que a pandemia arrasou o negócio aéreo, saíram da TAP um total de 920 trabalhadores, segundo o relatório e contas da companhia. No ano seguinte, 2021, saíram mais 1.480 trabalhadores. O total nesses dois anos foi portanto próximo dos 2.500 trabalhadores. 

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