Polónia e Bulgária deixam de receber gás russo. Europa vai levar por tabela mas Portugal pode fazer parte da solução

27 abr, 07:00
A decisão da Rússia em cortar o fornecimento de gás à Polónia e à Bulgária trará consequências diferentes a ambos os países, no entanto, o efeito está já à vista e irá alastrar-se por toda a Europa. (Foto AP/Sergei Grits, Arquivo)

A Rússia anunciou que irá interromper o fornecimento de gás a dois países europeus já a partir desta quarta-feira. O impacto irá ser notado um pouco por toda a Europa – incluindo em Portugal – com a continuação da subida do aumento do preço do gás natural.

A Rússia anunciou que a partir da manhã desta quarta-feira irá deixar de fornecer gás à Polónia e à Bulgária, naquela que é uma resposta direta aos apoios dados pelos dois países à Ucrânia e também ao facto de se terem recusado a pagar o gás russo em rublos – que passou a ser uma exigência da Rússia face às sanções impostas pelo Ocidente em resposta à invasão que deu início há dois meses do território ucraniano.

A Rússia aproveita a conjuntura para colocar o «jogo» a seu favor. A exigência do pagamento em rublos visa retaliar em relação às sanções económicas, mas também visa contrariar a desvalorização do rublo. O rublo, tal como outro ativo, sendo mais procurado e utilizado, valoriza-se. Assim, o nervosismo dos mercados favorece a subida do preço do gás. Isto beneficia a Rússia, que encaixa assim mais receita para compensar a diminuição de exportação de gás para o bloco europeu”, diz o economista João Rodrigues dos Santos.

A decisão da Rússia de cortar o fornecimento de gás à Polónia e à Bulgária trará consequências diferentes a ambos os países. No entanto, o efeito já se começa a fazer sentir e irá alastrar-se por toda a Europa.

Segundo noticia o ECO, após o anúncio do corte no abastecimento à Polónia, no final da tarde de terça-feira, o gás natural valorizou 11,17%. Segundo a plataforma barchart.com, citada pelo site português, o gás natural estava já com um valor de 323,77 euros por MWh. Segundo o Jornal de Negócios, os preços já voltaram ao patamar dos 100 euros, mesmo assim, 6,64% acima dos valores de segunda-feira.

Segundo Nuno Moreira, presidente do SG Natural Gas-Industrial Utilization Committee da IGU- International Gas Union e CEO da Dourogás, a guerra na Ucrânia despertou os países europeus para a importância que o gás natural tem nas suas economias. “A Europa descobriu agora que o gás natural é imprescindível para a sua economia, se não o fosse já tinha desligado a torneira, mas o gás natural é o que acompanha os processo fabris mais relevantes e importantes”, destaca.

Hoje temos claramente uma dificuldade que tem de ser ultrapassada junto da indústria produtora, que vai ter de reduzir os seus consumos. Nós próprios também. Existirá na Europa uma necessidade de racionalização do gás natural, usando apenas onde é indispensável”, frisa Nuno Moreira.

E qual o impacto destas medidas para a própria Rússia? Segundo Nuno Moreira, “o setor de gás da Rússia depende totalmente da Europa, apenas 5% do gás russo é vendido para outros destinos. Se a Rússia fechar a torneira para a Europa, a própria Rússia vai sofrer muitíssimo”.

Consequências para a Polónia poderão não ser das piores

Apesar de a Polónia já ter anunciado que pretendia deixar de importar gás russo até ao final do ano, o anúncio da cessação de fornecimento aconteceu sem aviso prévio e oito meses antes do esperado. Segundo a companhia polaca PGNiG, esta interrupção é uma quebra de contrato por parte da Gazprom, pelo que tomará medidas para restabelecer o fluxo de gás de acordo com o estabelecido, garantindo que o fornecedor russo está obrigado a cumprir o contrato. 

