Inspirada por um sonho, esta fotografia tornou-se o símbolo de um movimento de protesto transformador

CNN , Rosa Rahimi
23 mar, 12:00
A artista plásticas Sethembile Msezane (ver crédito na foto)

"Chapungu - O Dia em que Rodes Caiu", de Sethembile Msezane, é o centro das atenções numa nova exposição no Reino Unido

Há nove anos, Sethembile Msezane subiu a um pedestal, vestindo um fato preto e saltos agulha, com os braços adornados com asas que criou a partir de madeira, veludo e cabelo. Atrás dela, vê-se uma estátua de um homem a ser levantada no ar. "Chapungu - The Day Rhodes Fell" [à letra, "Chapungu - O Dia em que Rodes Caiu"] tornou-se desde então uma fotografia icónica, captando o espírito do movimento #RhodesMustFall que levou à remoção da estátua do colonizador do século XIX Cecil Rhodes na Universidade da Cidade do Cabo.

Msezane estava a tirar um mestrado em Belas Artes na universidade durante os protestos, em que os estudantes exigiram a retirada da estátua do britânico, citando o seu legado como estando manchado de racismo.

"Não há forma de conceber aquele momento e a forma como as coisas se desenrolaram naquele dia", disse Msezane, em declarações à CNN a partir da Cidade do Cabo. A sua atuação e a imagem resultante - que se tornou um símbolo do dia histórico - nasceram de um sonho recorrente que a assombrou na altura em que o movimento de protesto começou.

A artista Sethembile Msezane num plinto em frente à estátua do colonialista britânico Cecil John Rhodes. A sua remoção foi o culminar de um mês de protestos dos estudantes. Charlie Shoemaker/Getty Images

Os sonhos giravam em torno de "Chapungu", uma águia bateleur sagrada do Zimbabué que Msezane encarnou no topo do plinto com as suas asas.

Oito destas aves - que têm um grande valor espiritual para o povo do Zimbabué - foram imortalizadas em pedra-sabão cinzento-esverdeada na antiga cidade do Grande Zimbabué. Com a degradação do local, seis foram posteriormente saqueadas e, no século XIX, uma estátua de Chapungu foi oferecida a Cecil Rhodes. Embora várias tenham sido devolvidas, a estátua permanece até hoje na antiga casa de Rhodes, na propriedade Groote Shuur, na Cidade do Cabo, explicou Msezane.

"Tem havido apelos políticos para que ela regresse a casa, mas, por alguma razão, esses apelos têm sido negados", afirmou. "Há uma crença mitológica de que, enquanto ela não regressar a casa, haverá agitação social no Zimbabué."

Msezane diz que Chapungu, que é um totem das esperanças e aspirações das pessoas na sociedade zimbabueana, estava em colaboração com a sua consciência no dia em que Rhodes caiu. "Ela usou o meu corpo como recipiente e eu aceitei a chamada".

Mesmo depois de a escultura de Rodes ter caído, Msezane permaneceu no seu plinto durante mais 20 a 30 minutos. "Era importante que (Chapungu) estivesse presente para que pudesse ser vista, para que pudéssemos começar a ver-nos nela - e não na nossa história de subjugação e desapropriação. Que nós também temos histórias de abundância e conhecimento ancestral".

A imagem está atualmente exposta em Londres, no âmbito da exposição "Acts of Resistance" da South London Gallery e da V&A Parasol Foundation: Photography, Feminisms and the Art of Protest" (Fotografia, Feminismos e a Arte do Protesto), que faz uma viagem pela resistência liderada por mulheres em todo o mundo, desde os perigos do aborto ilegal no Chile, na Polónia e nos Estados Unidos, até aos protestos liderados por mulheres no Irão e no Bangladesh.

"Seria empurrada?"

A criação do trabalho teve o seu preço. A peça Chapungu - que implicou que Msezane ficasse de pé no pedestal, de saltos altos, num dia quente, durante quase quatro horas - foi "bastante extenuante", disse. Manteve as asas presas aos seus braços no ar durante dois minutos antes de ter de descansar durante 10 e depois recomeçar.

No início, também teve medo. "Quando se faz um trabalho como este, fica-se bastante vulnerável", explicou.

