Prognóstico: "O Governo dura entre seis meses a um ano". Ressalva: "A cor portuguesa é o azul"

8 abr, 11:18

 

 

 

Pacheco Pereira considera que o novo Executivo tem "duas ou três alternativas" para governar - sendo uma delas... não governar. Quanto a outra polémica, a do logótipo, Pacheco Pereira levou um manual para o programa da CNN Portugal "Princípio da Incerteza" e fez considerações históricas - e diz que tem visto coisas "ignorantes". Ainda sobre o logo: Alexandra Leitão teme que tenha sido uma decisão "ridícula", Lobo Xavier diz que está do lado "do artista"

Pacheco Pereira acredita que o Governo liderado por Montenegro tem um prazo de validade máximo de um ano e que apenas tem duas ou três alternativas, sendo que uma delas passa por uma atitude provocatória relativamente ao PS - facto que pode levar a eleições antecipadas. 

"O problema tem que ver sempre com as condições de governabilidade. Eu insisto sempre no mesmo ponto. Este governo tem duas ou três alternativas. A primeira das alternativas é seguir uma linha de provocação, essencialmente em relação ao PS, para tentar forçar um drama qualquer e eventualmente ir rapidamente para eleições antecipadas. E há traços na atuação do governo e do PSD desse ponto de vista. Também não há clareza estratégica aí. E o PS aí está a ser colocado sob chantagem, que é 'ou votas isto ou aquilo ou aquele outro ou então fazes derrubar o governo'."

Pacheco Pereira considera que outro dos problemas do novo Governo "é o cumprimento das promessas", uma vez que "fez promessas a torto e a direito" e que "tem de as cumprir". 

"Em alguns casos isso significa uma pressão orçamental que vai ser muito difícil de compatibilizar, particularmente se houver um agravamento da situação internacional. E tem uma terceira maneira. A terceira maneira de sobreviver é não governar. Quer dizer, nós não podemos escolher essa hipótese, apesar desta retórica toda. Numa altura em que é suposto que os governos tenham uma entrada em grande, pode haver esta retórica toda em não se governar. É possível fazer isso durante algum tempo. Porque é preciso ter em conta que vai haver eleições. As eleições para o Parlamento Europeu, os seus resultados vão ser interpretados a nível nacional. Neste contexto, não são resultados para o Parlamento Europeu. Vai haver uma situação de agravamento internacional. Eu não quero estar a fazer prognósticos a não ser no fim do jogo, que é a minha política sempre. Mas eu acho que seis meses é o mínimo, um ano será o máximo", considerou.

Repor o logótipo antigo, a 1.ª medida de Montenegro para "mudar o país"

Sobre a primeira medida do Governo de Montenegro, Alexandra Leitão considerou que a medida "ou é ridícula ou é simbólica", acrescentando que "como primeira medida ou não tem significado ou tem um significado que não acho muito simpático de desfazer o que foi feito"

"Se é ridícula, é ridícula para primeira medida. Vou citar um antigo secretário-geral do meu partido - não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão. E, portanto, foi esta a primeira medida. Mas se é simbólica, é mais grave. Porque é sinal de uma perspetiva antiprogressista e de uma perspetiva um bocadinho de política de cancelamento ao contrário. Fazendo propositadamente, e digo propositadamente, porque naturalmente não acredito que confundam, propositadamente uma confusão entre os símbolos nacionais e o que é a bandeira e aquilo que era um símbolo do Executivo, do Governo, que eu posso gostar mais ou menos. Mas que me parece que foi empolada como primeira medida. Como digo, como primeira medida ou não tem significado ou tem um significado que não acho muito simpático de desfazer o que foi feito, sem cuidar se havia contratos, como é que se faz ao estacionário, como é que se faz ao papel, mas pronto, cumpriram essa promessa, talvez porque não tencionam assim tanto cumprir outras, vamos ver".

Por sua vez, Pacheco Pereira, que levou com ele o manual técnico que explica a simplificação da imagem do Governo, afirmou que a mudança do logótipo "é sensível" e lembrou que a cor portuguesa é o azul.

"Eu acho imensa graça de ver monárquicos, eu já escrevi isso, monárquicos, reacionários, passadistas traçarem armas para uma bandeira jacobina. Eu isso acho alguma graça. A cor, se quiserem ser tradicionalistas, a cor portuguesa é o azul. O azul e branco. Praticamente desde o início", disse, acrescentando que a mudança do logo é "reacionária e ignorante".

António Lobo Xavier considera que este "é dos assuntos que são complexos", apesar de compreender "as táticas políticas, as decisões simbólicas" e que os "símbolos nacionais são sagrados". "Eu sou pelo artista. Um Governo, do anterior primeiro-ministro, encomendou a um artista que eu conheço e de que sou amigo um trabalho para mudar a simbologia da aparição pública do Governo. Com uma certa funcionalidade, que ele até explica, que é melhor", afirmou, lembrando então que "os símbolos nacionais são sagrados, mas não estão vedados à criação artística".

