A monarquia "não depende da presença física desta rainha para continuar", mas Carlos pode ser "um fator de complicação". As implicações da morte de Isabel II na política britânica

9 set, 15:00
Família real inglesa

A monarca bateu todos os recordes de longevidade e era um fator de união forte para a popularidade da monarquia. A CNN Portugal ouviu especialistas em assuntos internacionais sobre os efeitos que a morte da monarca poderá ter no quadro do Reino Unido e no contexto mundial

Com a morte da rainha Isabel II, a questão impõe-se: que consequências terá o desaparecimento da monarca no quadro da política britânica? Há desde logo dois temas que podem ganhar força e margem para serem debatidos, como explica André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, em declarações à CNN Portugal: “Poderá haver implicações na Escócia e no caso irlandês, na questão da possível reunificação da Irlanda”.

O especialista lembra que estes dossiers, que surgiram no cenário pós-Brexit, “ainda estão bem quentes” e poderão novamente dominar a agenda política com a morte de Isabel II, que era um fator "de união" no Reino Unido. Importa lembrar que a possibilidade de um novo referendo sobre a independência na Escócia já foi admitida pelo próprio governo de Edimburgo e a questão da fronteira irlandesa tem sido um foco de tensão entre Londres e a União Europeia - evitar uma fronteira física com a Irlanda é um dos requisitos dos acordos de paz de 1998 para o território.

Estas podem ser as consequências políticas mais diretas, mas o impacto da morte de Isabel II não ficará limitado ao Reino Unido e à Commonwealth.

“A morte da rainha será um evento com grande comoção, não só no Reino Unido, mas a nível mundial”, frisa André Azevedo Alves, notando que, apesar de Isabel II não exercer “nenhum tipo de poder executivo ou legislativo”, tem “um cargo simbólico” e “esse simbolismo tem um peso muito grande”. O especialista em assuntos internacionais lembra que a monarca, de 96 anos, “bateu todos os recordes de longevidade”, conheceu um “número recorde de primeiros-ministros” e “teve contacto com diferentes gerações de líderes de vários países mundiais”.

Não há um chefe de Estado que tenha esta abrangência, tirando o caso da Papa, que tem características ainda mais excecionais”, acrescenta.

No que toca à política partidária britânica propriamente dita, André Azevedo Alves não antecipa consequências: “Se estivermos a falar na política partidária não consigo percecionar impacto. A monarquia é relativamente consensual, não vejo que haja aí um peso substancial”.

“A rainha é um fator de união forte para a popularidade da monarquia, mas não me parece que a monarquia dependa da presença física desta rainha para continuar”, vinca.

Ainda assim, a popularidade da monarquia vai também “depender da conduta do sucessor” de Isabel II. André Azevedo Alves admite que “se a conduta do sucessor gerar problemas ou polémicas” isso poderá abalar o consenso que parece existir atualmente. Uma ideia que é corroborada pelo professor de Ciência Política e Relações Internacionais Vasco Rato.

Carlos poderá ser "um fator de complicação"

Vasco Rato explica que, apesar de, no Reino Unido, a monarquia como instituição não estar em risco, "o rei pode tornar a monarquia mais popular ou menos popular" e Carlos, o filho mais velho e sucessor direto, poderá ser "um fator de complicação".

"Se por um lado ninguém questiona a instituição, este rei pode tornar a monarquia mais popular ou menos popular. O monarca tem poderes políticos e pode exercê-lo de forma mais 'soft' ou ser mais interventivo. Tudo leva a crer que príncipe Carlos pode ser mais interventivo", sublinha. 

O especialista lembra que Carlos tem feito considerações sobre vários temas: "Tem falado muito sobre agricultura, sobre a questão do património nacional". "E se continuar a ter esse tipo de posição irá desagradar a esquerda ou a direita", prevê o especialista.

Aliás, Vasco Rato afirma que "parte da razão pela qual alegadamente Isabel II nunca abdicou terá sido por ter dúvidas em relação a Carlos para desempenhar o cargo". 

O especialista sublinha que Isabel II era um fator de união e que Carlos, por oposição, "não é uma figura acutilante e querida". Isso poderá tornar "mais fácil algum discurso nacionalista", mas Vasco Rato acredita que "não há um sentimento anti-monárquico no Reino Unido". 

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