O que defende o terceiro candidato Robert F. Kennedy Jr. e que impacto pode ter nas presidenciais?

Agência Lusa
30 mar, 08:53
Robert Kennedy Jr (LUSA)

O candidato independente e sobrinho do antigo presidente John F. Kennedy ameaça baralhar as contas e desviar votos em Biden e Trump

Terceiro candidato às presidenciais norte-americanas de 05 de novembro, o independente Robert F. Kennedy Jr. demonstra capacidade para baralhar as contas e desviar votos dos dois principais nomes esperados no embate eleitoral, Joe Biden e Donald Trump. 

Filho de Robert F. Kennedy e sobrinho do ex-presidente John F. Kennedy, ambos assassinados na década de sessenta, o candidato independente tem um reconhecimento de nome pronunciado e as sondagens mostram que há apetência por uma terceira via. 

Kennedy Jr. lidera hoje um comício em Los Angeles focado no ativista e líder sindical César Chávez, com personalidades locais a mostrarem apoio à sua candidatura. 

Eis alguns pontos essenciais sobre o Kennedy que pode complicar as contas eleitorais:

Como surgiu a candidatura independente?

Herdeiro de uma família de políticos democratas, Robert F. Kennedy Jr. tentou candidatar-se à nomeação presidencial como democrata em abril de 2023, mas abandonou o partido em outubro para se lançar como independente. Justificou-se dizendo que havia corrupção na liderança dos dois partidos e que queria mudar os hábitos da política americana. 

Apesar do reconhecimento do nome como democrata, a sua taxa de aprovação é mais elevada entre os eleitores republicanos, devido às posições antivacinas. 

O ex-estratego de Trump, Steve Bannon, foi uma das vozes que mais incentivou a candidatura; Kennedy Jr. tem marcado presença em círculos associados a uma franja dos conservadores, como o podcast de Joe Rogan e o programa de entrevistas de Tucker Carlson. 

O que defende?

O candidato é conhecido por posições extremadas e conspirações em várias áreas. Acredita que as vacinas estão ligadas ao autismo e fundou a organização Children`s Health Defense, que advoga contra a vacinação. Foi banido do Instagram por disseminar informações falsas relativas à covid-19 e considera que os tiroteios em massa se devem a medicamentos e antidepressivos. 

Também causou polémica depois de defender uma proibição nacional do aborto após as 12 semanas e subsequentemente voltar atrás nessa posição.

A sua política externa inclui a redução do orçamento de despesas do exército, regresso dos militares em missão e uma solução diplomática para resolver a invasão da Ucrânia.

Em termos económicos, pretende instituir um salário mínimo nacional de 15 dólares por hora, expandir creches gratuitas e incentivar o poder de negociação dos sindicatos. 

Advogado ambiental com uma longa carreira em causas climáticas, defende a mudança dos subsídios agrícolas para encorajar práticas mais sustentáveis, incentivos ao uso de energia limpa e redução do uso de pesticidas.

Na crise da imigração, a sua proposta é defender as fronteiras para acabar com as entradas ilegais e ao mesmo tempo expandir o sistema de imigração legal. 

Quem está a financiar a sua campanha?

O grosso do financiamento tem sido angariado pelo comité de ação política (PAC) American Values 2024 e o seu principal doador é o republicano Timothy Mellon, que nesta campanha também já deu 15 milhões a Donald Trump. 

Outros doadores relevantes são Omeed Malik, que está por detrás de uma firma de investimento "anti-woke", e John Schnatter, ex-CEO da Papa John`s Pizza e destacado apoiante de Donald Trump. O realizador Oliver Stone, responsável pelo filme de 1991 "JFK" e que nos últimos anos se tornou simpatizante de Vladimir Putin, também fez uma contribuição para a campanha. 

Quem escolheu para vice-presidente?

A advogada e veterana de Silicon Valley Nicole Shanahan é a escolha para vice-presidente. Tem 38 anos, foi casada com o cofundador da Google Sergey Brin e partilha das ideias sobre saúde, alimentação e clima, além de ter enorme capacidade financeira. 

Shanahan fez um donativo de quatro milhões de dólares ao PAC que pagou por um anúncio de 30 segundos no intervalo da Super Bowl. Seria a vice-presidente mais nova de sempre na história dos EUA. 

O que dizem as sondagens?

O desempenho de Kennedy Jr. nas sondagens tem flutuado, bem como a sua taxa de aprovação. Numa corrida a três, várias sondagens nacionais publicadas em março mostram que Kennedy Jr. ultrapassa os 10% de intenções de voto. É o caso das pesquisas Harvard/Harris (14%), Echelon Insights (10%), Quinnipiac University (13%) e Fox News/Beacon research (12%).

Em janeiro, a Gallup determinou que era o candidato com maior indicador de popularidade, uma aprovação de 52%. Mas o agregado da plataforma FiveThirtyEight mostra que, em março, essa taxa ronda os 40%. 

 

Que análise fazem os especialistas?

Os estrategos democratas consideram que Robert F. Kennedy Jr. está a agir para estragar a reeleição de Joe Biden e a posição de estrategos republicanos, tal como Karl Rove, é similar. 

Em 2016, os candidatos de terceira via lograram 5,8% e esses votos foram decisivos para a derrota de Hillary Clinton em estados como Michigan e Wisconsin. 

Mas o cientista político Thomas Holyoke disse à Lusa que Kennedy Jr. tem capacidade para desviar votos dos dois candidatos de topo e até pode ser pior para Trump. 

"Ambos os candidatos devem estar muito preocupados com ele. Tenho a sensação de que a campanha de Trump deve estar ainda mais assustada", referiu. "Com o historial de Kennedy de ser antivacinas, tem mais potencial para prejudicar Trump". 

Qual o maior obstáculo?

O maior problema que Kennedy Jr. tem de resolver é como aparecer nos boletins de voto a 05 de novembro. Neste momento, tem apenas garantida a presença nos boletins do estado do Utah. 

O processo é dispendioso e tem de ser feito estado a estado, com a recolha de um milhão de assinaturas válidas. A campanha estima que o custo ascenda a 15 milhões de dólares, sendo algo que tem de ser feito dentro dos prazos estabelecidos e segundo as regras de cada estado. 

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