A inteligência artificial vai substituir-nos? Não, mas as pessoas que usam inteligência artificial sim

4 set 2023, 07:00
ChatGPT (AP)

Apresenta-nos desafios complexos, mas tem um potencial transformador sem precedentes. Como é que a psicologia pode ajudar o desenvolvimento da inteligência artificial? E como é que esta tecnologia pode ajudar a psicologia?

A inteligência Artificial veio para ficar e nós vamos ter de nos adaptar. A Ordem dos Psicólogos lança, esta segunda-feira, um contributo científico com recomendações estratégicas para "contribuir para a discussão" em torno dos sistemas de inteligência artificial (IA), intitulado "O Factor Humano na Inteligência Artificial". Este trabalho mergulha nas implicações que a IA tem para a sociedade, destacando não apenas os desafios, mas também as oportunidades que esta revolução tecnológica traz consigo.

A CNN Portugal entrevistou Miguel Oliveira, membro da direção da Ordem dos Psicólogos, para uma conversa sobre o papel da psicologia no desenvolvimento científico, bem como as recomendações para aproveitar melhor esta tecnologia em benefício da humanidade como um todo.

Porquê este documento, o que é que a Ordem espera alcançar com a sua publicação?

Aquilo que a Ordem pretende é, em primeiro lugar, promover a literacia e fazer com que as pessoas ganhem mais consciência daquilo que são os impactos que a inteligência artificial já está a ter, não só a nível das empresas, mas também a nível social. E com isto podemos fazer com que as pessoas possam tomar um conjunto de decisões que sejam mais informadas daquilo que se passa ao dia de hoje e o tipo de implicações que a inteligência artificial nos está a trazer. 

É muito importante para nós salientar que aquilo que são muitos conceitos que estão ligados à inteligência artificial, são conceitos que estão partilhados também da psicologia. Por exemplo, só o nome inteligência artificial remete para a psicologia, a inteligência é uma área da psicologia há muito tempo. Também a forma como estes novos modelos estão a ser desenvolvidos, em que se espelham muito naquilo que é o funcionamento do cérebro humano, em que a neuropsicologia também tem aqui um grande impacto. Mas não só, também nos treinos de aprendizagem, como aprendem os reforços e os incentivos.

Como é que a psicologia pode contribuir para o desenvolvimento e implementação destes sistemas? 

A psicologia pode fornecer e gerar muito valor. Como eu disse, existe um conjunto de conceitos centrais para o desenvolvimento da inteligência artificial que são da área da psicologia. Nós sabemos que estes modelos são treinados ou afinados com pesos. Ou seja, de que forma vamos avaliar se há um reforço positivo ou negativo de determinadas ações. Apesar de não parecer à primeira vista, a psicologia pode contribuir, porque já tem aqui um conhecimento acumulado há muito tempo e que, dessa forma, pode ajudar que estes desenvolvimentos nesta área possam ser aquilo que a União Europeia quer: centrados no ser humano e para o ser humano.

E a psicologia tem a aprender com a inteligência artificial?

Eu acho que sim. Eu acho que haverá aqui um espaço para que nós possamos olhar para aquilo que são os resultados e podermos aprender. Isto é uma abordagem multidisciplinar e, obviamente, aquilo que são alguns produtos da inteligência artificial, nós podemos olhar para podermos fazer melhor. Há já em vista alguns desenvolvimentos, que permitem, por exemplo, a automatização de determinados tipos de processos, que podem permitir aos psicólogos aproveitar para podermos ser mais eficientes. Os psicólogos poderão estar mais tempo direcionados para os nossos utentes e para as pessoas que usam a psicologia.

No documento também são apresentados vários desafios. Quais são os principais riscos que a Ordem dos Psicólogos vê na utilização da inteligência artificial? E o que é que propõe para mitigar esses desafios?

