Afinal, PS teve o pior resultado desde 1987. Afinal, Pedro Nuno ficou abaixo de Sócrates e Montenegro de Ferreira Leite. E votaram quase 6,5 milhões

21 mar, 13:20
PRIMEIROS MINISTROS

Contagem dos votos no estrangeiro baixou quase todos os resultados dos partidos que elegeram deputados. Todos menos de dois: PAN e Chega. Veja quem ganhou e quem perdeu, entre partidos e dentro dos partidos. Abstenção fechou nos 40,16% mas nunca tanta gente tinha votado numas legislativas

Afinal, o PS teve o seu pior resultado em eleições legislativas não desde José Sócrates em 2011 (como se dizia até ontem) mas desde Vitor Constâncio em 1987 - há 37 anos, portanto. Foram os resultados eleitorais no estrangeiro, que só foram apurados esta quarta-feira à noite, que produziram esta alteração: o PS baixou de 28,66% (resultados no território nacional) para 28% (resultados globais). E essas 66 centésimas foram suficientes para os os resultados finais ficarem afinal abaixo dos alcançados pelo PS no ano da intervenção externa.

O PS não foi, aliás, o único prejudicado. Também a AD baixou a votação final de 29,49% (somando os resultados da AD com os do PSD-CDS na Madeira, arquipélago onde a coligação de direita não incluiu o PPM) para 28,84%.

E isto significa que a distância final entre os dois primeiros classificados nas legislativas foi de apenas 0,84 pontos percentuais. São apenas mais 54.544 votos (menos de metade dos 102 mil do ADN, por exemplo), que ainda assim permitem mais dois deputados na Assembleia da República.

Mas houve mais alterações: a IL ficou afinal abaixo dos 5%. E o Livre encurtou a distância para a CDU, ficando a apenas 2.437 votos da coligação PCP-PEV.

Eis os resultados globais, antes e depois dos resultados no estrangeiro ontem apurados:

Partido Resultado

território nacional

Resultados Globais

(com estrangeiro) 

 

Diferença antes e

após estrangeiro

(pp)

 

AD* 29,49% 28,84% -0,65
PS 28,66% 28% -0,66
Chega 18,06% 18,07% +0,01
IL 5,08% 4,94% -0,14
BE 4,46% 4,36% -0,1
CDU 3,3% 3,17% -0,13
Livre 3,26% 3,16% -0,1
PAN 1,93% 1,95% +0,02

* Inclui AD e Coligação PSD-CDS na Madeira. pp: pontos percentuais

Montenegro será o primeiro-ministro com votação mais fraca de sempre...

Nunca um governo tinha sido indigitado depois de uma vitória tão frágil: apenas 28,84% dos votos (incluindo AD e PSD-CDS na Madeira), que permitem 80 assentos no Parlamento. Montenegro só não inicia funções como o primeiro-ministro mais enfraquecido dos governos constitucionais (pós-1976) porque vários chefes de governo foram nomeados nestes 48 anos sem que tivessem liderado candidaturas eleitorais. Entre os que o foram, nenhum outro ganhou nem com tão pouco (peso de votos) nem por tão pouco (face ao segundo lugar). 

Como o gráfico mostra, só dois primeiros-ministros tiveram menos de 30% nas urnas: Luís Montenegro este ano e Cavaco Silva em 1985. A comparação entre os dois anos tem aliás sido frequente nos últimos dias. Como em 2024, em que o Chega superou 18% dos votos, também em 1985 não houve bipartidarismo, mas sim quatro partidos a recolher entre 15% e 30%: PSD, PS, PRD e APU. O Governo minoritário durou menos de dois anos, quando perdeu o apoio parlamentar do PRD. Vieram novas eleições, que Cavaco Silva ganharia por maioria absoluta. A passagem da minoria de Cavaco em 1985 para a maioria absoluta em 1987 pode inspirar agora os sociais-democratas: nunca, como então, tão pouco acabou em tanto.

O próximo será o XXII Governo constitucional. Nos 21 anteriores, houve governos que duraram dias e outros que duraram legislaturas completas. No total, houve seis maiorias absolutas: duas de Francisco Sá Carneiro (AD), duas de Cavaco Silva (PSD), uma de José Sócrates e uma de António Costa (ambos PS). Cavaco Silva é, ainda hoje, o recordista na maior percentagem de votos numas legislativas em Portugal. Aliás, em duas – e seguidas: 1991 e 1995.

Esta análise abrange 17 eleições legislativas desde 1976, excluindo-se, pois, o período dos governos provisórios (as primeiras legislativas da democracia realizaram-se em 1975).

