Entrevista exclusiva a Sylvia Earle. "O oceano não é apenas uma espécie de supermercado de onde tiramos os peixes"

2 jul, 12:00

Considerada a maior oceanógrafa de sempre, a legendária exploradora da National Geographic e líder da Mission Blue, Sylvia Earle, esteve na Conferência dos Oceanos, em Lisboa, onde deixou o alerta: "O futuro está nas nossas mãos, agora"

CNN Portugal: O seu legado é uma herança que nos deixa, mas a Sylvia tem sempre de estar presente...

Sylvia: Bom, não faço nada disto por motivos pessoais, faço-o por entusiasmo pelo Oceano. Ao longo da História sempre tomámos o Oceano por garantido. E só agora - e devia ser óbvio para todos - descobrimos que este é o Planeta Azul e a maior parte das coisas passa-se no mar. Ou seja, a terra, o ar e o mar estão todos ligados entre si, mas nós, Humanos, olhámos para o nosso umbigo durante tanto tempo que só agora estamos a perceber que somos parte do resto da Natureza. E quando a natureza está em apuros, nós estamos em apuros.

Acho que esta conferência é um verdadeiro sinal que nós, Humanos, criaturas da Terra, estamos finalmente a acordar para a consciência de que temos de cuidar de toda a Natureza. 

Negligenciámos o Oceano, encarámos as criaturas e o mar como produtos. Pensamos nos pássaros como vida selvagem, vemos os animais na floresta como os verdadeiros animais selvagens e hoje valorizamo-los e protegemo-los - não o suficiente - mas muito mais do que fazemos com os animais do Oceano. Continuamos a pensar neles sobretudo como uma coisa que acaba no nosso prato. Temos de pensar de forma diferente.

CNN Portugal: E também temos de pensar que é agora ou nunca.

Sylvia: Sim, não sou a única que diz que esta década, este pequeno bloco de tempo, tem uma importância enorme. Estamos tão próximos do abismo que podemos virar e mudar o rumo. Temos o poder e este advém do conhecimento. É o superpoder que os humanos têm.

Não estamos sozinhos. Penso nas outras criaturas que vivem com os humanos que testemunham estes tempos de mudanças significativas, mas eles não percebem o porquê de estar a acontecer nem o que fazer em relação a isso. Nós somos a causa. E nós sabemos que somos a causa. O que estamos a emitir para a atmosfera e a colocar no Oceano, o que estamos a tirar à Natureza. E somos os únicos que podemos fazer alguma coisa contra isso. Os elefantes não conseguem remediar isto - os atuns deviam gostar de conseguir travar o que nos leva a um futuro cataclísmico. 

Mas nós sabemos o que fazer. Temos de parar de matar e cuidar mais. E isso estende-se aos nossos companheiros humanos também. Somos tão bons a destruir coisas - incluindo destruirmo-nos uns aos outros. É um mistério tão grande. Porque é que, com toda a capacidade e a sensibilidade de que os humanos são capazes... Pense na arte, na música, na cultura e na forma como cuidados da família. E continuamos capazes de destruir tanto e tão depressa.

Mas temos este momento no tempo. E há uma noção de urgência que... quero dizer, esta conferência deve ser motivo de celebração. E eu vejo-o sobretudo nos mais novos, porque talvez eles vejam o futuro mais nitidamente que algumas das outras pessoas que não cresceram com o conhecimento das alterações climáticas, que não cresceram com a capacidade de comunicar com pessoas de todo o planeta. Cresceram a saber como é a Terra vista do Espaço. Eu não sabia, quando era criança. Ninguém na história da humanidade soube até meados do séc. XX. Agora, sabemos.

CNN Portugal: Conhece muitos locais no Oceano que ninguém conhece. Qual é a sua experiência no mar português?

Sylvia: Eu tenho vindo a Lisboa. Portugal, um país oceânico, com uma longa história de exploração dos oceanos. E o poder de abarcar o oceano com conhecimento.