Existem três desafios centrais. A inteligência artificial vem trazer aqui uma nova preocupação. Nós vamos ter de, rapidamente, e muito mais rapidamente do que estávamos habituados, a desenvolver um conjunto de competências que não tínhamos. E isto, como qualquer transição, vai fazer com que algumas competências que nós achávamos que eram muito importantes fiquem obsoletas e outras que vamos ter de aprender. 

A segunda é uma discussão a nível da sociedade. Temos de perceber quais são as competências que nós vamos delegar para a inteligência artificial. Porque haverá, com certeza, um conjunto de competências que nós podemos delegar para a inteligência artificial. Sabendo que nós vamos ter de delegar algumas tarefas, podemos correr o risco de ficar "esvaziados" das nossas competências.

E há um problema mais geral, a nível da humanidade, que é a questão do problema do alinhamento da inteligência artificial. De que forma é que nós podemos contribuir para que os valores destas inteligências artificiais estejam de acordo com os valores humanos. Isto parece-me ser a grande questão. É necessária uma discussão alargada, com vários intervenientes das mais diversas áreas e sectores. Esta discussão precisa de ser feita muito rapidamente. O ritmo de mudança é muito, muito rápido. 

E acredita que a nossa capacidade de legislar acompanha a velocidade deste desenvolvimento? 

Não é a minha área, mas a minha perceção enquanto cidadão é que, com aquilo que nós temos visto, a resposta é um claro não. E para isso basta ouvir as audições que se fizeram ao CEO da Open AI, Sam Altman, e percebe-se pelas perguntas que eles não fazem ideia do estado em que nós estamos. Tendo por lado esta informação, diria que não. 

No entanto, a nível mundial, a Europa encontra-se muito mais protegida. Nós temos o Artificial Intelligence Act que está para sair. Há também um documento feito, para o qual a Ordem dos Psicólogos também deu o seu contributo, que se chama Ethical Guidelines for Trustworthy AI e que é um conjunto de guidelines que permitem aqui gerir e tentar fazer com que a inteligência artificial possa ser vista e usada de uma forma confiável. O caminho feito na Europa é muito focado naqueles que são os nossos valores e centrado nos direitos das pessoas.

Mas é importante perceber que o ritmo de mudança nesta área é à semana e é impossível legislar à semana.

O vosso documento enumera vários desafios, desde desafios para as democracias, monopólios de informação, criação de deepfakes, enviesamento de informação na área da saúde, no emprego, até na área financeira. Não podemos cair numa situação em que os riscos podem ser maiores do que as oportunidades?

Sim, eu acho que sim. É muito complicado, face a uma tecnologia nova, radicalmente nova, conseguirmos antecipar todos os seus produtos. O que é mais fácil antecipar? Os riscos, porque nós conseguimos medir perfeitamente o impacto que isto vai ter nos empregos e em que tipo de empregos.

Agora, os impactos muitas das vezes na parte positiva são muito mais difíceis porque nós não sabemos o que vai acontecer. Quando houve a revolução da energia elétrica, foram colmatados vários problemas. Mas em 1900 era impossível, por exemplo, prever-se que a energia elétrica ia fazer com que tivéssemos máquinas de lavar roupa ou loiça, por exemplo. Até a própria internet, que apareceu com base nesta tecnologia e nós muitas vezes nem o reconhecemos como tal. 

Eu acredito que os benefícios vão suplantar os riscos, mas, repito, para isso vamos precisar de ter competências. Para determinadas faixas etárias será mais difícil adquirir as competências necessárias.

Quando fala nestas competências, a que competências se refere em concreto?

Os grandes modelos de linguagem [como o ChatGPT] que estão agora a surgir indicam-nos que precisamos de saber fazer perguntas. Perguntas boas geram respostas boas. Essa é uma boa capacidade que nos permitirá ir condicionando estes modelos para obtermos as respostas que queremos. 

O nosso ensino está todo direcionado para a questão da memória. Nós decoramos tudo para fazermos os testes. Hoje o que nós queremos é a parte da criatividade, que é uma parte muito importante para arranjarmos novas formas de poder resolver problemas. A escola tem de estar mais atualizada com o conjunto de competências que o mundo parece estar a pedir. 

