Skoola, a escola de música onde se aprende a ser livre

CNN Portugal , Isabel Lindim
3 set, 15:00
Skoola, Academia de Música Urbana. Créditos: Diana Tinoco

A Skoola, Academia de Música Urbana, está a celebrar o começo do terceiro ano de vida. Conheça a história de uma escola inclusiva com um método de ensino não-formal. Ali, o mais importante é a liberdade de criar em comunidade

É uma Academia de Música Urbana, mas não se rege por conceitos formais. Aprende-se muito, mas seguindo outras ideias sobre criatividade e liberdade. É um projeto que está sempre em evolução e que tem crescido de várias maneiras. É a Skoola, uma escola diferente, em que os participantes e formadores fazem parte de um todo, criam em conjunto e formam um ambiente familiar e coletivo. 

Nasceu pela mão de Mariana Duarte Silva, empreendedora já envolvida no projeto que alojou a Skoola, o Village Underground, em Alcântara, Lisboa. A raiz desta academia foi o Acorde Maior, um ensemble que juntava crianças e jovens com diferentes antecedentes desde 2018. Durante cinco edições com a duração de uma semana, a direção artística foi feita por três facilitadores graduados pela londrina Guildhall School of Music & Drama. 

Em 2021, o projeto transformou-se numa academia e mudou o nome para Skoola. O mote mantinha-se: juntar crianças e jovens dos 10 aos 18 anos num processo criativo com base na música, mas que passa também por outras artes performativas. O modelo de aprendizagem foi desenvolvido em conjunto com o Instituto Politécnico de Lisboa. É um método não-formal em que se organizam processos coletivos em que os protagonistas são os jovens participantes. É desta forma que aprendem, sobretudo a ganhar confiança nas suas capacidades criativas e a partilhá-las em grupo, sem receios de julgamento. São asas para a liberdade.

Skoola, Academia de Música Urbana. Créditos: Diana Tinoco

Entre os participantes, há sempre uma percentagem de jovens com menos oportunidades de escolha, que se inserem no projeto com bolsas angariadas pela Mariana. Este é um dos grandes desafios da Skoola, mas do qual não abrem mão. Os princípios da inclusão e da diversidade fazem parte da sua génese desde o Acorde Maior.

Agora, com um conceito mais alargado, esta academia tem ciclos de três meses e workshops de uma semana (em períodos de férias). Normalmente, quem participa no ciclo trimestral acaba por fazer três ciclos, completando o ano escolar. Para fazer parte, não é preciso ter uma formação musical, mas há alunos que frequentam o Conservatório, ou outras escolas de ensino de música formal, e encontram aqui uma forma de libertarem a sua criatividade, num ambiente de comunidade.

Na sala grande do Village Underground, bem como nos contentores e autocarros deste espaço, os instrumentos e computadores são os meios utilizados para criar música e espetáculos. Seja qual for o formato - ciclos de três meses ou workshops - o processo culmina sempre num espetáculo, e os participantes são parte ativa da produção. Há quem escolha escrever músicas, ou compô-las, há quem prefira tocar um instrumento ou apenas cantar, outros concentram-se na encenação. “Começam todos na sala grande”, explica Mariana “e, depois, são divididos entre a sala dos computadores ou a sala dos instrumentos”. Depois são devidamente encaminhados pelos facilitadores. “Abrange tanto os miúdos que querem mais liberdade e aprender outras formas, como também alunos que nunca tiveram contacto com a música. E estamos a falar tanto de pagantes como bolseiros, que querem experimentar e perceber o que é que gostam”, refere. Até agora, ao longo destes primeiros anos, tiveram já 400 alunos. 

Skoola, Academia de Música Urbana. Créditos: Diana Tinoco

Em julho de 2023, o ano fechou com o espetáculo de um workshop da Skoola na Fundação EDP. Esta é uma das instituições que apoiam a academia, tal como a Fundação Oriente e a Santa Casa da Misericórdia. É desta forma que o projeto consegue sobreviver. 

Um dos objetivos é criar mais proximidade com a comunidade e instituições na zona de Alcântara. Este espetáculo foi representativo nesse aspeto. Os participantes saíram do espaço do Village Underground e encenaram um espetáculo na Sala dos Geradores da Fundação. Sob o tema do impacto das alterações climáticas, houve cartazes, houve uma performance e muita música criada pelo grupo do workshop durante cinco dias. 

Desde que existe como academia de música, este projeto juntou outros facilitadores e uma nova direção artística. Entre a nova equipa encontram-se dois professores investigadores da Escola Superior de Educação de Lisboa, que, recentemente, apresentaram um relatório de acompanhamento sobre a Skoola. 

Mariana Duarte Silva, Skoola. Créditos: Bruno Barata

Para Mariana Duarte Silva e restante coletivo, este documento tem um enorme valor, porque “dá motivação e inspiração para continuar a fazer o trabalho”, e porque “revela o desenvolvimento de competências musicais menos tradicionais, como o EDM, Noise ou Hip-Hop, expressões da cultura urbana com as quais nos identificamos, não só pelo lugar onde nascemos, o Village Underground, mas porque toda a equipa de facilitadores e produção vive e desenvolve trabalho nessa área”. No fundo, é o reconhecimento de que uma academia de música não-formal pode ser um veículo de valorização da diversidade, “por parte não só dos skoolers, como das instituições e famílias”, acrescenta Mariana. 

Em 2022, a Skoola deu um novo salto, com o programa Sons de Mudança, em conjunto com a Escola Superior de Educação de Lisboa e o Agrupamento de Escolas Marquesa de Alorna. O projeto foi vencedor do Partis & Art for Change da Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação La Caixa, parceiros da iniciativa. “Como em todos os projetos que envolvem mais do que uma entidade e alguma disrupção, ou inovação, sentimos alguns desafios no primeiro ano que passou”, assume Mariana, mas chegaram ao final "convictos de que o próximo será mais consistente e o seguinte ainda mais". "A riqueza do Sons de Mudança é que atua num Agrupamento de Escolas TEIP  [Programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária], onde existem mais de 30 nacionalidades entre os seus alunos, o que torna mais desafiante o trabalho com dinamismo cultural, das múltiplas expressões, identidades e tradições dos alunos.” 

Mariana Duarte Silva, Skoola. Créditos: Joana Linda

Para o futuro, não faltam ideias e programas para concretizar. Para isso, é preciso manter a sustentabilidade financeira do projeto, assim como a motivação dos facilitadores e a qualidade da formação. Para Mariana Duarte Silva, o importante é que “mais empresas e pessoas individuais possam ser ‘embaixadores’ de skoolers e criar com eles uma relação próxima, que os levem a eventos culturais, muitas vezes distantes dos lugares onde vivem. Só assim é que as pessoas que investem na Skoola podem sentir na pele o que é o arrepio, a sensação de experimentar cultura, música, e o que isso pode mudar a vida de alguém".

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