Morreu Rita Lee (1947-2023): “Brinque de ser sério, leve a sério a brincadeira”

9 mai, 15:30

Artista brasileira de 75 anos morreu "cercada de todo o amor da sua família", na cidade de São Paulo

“Ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa” - assim imaginou Rita Lee o seu epitáfio. A cantora e autora que morreu esta terça-feira, aos 75 anos, esqueceu-se de dizer que tinha a música a percorrer-lhe as veias e que, mesmo que tivesse dificuldades em admiti-lo, é mesmo um dos nomes incontornáveis da música brasileira, que nos pôs a cantar “Mania de Você”, “Lança-Perfume”, “Jardins da Babilônia”, “Doce Vampiro”, “Baila Comigo” “Desculpe O Auê”, “Flagra”, “Baby” e tantas outras canções.

Aquela a que muitos chamam a “rainha” do rock brasileiro” será também recordada pela sua irreverência e pela defesa das mulheres, na música e na sociedade, com a sua língua afiada e as letras cheias de humor e liberdade. "A lôka”, como ela mesma dizia, tinha como lema: “brinque de ser sério, leve a sério a brincadeira”.

Nascida na véspera de Ano Novo, numa família de classe média de São Paulo, Rita era a filha mais nova do dentista Charles Fenley Jones, descendente de imigrantes norte-americanos, e de Romilda Padula, filha de imigrantes italianos: Charles e Chesa, como ela lhes chamava. Na infância já era a tal “ovelha negra da família”: fugia de casa pela janela para ir tocar bateria nas festinhas da escola. Cresceu sendo fã de Peter Pan, de James Dean, de Elvis e dos Beatles.

Os Mutantes

"Ozmano" - é assim que Rita Lee se refere na sua autobiografia, publicada em 2016, a Claudio, Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, os manos que estiveram na origem dos Mutantes. Rita cantava, tocava flauta, sintetizador e percussão, para criar um rock tropicalista e experimentalista. Em 1967, a banda acompanhou Gilberto Gil no III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, apresentando a canção "Domingo no parque". A ruiva sardenta de apenas 20 anos tornou-se, assim, famosa.

Rita embirrou desde o primeiro momento com Claudio, o mais velho dos manos. Arnaldo sempre foi o seu preferido - chegaram a namorar e até casaram, mas nunca foi nada muito sério. A relação com os “manos” não correu muito bem e a cantora acabou por ser expulsa do grupo, denunciando as assinaturas coletivas das composições e recusando sempre as muitas tentativas de reunião: "O que eu acho de revivals? Um bando de velhas raposas reunidas no que considero ‘como descolar uma graninha para pagar nossos geriatras’”.

Olhando para trás, Rita reconhecia que não era grande cantora naquela altura e que a música dos Mutantes não era assim tão boa (e até estranhava que fossem considerados “cult”), e não hesitava em dizer que aqueles foram bons tempos mas a sua carreira correu muito melhor sem o resto do grupo. Ainda assim, uma curiosidade: foi com os Mutantes que atuou pela primeira vez em Portugal. Fizeram a primeira parte de um concerto de Edu Lobo no Teatro Villaret, de Raul Solnado, em Lisboa. Talvez alguns ainda se lembrem do apagão provocado nada mais, nada menos do que pela então loira oxigenada.

Rita Lee no Rock in Rio, em 1985. Foto: AP

As “trips” foram muitas

Depois dos Mutantes (1966-1972), esteve nos Tutti Frutti (1973-1978), com quem fez temas como “Agora Só Falta Você”, “Ovelha Negra” ou “Jardins da Babilônia”, mas ao mesmo tempo Rita Lee foi dandos os primeiros passos naquela que viria a ser uma bem sucedida carreira a solo.

No livro, conta histórias que metem Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tim Maia, os famosos festivais da canção, Elis Regina, João Gilberto e até Eric Clapton ou Alice Cooper. Em vários momentos, ela pura e simplesmente admitia que não se recordava do que tinha acontecido. As “trips” foram muitas. "Não faço a Madalena arrependida com discursinho antidrogas, não me culpo por ter entrado em muitas, eu me orgulho de ter saído de todas”, dizia.

