Apesar da censura, há na Rússia notícias de crescente descontentamento e oposição à guerra

8 jun, 04:48
Vladimir Putin e o Ministro da Defesa Sergei Shoigu

Famílias dos russos mortos no cruzador Moskva são ameaçadas de perder a pensão estatal se falarem publicamente do afundamento do navio. E há cada vez mais críticas ao pouco treino dados aos novos recrutas, alguns dos quais foram mandados para a frente de batalha

O Instituto para o Estudo da Guerra, think tank norte-americano sobre assuntos de defesa (ISW, na sigla inglesa), relata, na sua análise mais recente sobre o conflito na Ucrânia, que há crescentes sinais de descontentamento na Rússia por causa das baixas que as suas forças estão a sofrer, e a falta de informação sobre militares desaparecidos ou falecidos. O clima de descontentamento, acrescenta o ISW, também é agravado pela mobilização forçada que estará a decorrer em Lugansk e Donetsk, as duas repúblicas separatistas pró-russas no Donbass.

“Os esforços do Kremlin para censurar a informação sobre militares falecidos e a mobilização forçada em curso na DNR [Donetsk] e no LNR [Lugansk] estão alegadamente a exacerbar as tensões domésticas e a oposição à guerra na Rússia”, escrevem os analistas norte-americanos.

Um dos exemplos da dificuldade em lidar com o descontentamento de russos comuns são os familiares dos militares que estavam a bordo do navio Moskva, que foi afundado pelos ucranianos no Mar Negro. Segundo informação da Direção da Inteligência Militar Ucraniana (GUR), e citada pelo ISW, “o Kremlin designou advogados e psicólogos para convencer as famílias do pessoal do cruzador afundado Moskva a absterem-se de revelar qualquer informação sobre a morte dos seus familiares num esforço para esmagar as crescentes tensões sociais na Rússia”. 

Ainda segundo o GUR, “o Kremlin ameaça anular a compensação financeira às famílias dos membros da tripulação do Moskva se estes discutirem publicamente o afundamento do cruzador”. Em protesto contra esta ameaça, alguns familiares ter-se-ão recusado a encontrar-se com os comandantes da Frota do Mar Negro em Sebastopol. 

Entretanto, na República Popular de Donetsk, as autoridades alteraram os protocolos de mobilização de recrutas, e estarão agora a prometer compensações para o pessoal ferido e falecido, após distúrbios entre os militares na linha da frente.

Novos recrutas treinados com foco na Ucrânia

Outro foco de conflito interno na Rússia apontado pelo Instituto para o Estudo da Guerra são as queixas sobre os maus tratos e a falta de preparação entre as forças de combate russas, nomeadamente os recrutas. O ambiente de insatisfação estará, “provavelmente, a levar o Kremlin a tomar medidas retóricas para conter o descontentamento”, escreve o think tank

“O ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, declarou que os novos recrutas durante o período de treino de Verão serão treinados com atenção específica às lições aprendidas até agora na Ucrânia”, revela o relatório de ontem à noite, referindo uma reunião com o Centro de Gestão da Defesa Nacional (NDCC) ocorrida nesse mesmo dia. “Shoigu acrescentou que os recrutas de Verão irão aprender os primeiros socorros no campo de batalha, provavelmente respondendo às críticas dos membros da comunidade militar russa sobre táticas deficientes e falta de perspicácia nos primeiros socorros entre os soldados russos. No entanto, é pouco provável que os militares russos treinem e equipem adequadamente os recrutas russos enviados apressadamente para a frente de batalha como substitutos, e provavelmente procurem sobretudo apaziguar o descontentamento público”, lê-se no documento.

Recorde-se que, também em resposta às críticas sobre o envio de recrutas para a frente de combate, ainda ontem o Exército russo anunciou castigou uma dúzia de oficiais. Segundo o El Mundo, estes terão sido responsabilizados pelo envio de 600 recrutas para a frente de combate na Ucrânia, situação que não deveria ter ocorrido e que já foi reconhecida por Vladimir Putin. Entre as medidas disciplinares adotadas está a expulsão destes oficiais das Forças Armadas.

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