Lobo Xavier afirmou que "é reacionário é imaginar que não se pode deixar um artista, a partir dos símbolos nacionais, fazer a sua criação". "Depois o Governo pode adotar ou não adotar. O artista fez a sua criação, e eu respeito, e portanto são ignóbeis os ataques pessoais ao artista e as ameaças pessoais ao artista. E isso não é só reacionário, é profundamente ignorante."

A primeira decisão do Governo de Luís Montenegro foi repor o logótipo da República usado pelo Executivo - "é a primeira medida para mudar estruturalmente Portugal em quatro anos e meio", justificou o ministro da Presidência, Leitão Amaro, na passada quarta-feira.

"O PS não sabe como se colocar, não digo isto com ironia"

Quanto à governabilidade do país, Alexandra Leitão sublinha que não é uma responsabilidade do PS mas sim da coligação que formou governo. "Quem tem que garantir a governabilidade é o partido que formou o governo, ou melhor, é a coligação que formou o governo, até porque se fosse um partido seria diferente", afirmou, adiantando que o que tem de ser questionado é como é que o primeiro-ministro "pretende garantir a governabilidade". "Quem tem de assegurar a governabilidade é o Governo, é quem foi indigitado, empossado e em breve vai apresentar programa de Governo na Assembleia da República."

Lembrando que o silêncio de "mais de 19 dias" de Luís Montenegro só foi "quebrado por um discurso, e novamente silêncio", Alexandra Leitão diz ainda que "as indicações que vêm desse discurso são um bocado contrárias à possibilidade de garantir grande estabilidade".

"Na verdade foi um discurso muito virado para 'nós vamos fazer o nosso programa eleitoral e para nos derrubarem têm de pôr uma moção de rejeição'. Isto foi dito praticamente com estas palavras, com estas letras todas. E aquilo que pareceu o resultado do discurso do primeiro-ministro foi: bom, o Partido Socialista, se quiser ser responsável, tem de viabilizar o nosso programa e deixar seguir o programa da AD", acrescentou, reiterando ainda que a pergunta da governabilidade "não deve ser dirigida ao Partido Socialista, o Partido Socialista não quer, nem deixa de querer o que quer que seja, quer apenas seguir, ser fiel ao seu programa e não deve ser o principal responsabilizado pela governabilidade".

Afirmando que "ainda" não percebeu "bem qual é a estratégia do primeiro-ministro para assegurar essa governabilidade", Alexandra Leitão nota que Montenegro "tão depressa" faz "um grande apelo ao diálogo como a seguir há um conjunto de expressões - a meu ver bastante infelizes - como 'deixem-nos trabalhar', 'forças de bloqueio' e coisas do género".

Para António Lobo Xavier, um dos trunfos que levou a AD a vencer as eleições foi a firmeza em dizer que não ao Chega e que, se isto não tiver qualquer valor para Pedro Nuno Santos, pode ter repercussões dentro do próprio PS. "Acho que o PS não sabe ainda muito bem como se colocar. E nisto não há nenhuma ironia. É mesmo aquilo que eu penso. E compreendo. Quer dizer, o tempo mudou. Todas as típicas e antigas posições claras. 'Nós agora estamos na oposição. Vocês governem, arranjem lá a forma de governar.' Não joga muito bem com os tempos políticos. Nem com aquilo que se passou em circunstâncias idênticas nos outros países. Que são coisas que nós devemos ter sempre presentes", afirmou, acrescentando que "o PS também ainda não sabe muito bem como é que há de fazer oposição"

Considerando que "também é duvidoso que o PS queira eleições", Lobo Xavier diz ainda que, no entanto, "o PS não está obrigado a levar a AD ao colo, nem a suportar este governo eternamente". "Mas tem de mostrar que, do ponto de vista da democracia, algum valor dá ao facto de ter ao seu lado um partido com alguma, ou uma coligação com alguma proximidade, que rejeitou, nem sequer negociou, nem tentou, que fez da sua campanha uma rejeição de ligação à direita radical. Porque a campanha do PS foi sempre a dizer 'não se iludam, o PSD e o CDS vão juntar-se ao Chega. Isso não aconteceu. Não vai acontecer, nem do ponto de vista tático, nem do ponto de vista estratégico. (...) Se isto não tiver valor nenhum para Pedro Nunes Santos, pode conduzir a fraturas no partido. E não é estranho. Há outros países onde acontecem fraturas deste tipo. Um novo partido central, por exemplo, com as pessoas do centro, e um partido mais à esquerda, por exemplo, essas coisas acontecem. E, portanto, é muito difícil de gerir. Acho que Pedro Nuno Santos tem uma tarefa quase tão difícil como a de Luís Montenegro."

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