De Paris a Barcelona, de Lisboa a Lyon, do Porto a Berlim, a rua volta a ser palco de disputas, violência, contestação e utopias. A ordem democrática liberal que o pós-Guerra Fria consolidou está, presentemente, em crise e sob contestação.
Nenhum outro espaço – nem mesmo os parlamentos ou as sedes governamentais – é tão político quanto a rua. A rua é o palco da vida pública, espaço das disputas, do cumprimento e da contestação das normas civis e morais, mapa de narrativas e memórias políticas através dos seus nomes e estátuas.
Henri Lefebvre, grande educador do pensamento intelectual dos jovens do Maio de 68, foi um dos seus maiores pensadores. Lefebvre preocupava-se com a forma como a cidade era politicamente organizada e determinada por legitimidades e ilegitimidades de pertença. Quem tinha voz, quem era apagado e escondido, quem tinha o poder para estabelecer o direito a existir na cidade. Para ele, viver a cidade é experienciar a cidadania.
Ele dá-nos matéria para pensar. Já Judith Butler, preocupada com as identidades e os corpos sociais antinormativos, mostra que reunir pessoas no espaço público comunica uma exigência: a de que as vidas invisíveis contem.
A rua é, portanto, o palco para a ação. E é, hoje, o palco para a reconfiguração da Esquerda.
Depois de Mamdani ter trazido o custo de vida para a atividade política, rematerializando a Esquerda, e de o Die Linke ter tornado a habitação a sua bandeira eleitoral em Berlim, vivemos uma aceleração e uma hiperatividade da Esquerda euroamericana. A Esquerda que foi morrendo por se ter tornado seletiva nas causas e em quem poderia fazer parte dela, redescobriu a estratégia da frente ampla de descontentamento.
É por isso que encontramos o Bloco de Esquerda (BE) tão vivo e ativo nas acampadas e demais manifestações de rua. Percebeu que o seu tempo é agora.
Numa minuta de 14 de outubro, a Comissão Política do BE faz um balanço positivo das manifestações e defende continuar a participar nas mobilizações, incluindo a da Casa para Viver. Já em setembro, a Comissão Política defendera a manutenção do foco nas ações políticas de rua e o envolvimento nas manifestações de outubro. Não estamos, portanto, perante uma adesão ocasional, mas antes face a uma orientação política continuada.
Há, portanto, uma escolha estratégica explícita de intervir na rua. E isto tem uma leitura antropolítica essencial: um partido eleitoralmente enfraquecido encontra na mobilização social uma oportunidade de recuperar iniciativa, visibilidade e ligação às pessoas. Mesmo que isso não prove que o partido coordena, direta ou indiretamente, as ações no terreno.
É por isso que destacadas figuras e figuras menos conhecidas do partido se têm envolvido nas manifestações, acampadas e debates nas redes sociais. Há uma janela real de oportunidade que justifica o frenesim. Há uma atmosfera revolucionária, um sentimento antissistema, uma disponibilidade para “deitar tudo abaixo” que ultrapassa a frustração com a gentrificação, a falta de habitação e o absurdo das rendas e que é genuinamente território das utopias bloquistas.
É por isso que uma grande parte daqueles que estão contra as manifestações as “denuncia” como políticas: lenços da Palestina, uma estética alternativa e discursos anticapitalistas.
Nada disso é descabido. Como não é ilegítimo. Afinal, os partidos políticos não vivem numa realidade etérea.
Mas há uma diferença entre participar numa mobilização social e conseguir transformá-la em representação política. A rua pode devolver visibilidade a um partido, oferecer-lhe causas, símbolos e até um sentimento de pertença. Não lhe devolve necessariamente os eleitores.
É essa a incógnita do Bloco: se a rua será o lugar do seu renascimento político ou apenas o espaço onde uma esquerda eleitoralmente diminuída reencontra, por momentos, a ilusão da sua antiga centralidade.