Aliás, uma das coisas que nós na Ordem também estamos a fazer para os psicólogos é exatamente dizer que a psicologia pode gerar valor no contexto da tecnologia, mas que nós psicólogos também precisamos adquirir aqui um conjunto de novas competências para podermos fazer com que este valor seja mais visível.

Um psicólogo tem de ter aqui um conjunto de questões relacionadas com a privacidade, com o tratamento dos dados dos pacientes, com a cibersegurança ou com a ética, por exemplo. São questões que não estavam nos nossos currículos, mas que agora parecem deveras necessárias para que nós possamos aqui dar conta daquilo que é o comum dos médicos.

Falou das questões éticas. Estes modelos de linguagem aprendem com base na informação que lhes damos. O ser humano não se comporta no mundo digital da mesma forma que se comporta no mundo real. Isto não cria uma espécie de viés nestes mecanismos?

É um facto que nós nos comportamos de forma diferente no espaço digital e no espaço social real. Isso tem um impacto muito grande. Estes modelos aprendem com as nossas interações. Quanto menos empáticos, quanto mais racistas nós formos, quanto mais xenófobos, quanto mais as nossas piores características estiverem na internet, pior, porque vai ser com esses dados que os futuros sistemas de inteligência artificial vão ser treinados. 

Tendo essa consciência ao libertar, é importante que nós comecemos a modular aquilo que é o nosso comportamento online para ser o mais parecido com aquilo que é o nosso comportamento real, para que então os sistemas de inteligência artificial possam ter uma melhor representação daquilo que somos, os seres humanos. Imagine que vamos, como estes sistemas, tentar descobrir o mundo só com o que existe escrito. Podíamos não ficar muito bem impressionados. 

Mas, neste momento, posso dizer que existe, principalmente na Europa, uma grande atenção a este tema. E existe uma atenção para que estes sistemas sejam o mais representativos possíveis, que sejam inclusive não ofensivos.

E qual é o potencial desta tecnologia no mercado de trabalho? O que é que acha que se segue? Vamos ter um aumento da produtividade? 

Sim, creio que irá aumentar. Existem algumas questões relacionadas com a inteligência artificial que nos fazem ter medo de ser substituídos por inteligência artificial. Não vamos ser substituídos por inteligência artificial, mas vamos ser substituídos por pessoas que usam a inteligência artificial.

Estes grandes modelos de linguagem, tipo o ChatGPT ou o Bard, é a utilização de linguagem natural como forma de comunicação. Por que é que isto é importante? Porque nos permite a todos que sabemos falar e escrever comunicar com a inteligência artificial sem ter de aprender linguagem de código informático. 

Existe já um conjunto de aplicações, que são muito extraordinárias, na área da saúde, por exemplo. Vamos ter novos medicamentos a serem sintetizados muito mais rapidamente. 

Como é que vê o futuro da inteligência artificial em Portugal e qual é o papel da psicologia nesse futuro?  

Portugal está bem encaminhado para fazer frente aos desafios. Nós temos um plano de transição digital, o governo português tem apostado e há cada vez mais áreas e sistemas públicos em que há a utilização desta ferramenta para ajudar os cidadãos. Os nossos engenheiros e a formação dos nossos engenheiros nesta área é muito bem vista não só aqui em Portugal, mas também no estrangeiro. Eu acho que para Portugal nós estamos no bom caminho, mas precisamos acelerar. O ritmo tem de aumentar sempre. 

O papel da psicologia é aquele que eu disse, o papel da psicologia está aqui para fazer com que a inteligência artificial seja uma ferramenta para que os seus eventos possam ser aumentados, para fazer mais e melhor. Conforme eu referi no início, nós temos um conjunto de áreas-base da nossa formação em que, de uma forma muito clara, e com o conhecimento científico acumulado, podemos trazer para cima da mesa para que possamos ajudar neste processo de transição digital.

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