Mais recentemente, tive a oportunidade de visitar os Açores. É uma parte pequena de Portugal que faz parte da dorsal médio-oceânica. É um sítio milagroso. Também fui à Madeira, outra parte de Portugal. São pequenas ilhas com muito oceano à volta, numa região sob jurisdição portuguesa. Mas também têm uma janela para o mar alto. Mas, no fundo, estão fora... Subimos ao topo da montanha e vemos oceano em todas as direções. É uma perspetiva que todos deixamos abraçar porque o oceano abraça a Terra inteira. É onde está 97% da água na Terra, a maior parte da biosfera, da vida na Terra. Sobretudo, lá em baixo. A viver no escuro. E tive a oportunidade de ver os cachalotes e as baleias-corcundas, alguns dos mamíferos marinhos que passam nos Açores e na Madeira. É um privilégio. Poder partilhar essa perspetiva também é um privilégio. 

CNN Portugal: Sir David Attenborough disse recentemente que os humanos nunca tiveram o conhecimento que temos agora sobre os estragos que provocamos. Mas também temos conhecimento para tomar decisões. Por isso, porque não agimos?

Sylvia: Eu adoro uma camisola da Mary Robinon, a ex-presidente da Irlanda, que diz: "Chega de blá blá blá." Já perdi a conta às conferências em que participei ao longo dos anos. E há muita conversa. Blá, blá, blá. Há muitas promessas: "Vamos fazer isto, prometemos fazer isto". Pronto, nós estamos aqui, no limite. São horas de pararmos de falar ou... Podemos continuar a falar, mas temos de agir. Temos de converter isso numa canção. Temos de festejar. Temos de dizer: "Sim. Não estamos apenas a falar, estamos a fazer". E é isso que está a acontecer.

Quando eu era nova, nenhuma parte do oceano era proativamente protegido. Eu tenho visto as pessoas a acordar para isto. O que causa estragos? Os humanos. Não estamos a proteger o oceano, estamos a protegê-lo de nós. Estamos a tentar disciplinar o comportamento humano. Ou seja, garantir um sistema de suporte de vida para o mundo natural, sobretudo os sistemas oceânicos, significa que temos de refrear as ações humanas que causam estragos. Por exemplo: a pesca industrial que não existia antes do fim da II Guerra Mundial. 

A expansão da captura de animais selvagens é o maior comércio de vida selvagem no planeta. Não pensamos nisso como comércio de vida selvagem, pensamos nisso apenas como pesca. Mas não é pesca com fins alimentares. Pensamos nisso como segurança alimentar. É apenas por dinheiro, sobretudo dinheiro. A segurança alimentar... Essas comunidades nesses sítios pescam o peixe diretamente, em vez de venderem os animais selvagens que retiram do mar a troco de dinheiro. Não faríamos isto a aves canoras, mas já o fizemos. Matávamos animais selvagens por causa do pelo. Em parte, isso ainda acontece, mas no geral mudámos. Valorizamos a Natureza. E agora incorporamos a vida nos oceanos como parte da natureza. Animais selvagens: precisámos deles e agora precisam de nós. Precisam que os abracemos e que não os valorizemos apenas como produtos. E termos de ver que também têm comportamentos sociais. Têm famílias, linguagem e história. E sabe que mais? Vi comportamentos muito inteligentes da parte dos peixes. Parcerias, comportamento social e caras. Todas as criaturas têm uma cara. 

Conhecemos os humanos, os cães, os gatos e os cavalos. Quem já teve galinhas sabe que não há duas galinhas iguais. Quando as vemos assadas, ficam completamente diferentes. Com os peixes é igual. Estamos sempre a ver animais mortos. Não sabemos porque devemos cuidar deles vivos. 

Sou uma das pessoas que tem o privilégio de passar milhares de horas a viver debaixo de água, a mergulhar, a usar submarinos, a usar todo o tipo de equipamentos para verdadeiramente ver o oceano da perspetiva daqueles que passam os seus dias e noites lá. Quem me dera que todos pudessem fazê-lo. 

