Jovens britânicos praticam mais sexo anal – e isso pode trazer riscos para as mulheres. E em Portugal? Os médicos “não estão preparados”

22 out, 22:00
Casal, sexo, sexualidade. Foto: Adobe Stock

Fissuras anais, incontinência fecal e doenças sexualmente transmissíveis são algumas das consequências da prática do sexo anal nas mulheres que, de acordo, com um estudo britânico, tem vindo a aumentar entre casais heterossexuais

Algo que em tempos remotos era apenas visto como “pecado”, “sodomia”, ou uma prática associada à homossexualidade, o sexo anal, que foi conquistando o seu espaço na televisão e nas redes sociais, é retratado não só por muitos homens, mas também por muitas mulheres, como uma prática prazerosa e está a tornar-se cada vez mais comum entre casais heterossexuais mais jovens.

De acordo com o National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyle (NATSAL), um inquérito realizado no Reino Unido que procura analisar os comportamentos e estilos de vida sexuais, a prática de sexo anal entre os 16 e os 24 anos de idade aumentou de 12,5% para 28,5% nas últimas décadas. Já nos EUA, entre 30 a 40% dos homens e mulheres afirmam ter essa experiência.

Mas esta prática pode apresentar risco para a saúde das mulheres. Incontinência fecal, sangramento e doenças sexualmente transmissíveis estão entre os problemas que preocupam vários profissionais de saúde. É o que dizem os especialistas de um estudo britânico divulgado em agosto deste ano no British Medical Journal. De acordo com a investigação, estas lesões são mais comuns nas mulheres do que nos homens por causa da sua anatomia.

O sexo anal pode ser extremamente doloroso para as mulheres quando não é feito de forma correta. Na base, sublinha a sexóloga Vânia Beliz, deve estar um conjunto de técnicas adequadas, para além da confiança e, acima de tudo, do consentimento de ambas as partes.

“O que às vezes acontece é que muitas parceiras acabam por ceder à vontade dos seus pares, porque eles insistem muito”, explica a especialista, considerando que a questão da liberdade sexual levou a que o sexo anal, bem como o oral, passasse a ser visto como uma prática comum. “Até em consulta, as utentes dizem-me que o facto de não o fazerem é um problema”, mas a especialista adverte que “não temos todos que fazer as mesmas coisas, mas sim fazer aquilo que nos dá prazer”. “Se não estamos confortáveis com alguma prática, não devemos recorrer a ela”, conclui.

Riscos e cuidados

Especialista em ginecologia-obstetrícia e medicina sexual, Maria do Céu Santo explica que as lesões surgem, essencialmente, quando não é feita uma preparação da área para a penetração. “O esfíncter anal está habituado a funcionar de dentro para fora, que é quando a pessoa vai à casa de banho, por isso é um pouco antinatura ser de fora para dentro”. A médica afirma que a lubrificação e a estimulação são imprescindíveis para evitar problemas. "Há fissuras anais – pequenas fendas na pele -, hemorroidas, e pode ainda resultar em incontinência de gases e de fezes, uma vez que o esfíncter fica dilatado”, alerta.

São também precisos outros cuidados, nomeadamente na penetração anal seguida de vaginal. Por exemplo, a “cistite de lua de mel” é o nome atribuído a uma infeção urinária que surge nos primeiros dias após as relações sexuais e que ocorre quando uma bactéria que devia permanecer nos intestinos consegue atingir a região à volta da vagina, alcançando a uretra. Segundo Maria do Céu Santo, esta situação afeta mais as mulheres, e é recorrente. “Há casos em que, como não engravidam através do sexo anal, deixam de usar proteção”, acrescenta a ginecologista, reforçando que o preservativo é importante também para evitar a transmissão de doenças e bactérias.

O cirurgião Eduardo Xavier, profissional na área da proctologia, afirma que, em Portugal, as lesões provenientes do sexo anal entre os mais jovens são "uma minoria". “Pelo menos na minha prática clínica. Se forem lesões muito graves, as pessoas vão para o hospital.” Contudo, no que diz respeito a lesões continuadas, o proctologista reconhece que os utentes ainda evitam ir ao médico por constrangimento e vergonha.

Acima de tudo, defende a importância de encarar o sexo anal como uma realidade e uma escolha e que as pessoas devem ter atitudes preventivas. “Pode haver determinados traumatismos, mas isso tanto acontece nas relações heterossexuais como nas homossexuais”, salienta.

Uma tema difícil, mesmo para os médicos

Questionados sobre a capacidade de resposta dos profissionais de saúde em relação a este tema, os especialistas ouvidos pela CNN são unânimes: os médicos “não estão preparados”. Vânia Beliz considera que a medicina em Portugal é ainda “muito clássica”, e que os estudantes de medicina, ainda que estejam bastante informados sobre as temáticas LGBT, não têm muita informação sobre outros temas. “Não é um assunto que a medicina aborde. A medicina sexual é uma coisa muito recente em Portugal”, sustenta.

Maria do Céu Santo concorda com esta análise, uma vez que a formação de profissionais nesta área é recente. “Até eu tive de fazer uma subespecialização”, conta. A médica considera que a sexualidade é um tema muito difícil de abordar numa primeira consulta de ginecologia. E o sexo anal ainda mais. “Eu não assumo que as pessoas estão a praticar sexo anal. Introduzo, dizendo ‘no caso de fazer sexo anal’ ou ‘há muitas pessoas que hoje em dia o fazem’, e indico várias ténicas.”

Para uma experiência saudável e satisfatória, importa que as partes envolvidas tenham em conta estes cuidados: higiene, esvaziamento do intestino, lubrificação, estimulação da região antes da penetração, evitar o uso de analgésicos, relaxamento e posições confortáveis. O ideal é que a parceira possa controlar a penetração. “Com o entusiasmo, o homem pode acabar por a magoar”, explica Vânia Beliz. No caso de mulheres que sofram de hemorroidas, a prática do sexo anal é desaconselhada. Em todo o caso, “as práticas sexuais têm que ser boas e gratificantes para ambos”.

A ginecologista Maria do Céu Santo tem vindo a reparar numa evolução nos termos da sexualidade e observa que a procura de ajuda para ultrapassar alguns problemas tem crescido, nomeadamente os relacionados com a prática de sexo anal. Nota-o nas suas consultas de medicina sexual. “É uma área que mexe muito culturalmente. Não há dados estatísticos que comprovem o aumento, mas mais utentes assumem que praticam.”

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