Nestas 17 eleições em 48 anos, a direita coligou-se quatro vezes: através da AD (PSD, CDS e PPM) em 1979, 1980 e 2024; e através da PàF (PSD e CDS) em 2015. Em todas elas, a coligação venceu – mesmo se a vitória em 2015 não garantiu governação, já que depois do chumbo do programa de governo o Partido Socialista formaria Governo com o acordo do BE e o PCP (a chamada “geringonça”). Ainda assim, é em 2024 que uma coligação liderada pelo PSD obtém a pior votação.

Já à esquerda, apenas uma vez o PS se candidatou coligado, em 1980, através da FRS - Frente Republicana e Socialista, que agregou o Partido Socialista, a União de Esquerda Socialista Democrática (UEDS) e a Ação Social Democrata Independente (ASDI). A coligação perdeu e o PS não repetiria a solução.

Já o PCP candidatou-se quase sempre coligado, primeiro pela APU – Aliança Povo Unido (PCP e MDP/CDE), depois através da CDU – Coligação Democrática Unitária (Partido Comunista Português e Partido Ecologista “Os Verdes”).

... e Montenegro afinal pior que Manuela Ferreira Leite

Outra alteração que resulta da contagem de votos no estrangeiro é a "despromoção" de Luís Montenegro face aos resultados de outros líderes do PSD. Contando apenas o resultado no território nacional, o presidente do PSD tinha ficado acima do resultado alcançado por Manuela Ferreira Leite nas eleições legislativas de 2009, que então perdeu contra José Sócrates. Mas contados os resultados finais, afinal Luís Montenegro acabou abaixo dos 29%.. e da votação da Manuela Ferreira Leite.

Pedro Nuno Santos melhor apenas do que Constâncio e Almeida Santos

Estes resultados fazem com que Pedro Nuno Santos seja - por enquanto - o secretário-geral do PS com pior resultado em eleições legislativas à exceção de Vitor Constâncio (1987) e de António Almeida Santos (1985). Embora Mário Soares também tenha tido duas eleições com piores resultados do que o de 2024 (em 1979 e em 1980), também alcançou duas votações acima (em 1976 e em 1980).

Claro que Pedro Nuno Santos pode ainda melhorar esta sua primeira marca em futuras eleições. Recorde-se que o atual líder socialista foi pela primeira vez a votos como tal e apenas semanas depois de ser formalmente eleito pelo partido.

Chega com o segundo melhor 3º lugar de sempre (ex-aequo)

No campeonato dos terceiros, Ventura ainda (e só) é batido por Álvaro Cunhal. Uma vez. Por uma décima.

Longe vai o ano de 1979, quando a APU – Aliança Povo Unido (coligação entre o Partido Comunista Português e Movimento Democrático Português / Comissão Democrática Eleitoral) teve o melhor terceiro lugar de sempre numas legislativas. Nesse ano, os distritos de Évora e de Beja colocavam cinco deputados cada um na Assembleia da República (hoje são três). E, nesse ano, a APU elegeu três deputados em cada um dos distritos. Em Évora, teve 49% dos votos. Em Beja, 51%.

Por sete vezes foi a coligação liderada pelo PCP a terceira força mais votada em Portugal, a última das quais há quase 20 anos (2005), por Jerónimo de Sousa. Mas só por uma vez teve o PCP melhor resultado que os fulgurantes 18,07% alcançados pelo Chega (tendo uma outra vez tido um resultado idêntico). Há quase 40 anos (desde 1985) que nenhum “terceiro lugar” superava 12,5% dos votos.

Foi a segunda vez que o Chega ganhou a “medalha de bronze” no pódio eleitoral, sucedendo em 2022 ao Bloco de Esquerda, que desde 2015 ultrapassara o CDS, que por sua vez sucedera ao PCP. Na história eleitoral da legislativas conta-se ainda o epifenómeno do PRD, que em 1985 galgou as preferências eleitorais até alcançar quase 18% dos votos. Perdeu força política logo depois deste apogeu. O Chega promete não seguir para o mesmo cadafalso.

Nunca tanta gente tinha votado numas legislativas

Quase 6,5 milhões de votos! Mais 910 mil do que há dois anos.

A taxa de abstenção caiu a pique, para 40,16% (global, incluindo estrangeiro), o nível mais baixo desde 2005. Mas há outro indicador em que estas legislativas brilham mais do que em qualquer outra desde 1976, quando foi eleito o primeiro governo constitucional (depois dos governos provisórios pós-25 de Abril): nunca tanta gente tinha votado.

Em 2024, mais de 6,4 milhões de eleitores votaram (incluindo o território nacional e os eleitores da Europa e de fora da Europa). 

O maior número de votantes não significa, ainda assim, a menor taxa de abstenção de sempre. Essa ocorreu em 1975, quando 5,7 milhões de portugueses votaram, o equivalente a 95% de taxa de participação. A diferença é que em 1975 havia 6,4 milhões de eleitores inscritos. Em 2024 há 10,8 milhões de inscritos.

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