Adoro este sítio onde estamos, perto de um aquário, onde as pessoas podem ver peixes vivos, observá-los e conhecê-los. Têm de sair para o oceano e ter essa perspetiva, para imaginarem o que é viver sempre no escuro, 1,5km debaixo de água. Porque há muita atividade lá em baixo. Não é apenas uma espécie de supermercado de onde tiramos os peixes sem saber o que são, para serem triturados e transformados em produtos.

Temos de fazer melhor. Somos melhores que isto. Nós, humanos, temos a inteligência e uma coisa preciosa chamada compaixão. Não se trata apenas do que sabemos intelectualmente. Não se trata apenas de sabermos que o oceano é bom para nós e que temos de o proteger por causa do ar que respiramos. E porque precisamos dos valores dos ecossistemas. 

Tudo isso é importante. Mas, se não complementarmos isso com a compaixão que temos pelo resto da vida no planeta e pelos outros humanos, vai escapar-nos a principal forma de conseguirmos ter êxito. 

Conhecemos os números há muito tempo. Mas não tivemos uma motivação genuína para agir. Precisamos dos artistas. Precisamos dos poetas. Precisamos dos músicos. Precisamos que as crianças liderem e superem este exercício intelectual: "Sim, temos estes objetivos. Devíamos ter feito isto, não fizemos, mas havemos de fazer". Não. Agora há uma noção de urgência. Temos de tocar nos nossos corações, bem como nas mentes. E conseguimos. Além de conseguirmos, está a acontecer. Está a acontecer aqui em Lisboa, neste preciso momento, na Conferência dos Oceanos. Por isso, acho que devíamos estar todos a mergulhar, além de nos elevarmos com o entusiasmo de que isto não só é possível, como está a acontecer. 

CNN Portugal: Muito obrigada. Mas tenho de lhe dizer uma coisa antes de terminarmos. Quando a vejo e a ouço a falar, vejo aquela menina que eu vi no filme de James Cameron, na Flórida, no mar pela primeira vez. É uma menina a falar com a mesma paixão. 

Sylvia: E nunca devemos perdê-la, porque é essa inocência de fazer perguntas. Quem? Porquê? Como? O quê? Porque não? Quando alguém diz que "proteger o Oceano é impossível", a criança diz; "Então, porque não?". "Vamos só fazer isso."

E aqui estou eu a dizer: "Estamos à espera de quê?". Há muita gente que diz: "Não conseguimos por isto e aquilo...". Temos de alterar essa mentalidade. Se acharmos que é impossível conseguirmos harmonia com a natureza, harmonia com o oceano, harmonia entre nós próprios, se acharmos que é impossível, será uma profecia que se cumpre a si própria. Nunca lá chegaremos. 

Mas, se mantivermos não só a esperança, mas a esperança que leve à ação... É isso que está a acontecer. Nós estamos imparáveis. Sabemos que conseguimos e temos aqui provas. Havia quem dissesse que era impossível, mas está a ser feito. Vimos compromissos: 30% até 2030 é um bom começo. Não chega, mas é um começo para abraçarmos a Natureza como se as nossas vidas dependessem disso, com o conhecimento subjacente de que dependem mesmo. Em conjunto com a identificação de zonas críticas que são necessárias para proteger um planeta que funciona para o nosso bem, a gerar oxigénio, a capturar carbono, a manter a química do planeta. 30% cumpre isso em parte. Mas também precisamos de políticas globais tais como as que temos para as aves migratórias. Já que temos regulamentos internacionais contra a caça comercial das baleias. Atravessam fronteiras. E não precisamos apenas de áreas específicas, mas de políticas globais, tais como: porque estamos a fazer pesca industrial no mar alto? Temos de identificar zonas críticas, mas temos de parar a pesca industrial. Ponto final.

Temos de aplicar uma moratória a toda a ideia da mineração em águas profundas. Proteger 30% das águas profundas não é suficiente. Protegê-las todas... Depois, se descobrirmos como poderemos explorar uma parte, um dia, talvez isso seja possível. Mas a ideia de números, gráficos, projeções... Temos de ter a ética de cuidarmos uns dos outros e de cuidarmos da natureza, como se o futuro importasse. Porque o futuro está nas nossas mãos, agora. 

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