Mas havia outros momentos que recordava bem e de que falava com emoção, como o modo como conheceu Roberto de Carvalho, em 1976, a sua grande paixão desde então e também seu parceiro musical, e o nascimento dos três filhos.

 

Rita continuou no rock mas também soube ser a rainha do romantismo com “Mania de Você”, em 1979. “Baila Comigo” deu o nome e o tema de abertura a uma telenovela da Globo em 1981, “Flagra” era o tema do genérico da novela “Final Feliz”, em 1982.

Em 1998 Rita Lee lançou o seu “Acústico MTV”, com a participação de Cássia Eller, Paula Toller, Titãs e Milton Nascimento. Em 2002, vimo-la muitas vezes a tricotar no programa do GNT, “Saia Justa”, ao lado de Fernanda Young e Marisa Orth. Em 2003 lançou o álbum “Balacobaco”, com a famosa faixa "Amor e Sexo". Em outubro de 2008, a revista Rolling Stone colocou-a no 15º lugar na Lista dos 100 Maiores Artistas da Música Brasileira.

Em 2022 Rita Lee foi homenageada na cerimónia do Grammy Latino, recebendo o Lifetime Achievement Award, um reconhecimento do conjunto da obra e carreira. A cantora não pôde comparecer por recomendação médica, mas mandou um recado a dizer que estava “feliz pra chuchu”.

Vegana e defensora dos animais

Aos poucos, a vida foi mudando. Rita, que tinha sido "doidona, porra-louca, maconheira, droguística, alcoólatra e lisérgica, entre outras virtudes", passou a ser "bem-vivida, bem-experimentada, bem-amada, careta, feliz e... bonitinha". Vegana e defensora dos animais, vivia afastada das confusões do mundo da música. Aquela que lutou contra o machismo no rock, mesmo sem o cabelo vermelho, continuava a ser fogo e, até há bem pouco tempo, a ter tempo para compor "umas musiquinhas". 

Caetano Veloso, Rita Lee e Gilberto Gil no Carnaval de São Paulo em 2012. Foto: VANESSA CARVALHO/AFP via Getty Images

Na biografia, escrita perto dos 70 anos, a cantora brincava: “Quando dizem que a idade está na cabeça, meu fígado e minha coluna dão uma risadinha sarcástica”. Em 2010, Rita Lee fez uma operação para remover os seios devido ao histórico de cancro na família. Foi diagnostica com um cancro no pulmão em maio de 2021. Em abril do ano passado, o filho da cantora, Beto Lee, anunciou que a mãe estava curada. Mas a fragilidade era visível nas poucas fotos que ia publicando no Instagram.

Sem saudosismos nem arrependimentos, Rita Lee continuava a ter prazer em contrariar o sistema, em dizer o que pensava e em rir de si mesma. Louvando o amor e a felicidade, como na autobiografia que termina com esta frase: "A sorte de ter sido quem sou, de estar onde estou, não é nada se comparada ao meu maior gol: sim, acho que fiz um monte de gente feliz".

Despedimo-nos de Rita Lee. Era assim que ela imaginava este momento (e não andará muito longe da verdade): “Quando eu morrer, posso imaginar as palavras de carinho de quem me detesta. Algumas rádios tocarão minhas músicas sem cobrar jabá, dirão que farei falta no mundo da música, quem sabe até deem meu nome para uma rua sem saída. Os fãs, esses sinceros, empunharão capas dos meus discos e entoarão ‘Ovelha Negra’, as TVs já devem ter na manga um resumo da minha trajetória para exibir no telejornal do dia e uma notinha no obituário de algumas revistas há de sair. Nas redes virtuais, alguns dirão. ‘Ué, pensei que a véia já tivesse morrido, kkk’. Nenhum político se atreverá a comparecer ao meu velório, uma vez que nunca compareci ao palanque de nenhum deles e me levantaria do caixão para vaiá-los. Enquanto isso, estarei eu de alma presente no céu tocando minha autoharp e cantando para Deus: ‘Thank you Lord, finally sedated’.” Obrigada, Senhor, finalmente sedada.
 

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