A luta por Sloviansk pode ser “a próxima batalha crucial” da guerra na Ucrânia

CNN , Rob Picheta
7 abr, 19:00
Escombros de um edifício de Sloviansk, destruído durante anteriores confrontos entre separatistas pró-Rússia e as forças ucranianas, confrontos que acontecem desde a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014. (Ali Atmaca/Anadolu Agency/Getty Images)

A invasão da Ucrânia pela Rússia foi muito mais cara e menos bem-sucedida do que a maioria dos analistas esperava, nas primeiras seis semanas - e os especialistas acreditam agora que Moscovo está a mudar a sua abordagem militar.

A nova estratégia de guerra do presidente Vladimir Putin concentrar-se-á agora em tentar assumir o controlo de Donbass e de outras regiões do leste da Ucrânia, com uma data prevista para o início de maio, segundo vários representantes norte-americanos familiarizados com as últimas avaliações dos serviços de informação dos EUA.

Isso torna a cidade de Sloviansk, a mais de 480 quilómetros a leste da capital Kiev, um campo de batalha potencialmente crucial nas próximas semanas.

“Esforços por parte das forças russas que avançam de Izyum para capturar Slovyansk vão representar, provavelmente, a próxima batalha crucial da guerra na Ucrânia”, disse o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), com sede em Washington DC, na atualização de segunda-feira sobre o conflito na Ucrânia. O relatório usa transliterações alternativas de nomes de lugares na Ucrânia.

O ISW estima que as tropas russas iniciem operações ofensivas em direção à cidade a partir da vizinha Izium, já nos próximos dias, uma previsão que coincide com os alertas no terreno.

“Estão a ir para Sul, para Kamyanka, porque é a estrada que leva à cidade de Sloviansk”, disse à CNN Max Strelnyk, vereador do município da cidade de Izium, no final da semana passada, quando questionado sobre os planos das tropas russas. “Intercetámos conversas de rádio russas; a missão deles é capturar a região de Donetsk pelo norte.”

A estrada que leva a Izium, vista de Sloviansk, no final de março (Wojciech Grzedzinski/The Washington Post/Getty Images)

Na quarta-feira, Vadym Denysenko, conselheiro do Ministério da Administração Interna da Ucrânia, disse: “Se falarmos sobre os principais locais para onde se encaminha o conflito, eles são Sloviansk (na região de Donetsk) e Barvinkove (na região de Kharkiv).”

Os habitantes de Sloviansk, - uma cidade com pouco mais de 100 000 pessoas antes da invasão, - estão agora a ser incentivados a sair, enquanto as forças ucranianas se preparam para defender a cidade de um novo ataque russo.

O controlo da cidade tem uma importância estratégica significativa no conflito mais amplo. Se as forças russas invadissem Sloviansk, seriam capazes de travar o avanço das forças da Ucrânia na região. Se, por outro lado, forem contidas pela resistência ucraniana, as ambições da Rússia de controlar as regiões de Luhansk e Donetsk sofrerão um grande golpe.

A importância estratégica de Sloviansk

Sloviansk foi um grande foco de combates na região de Donbas, em 2014, e foi brevemente controlada pelos separatistas pró-Rússia, antes de estes serem expulsos pelas forças ucranianas em julho do mesmo ano.

Agora, a sua importância reside principalmente no facto de estar cercada em três lados por cidades controladas pela Rússia - Izium a norte, Luhansk a leste e Donetsk a sul - mas fica mais a oeste na região de Donbas do que os dois últimos locais, bloqueando os avanços da Rússia para o interior do território ucraniano.

“Provavelmente, as forças russas pretendem evitar a entrada das forças ucranianas no Leste da Ucrânia e, para isso, precisarão, no mínimo, de controlar Slovyansk”, disse o ISW.

Um ataque russo bem-sucedido à cidade daria a Moscovo a opção de ligar essas tropas às que lutam em Rubizhne, a Nordeste de Sloviansk, ou movê-las para Sul, em direção a Horlivka e Donetsk, na tentativa de cercar os combatentes ucranianos, acrescentou o instituto.

Mas a Rússia parece ter sofrido vários fracassos militares durante as primeiras seis semanas da invasão, e a sua incapacidade de assumir o controlo de cidades mais a oeste, como a capital Kiev, deve ter motivado o foco renovado na região de Donbas.