O governo polaco garante que não haverá problemas de consumo no país e que o gás não será cortado aos consumidores, uma vez que as reservas estão a 76% da sua total capacidade e, para já, não se avizinha a necessidade de as usar, avança a Reuters. Para Clemente Pedro Nunes, engenheiro químico e docente do Instituto Superior Técnico, o valor da reserva é “significativo”, mas mesmo que o país necessite de usar parte ou a totalidade – caso não encontre uma alternativa o quanto antes, por exemplo –, o impacto continuará a não ser grave, pois “os países da UE vão fazer por cobrir os esforços adicionais da Polónia”, considera.

Segundo a BBC, a Europa poderia recorrer a outros exportadores de gás como o Qatar, a Argélia ou a Nigéria, “mas existem obstáculos práticos para expandir rapidamente a produção”.

Para o especialista, o corte no fornecimento de gás natural “não tem um efeito tão grande [na Polónia] como teria para Alemanha”, que é, a par da Itália, o país que mais importa este bem à Rússia. Num destes países, a situação seria “mais dramática”, diz.

Clemente Pedro Nunes explica que “a Polónia está numa posição menos vulnerável” do que outros países europeus “porque produz energia através do carvão”, embora também importe parte deste produto da Rússia – o que poderá vir a ser um problema caso haja um corte, visto que a Alemanha, os Países Baixos, a Turquia e a Polónia juntos receberam 24% de todas as exportações de carvão da Rússia em 2021, segundo a agência Energy Information Administration.

No ano passado, a PGNiG importou 9,9 bcm (mil milhões de metros cúbicos) de gás russo. Segundo o site S&P Global, a Polónia poderá substituir as importações de gás russo pelo gás norueguês assim que o gasoduto de 10 bcm/ano Baltic entrar em operação em outubro. Até lá, diz a BBC, a Polónia pode fazer uso de fontes alternativas de abastecimento, incluindo um terminal de gás natural liquefeito (GNL) em Swinoujscie. A 1 de maio está prevista a abertura de uma nova ligação de gasoduto com a Lituânia, que dará à Polónia acesso ao gás do terminal de GNL desse país.

Já na Bulgária o cenário é outro (com mais impacto na Europa)

A gigante energética russa, a Gazprom, anunciou esta terça-feira que, para além da Polónia, vai deixar de fornecer gás natural à empresa estatal búlgara Bulgagaz já a partir de quarta-feira.

A informação foi avançada pelo governo búlgaro, que disse que, em conjunto com a empresa estatal, a Bulgária já está a dar os passos necessários para conseguir fornecedores alternativos de gás. 

De acordo com o site Eurostat, a Bulgária está entre os dez países mais dependentes do gás russo, com uma importação na ordem dos 72,8%.

Para o engenheiro Nuno Moreira, apesar da forte dependência russa, a Bulgária “poderá receber gás de outra proveniência, nem que seja [gás] russo vindo de outra proveniência, de países vizinhos, salvaguardando os seus sistemas energéticos dentro das interligações europeias”.

Olhando para o panorama europeu, para Clemente Pedro Nunes, o anúncio do corte de fornecimento de gás à Bulgária “é um agravamento da situação do fornecimento de gás à União Europeia”.

Irá provocar certamente um agravamento ainda maior do preço do gás natural com impactos sérios no preço da eletricidade para os países que dependem decisivamente dos gás natural como potência firme indispensável para evitar apagões devido às intermitências das eólicas e das solares. Como é, infelizmente, o caso de Portugal”, explica o especialista.

No entanto, o engenheiro argumenta que “o efeito no conjunto da União Europeia só será verdadeiramente dramático se for cortado o fornecimento de gás à Alemanha”, que só no ano passado importou mais da metade do gás natural e cerca de um terço de todo o petróleo que usou à Rússia, conta o The New York Times. “De momento, parece que tal não estará para acontecer”.

Primeira consequência: subida (ainda maior) dos preços

“Este corte traz problemas para o jogo político e energético, pode fazer subir ainda mais o preço do gás natural”, alerta Clemente Pedro Nunes. E continua: “no caso da Polónia, o efeito não é dramático, mas terá um peso grande na Europa e também em Portugal”.