A estátua do colonialista britânico Cecil John Rhodes foi retirada da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, a 9 de abril de 2015. Schalk van Zuydam/AP

"Estava assustada porque, e se a polícia viesse e me levasse, enquanto esta ocasião histórica tão importante estava a acontecer? O que me aconteceria se me levassem vestida com um collant e uns sapatos de salto alto? Seria empurrada? Poderia magoar-me ou morrer?".

Depois, estava a tremer. Tinha os membros cansados, os pés doridos e a visão turva. "Tudo o que eu queria era a minha roupa", diz ela, ao sair do plinto. "Eu só queria ir para casa e tomar um banho."

Quando a obra de Chapungu atraiu tanta atenção internacional, Msezane continuou com a sua vida e não pensou muito no assunto.

"Ainda estava dentro da tensão do que estava a acontecer", disse, referindo-se ao movimento Rhodes e ao que viria a dar origem à campanha Fees Must Fall. Ao mesmo tempo que o seu trabalho era aclamado, estava a ser alvo de críticas pelo seu envolvimento no movimento.

"O meu trabalho estava a ser citado em todo o lado e, para ser honesta, significava muito pouco para mim, quando era essa a realidade que eu estava a viver... o sistema ainda encontra formas de nos oprimir, apesar de um trabalho como este nos poder dar voz".

Por vezes, teme que o significado da peça se perca - com o foco em Rhodes e não no símbolo de Chapungu, que "se tornou um farol de esperança para muitos".

Para Msezane, o trabalho inspirou-a a pensar em como podemos ajudar as mulheres em todo o mundo. Msezane já não realiza "trabalhos de resistência" como o de Chapungu, referindo o quão desgastantes, perigosos e emocionais podem ser. Em vez disso, utiliza a sua arte como uma ferramenta para a mudança de outras formas - por exemplo, doando os lucros das vendas do seu trabalho para financiar projectos de caridade (anteriormente, apoiou o Hospital Panzi em Kinshasa, na República Democrática do Congo, que presta cuidados de saúde a mais de 80 mil mulheres e raparigas sobreviventes de violência sexual relacionada com conflitos).

A arte foi uma vocação

Desde tenra idade, Msezane tinha um coração criativo - expressando-se através de poemas, desenhos e vestidos, mas não esperava tornar-se uma artista.

Sethembile Msezane realizou outras peças performativas como esta, intitulada "So Long a Letter", no Monumento do Renascimento Africano, no Senegal, em 2016. Sethembile Msezane

"Não pensei que ser artista fosse viável para mim", explicou. Encorajada pela tia, começou a estudar belas-artes na Universidade da Cidade do Cabo - uma experiência que descreve como "muito frustrante", devido ao eurocentrismo do currículo.

"Estava sempre a tropeçar nos conceitos de que os africanos não eram produtores do seu próprio trabalho, mas sim seres sem rosto e sem nome".

Enquanto observava a paisagem e a arquitetura da Cidade do Cabo, Msezane inspirou-se para pensar no que a cidade tinha a dizer sobre a história das mulheres negras. "Descobri que era bastante estéril em relação às nossas histórias", disse Msezane à CNN.

Esta observação marcou o início da sua série de performances artísticas Public Holidays, em que Msezane aproveitava o dia de folga do seu emprego como administradora artística para encenar espectáculos na cidade.

"Tornou-se uma tarefa para mim reinserir algumas das histórias sobre as quais estava a pensar nos feriados políticos, em relação às estátuas coloniais, masculinas e europeias", disse. Representou a Lady Liberty no Dia da Liberdade e Rosie the Riveter no Dia do Trabalhador. Pouco tempo depois, Msezane deixou o seu emprego e começou a trabalhar a tempo inteiro como artista. "Foi mais ou menos assim que a vida se desenrolou... foi uma vocação."

Agora, suspensa no teto de uma galeria no sul de Londres, a imagem de Msezane saúda os visitantes e chama a sua atenção imediata. "Quero que entrem com uma sensação de espanto e que deixem que esse espanto se apodere dos seus sentidos", disse ela. "Quando virem a imagem, deixem-nos ir para onde precisam de ir."

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