Nesse contexto, uma nova derrota russa contra a resistência ucraniana poderia pôr em perigo até mesmo esta nova estratégia a Leste.

“Se as forças russas não conseguirem tomar Slovyansk, é improvável que os ataques frontais russos em Donbass passem as defesas ucranianas e, aí, a campanha da Rússia para capturar a totalidade dos distritos de Luhansk e Donetsk irá, provavelmente, falhar”, disse o ISW.

Dados de 5 de abril de 2022 às 15:00 Notas: “Avaliado” significa que o Instituto para o Estudo da Guerra recebeu informações fiáveis ​​e verificáveis ​​de forma independente que demonstram o controlo ou os avanços russos nessas zonas. Os “avanços russos” são zonas onde as forças russas operaram ou lançaram ataques, mas que não são controladas pelas tropas russas. As zonas “reivindicadas” são aquelas onde as fontes disseram que o controlo ou as contraofensivas estão a acontecer, mas o ISW não pode corroborar nem demonstrar que são falsas. (Fontes: The Institute for the Study of War with AEI’s Critical Threats Project; LandScan HD para a Ucrânia, Laboratório Nacional de Oak Ridge | Grafismo Renée Rigdon, CNN)

A ameaça da catástrofe humanitária

As tropas russas reforçadas que vão de Izium para Sloviansk são compostas por elementos do 1º Exército Blindado de Guardas que já tinha estado na zona de Kharkiv-Sumy, ao Norte, disse o ISW na terça-feira.

Ainda não incluem as unidades que foram retiradas da região de Kiev, acrescentou o instituto. E, acrescentou, a operação em direção a Sloviansk “continua a ser em pequena escala e fez progressos limitados” até agora, nesta semana.

Mas a Rússia pode intensificar o ataque à cidade quando tiver mais unidades disponíveis. Os cidadãos de Sloviansk receberam ordens para deixar a cidade na segunda-feira, por receio de um ataque em grande escala e de uma catástrofe humanitária.

Isso mesmo já aconteceu em Izium, que está sob ataque russo há semanas. Na segunda-feira, um alto funcionário da Defesa dos EUA disse aos jornalistas que as forças russas “ainda fazem cerca de 200 missões aéreas por dia” e “a maioria dos seus ataques aéreos concentra-se na zona de Izium.”

Residentes preparam-se para embarcar nos comboios, em Sloviansk, na terça-feira, depois da ordem de evacuação dada pelo governo ucraniano. (Seth Sidney Berry/ZUMA Press Wire)

“Piora a cada dia que passa”, disse Strelnyk à CNN sobre a situação humanitária em Izium, na sexta-feira.

“Não houve uma pausa nos bombardeamentos russos que começaram há semanas. Embora a Rússia afirme que vai diminuir as operações militares nos distritos de Kiev e Chernihiv, Izium e a região de Kharkiv não terão essa sorte”, disse Strelnyk.

“Na cidade, os mortos são enterrados no parque central”, disse ele à CNN. Imagens de vídeo que foram geolocalizadas e cuja autenticidade foi verificada pela CNN mostram cadáveres em todo o parque central da cidade.

Na quarta-feira, as autoridades ucranianas disseram que estavam a acontecer grandes combates no Leste da Ucrânia, com o governador militar regional da região a Leste de Luhansk a pedir aos civis que abandonassem algumas cidades. Sloviansk fica no Norte da região fronteiriça de Donetsk.

Mas representantes das duas regiões falam das dificuldades em retirar as pessoas ou fazer entrar a ajuda.

A Ucrânia acusou repetidamente a Rússia de atacar os corredores humanitários estabelecidos e de bombardear os habitantes das cidades enquanto fugiam.

Ivan Fedorov, presidente da Câmara de Melitopol, a cidade a Sul ocupada pelos russos, disse na terça-feira que as tropas russas estavam a impedir a entrega de bens humanitários e a travar a saída dos civis.

“A situação dos corredores humanitários não melhorou”, disse Fedorov em comentários para a televisão. “Nas últimas duas semanas, conseguimos entregar apenas dois carregamentos humanitários em Melitopol.”

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Europa

Mais Europa

Patrocinados