Apesar de Portugal importar apenas uma parte muito residual do gás da Rússia (cerca de 9% do gás utilizado no mercado português é russo), “produz energia por gás natural” e a subida do preço iria implicar diretamente uma subida do custo da energia, cujo “impacto no pior cenário” poderia fazer-se sentir “já para a semana ou em quinze dias”.

“Apesar de Portugal não receber diretamente gás russo, todo o nosso gás está afetado pelos preços dos mercados europeus e, por isso, podemos vir a sentir mais tarde ou mais cedo implicações no preço do gás. Não no imediato, mas a médio prazo. O comércio de gás será afetado”, assegura Nuno Moreira.

No entanto, este efeito "bola de neve" pode ser de algum modo travado, pelo menos para o consumidor, uma vez que o governo viu esta terça-feira “aprovada pela União Europeia a possibilidade do estabelecimento de um teto máximo para a eletricidade produzida a partir de gás natural, para que o preço do gás não «contamine» o preço da eletricidade paga pelo consumidor final”, explica à CNN Portugal o economista João Rodrigues dos Santos.

Segundo o também docente na Universidade Europeia, “o Governo prevê compensar as centrais elétricas a gás em relação à diferença entre o teto máximo e o preço do gás nos mercados”.

Energia verde como alternativa

Nuno Moreira olha para o duplo anúncio de corte de fornecimento de gás como “um alerta a ter em atenção e de alguma forma bastante preocupante”. Mas também como um trampolim para acelerar medidas para um uso mais generalizado de energia verde, isto é, produzida através de fontes renováveis.

“O sistema energético europeu tem vindo a ser construído e alterado para usar o gás natural, uma energia mais limpa do que o carvão e outras energias fósseis mais emissoras de CO2. Nos últimos anos, a Europa foi um bom aluno, pois passou a usar o gás natural, uma energia menos poluente, mas veio a ficar bastante dependente do gás russo e isso traz um problema geopolítico, mas também uma oportunidade para a Europa adotar uma energia mais limpa”.

O também doutorado em Engenharia e Gestão Industrial frisa que “há uma oportunidade muito atual para se repensar o setor do gás” e “uma oportunidade para o início dos gases renováveis”. 

Nuno Moreira considera que a Europa “poderá olhar para isto para antecipar medidas” e Portugal continuar na linha da frente – até mesmo como parte da solução. “Portugal começou antes do que outros países a falar de gases renováveis, seja biometano ou hidrogénio, estamos na linha da frente”.

“Não tenho dúvida de que Portugal, com condições fotovoltaicas e de produção de hidrogénio, possa ser exportador de hidrogénio. São sistemas energéticos complexos, mas quanto mais tarde começamos mais tarde ficam prontos e Portugal pode e deve contribuir para esse objetivo”.

O diretor executivo da Dourogás aborda ainda o porto de Sines, que considera ser a porta de entrada para o gás natural norte americano. "Pode vir a ajudar, bastava que a interligação entre Espanha e França estivesse concluída”.

Uma oportunidade em Sines

“Em Sines, podemos receber navios maiores, passar o GNL para navios mais pequenos e entregar na Europa com mais facilidade”, conclui.

No início deste mês, o ministro da Economia e do Mar António Costa e Silva já tinha reforçado esta ideia. Para o governante, o porto de Sines pode tornar-se um centro de “tecnologias verdes e biocombustíveis para a Marinha e todas as forças que se movimentam no mar”, bem como um centro de importação de gás natural liquefeito (GNL).

Esta semana, foi a vez do primeiro-ministro António Costa voltar a trazer o assunto para discussão e frisar que a Europa não pode continuar dependente de um único fornecedor e, em particular, da Rússia. “Podemos ser um porto de acolhimento, de armazenamento e de transhipment de gás natural liquefeito, que pode vir das múltiplas rotas atlânticas e de múltiplas origens para outras regiões europeias”, afirmou o primeiro-ministro, citado pelo Diário de Notícias, na apresentação do MadoquaPower2X, um projeto de produção de hidrogénio verde e amónia verde.

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