Satisfação dos portugueses com funcionamento da democracia “decresceu significativamente”

Agência Lusa
27 mai, 00:25
Covid-19: o novo normal nos transportes públicos

Segundo o estudo, “de entre os países em análise, apenas três outros – Malta, Eslovénia e Áustria – evidenciam um decréscimo equivalente ou superior ao registado por Portugal”

Um estudo esta sexta-feira apresentado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que os níveis de satisfação dos portugueses com o funcionamento da democracia “decresceram significativamente” durante a pandemia, apesar de continuar a ser largamente o regime político mais apoiado.

Intitulado “Um novo normal? Impactos e lições de dois anos de pandemia em Portugal”, o estudo – coordenado pelos investigadores Nuno Monteiro e Carlos Jalali – visa “registar o sucedido” durante a pandemia de covid-19 e “aprender as lições” para preparar melhor “futuras crises e pandemias”.

No quinto capítulo do estudo – “A democracia em tempos de pandemia: impacto da pandemia de covid-19 no sistema político português” –, é realçado que “os níveis de satisfação dos portugueses com o funcionamento da democracia (…) decresceram ainda mais e de forma muito considerável durante a pandemia”.

Segundo o estudo, “de entre os países em análise, apenas três outros – Malta, Eslovénia e Áustria – evidenciam um decréscimo equivalente ou superior ao registado por Portugal”.

No entanto, o estudo salienta que “as atitudes dos cidadãos em relação à democracia enquanto forma de governo não parecem ter sido abaladas pela pandemia, continuando a ser largamente maioritário o apoio dos portugueses à democracia (acima dos 90%), quando comparada com outras formas de governo não democráticas”.

Portugal contraria tendência europeia no apoio ao Governo

No que se refere aos níveis de confiança no Governo, “regista-se apenas um ligeiro decréscimo durante a pandemia (2020-2021)”, contrariando “a tendência prevalecente na generalidade dos países europeus”, em que essa confiança se viu reforçada.

Em contrapartida, o apoio a um “Governo de especialistas” aumentou significativamente com a experiência pandémica: se, em 2017, 59% se mostravam favoráveis a esse tipo de executivo, em 2021 esse valor subiu para 69%.

No entanto, a perspetiva de um Governo com um líder forte, “pouco preocupado com o escrutínio do parlamento ou com a fiscalização da sua atuação através das eleições”, decresceu no mesmo período, passando dos 50% em 2017, para os 42% em 2021.

Indicando também que, em contextos de crise, os fenómenos eurocéticos e populistas costumam ser “frequentemente amplificados”, o estudo enfatiza, no entanto, que tal não aconteceu em Portugal.

Para ilustrá-lo, os investigadores apontam que os níveis de confiança dos portugueses nas instituições europeias chegaram mesmo a aumentar, com a confiança na Comissão Europeia a disparar para 83,6% em 2021, depois de ter atingido um mínimo histórico de 33% em 2014.

Diminuição do populismo antielitista

No que se refere “à presença de retórica populista nos discursos dos partidos políticos portugueses, esta parece ter-se atenuado no período pandémico, em particular na sua componente antielitista”, escrevem ainda os investigadores.

Numa análise aos simpatizantes dos partidos políticos, o estudo refere que, durante a pandemia, observou-se em Portugal “alguns sinais de polarização dos partidos e de eleitores, com uma diminuição dos inquiridos que se posicionam ao centro em termos ideológicos”.

Os investigadores notam que essa “polarização com base em linhas partidárias está particularmente patente no que respeita à ideia de o coronavírus ter sido criado em laboratório como arma biológica”, com a existência de uma tendência para os eleitores de direita acreditarem mais em teorias de conspiração do que os de esquerda.

Confrontados com a afirmação “o coronavírus foi criado em laboratório como arma ideológica”, por exemplo, 78,6% dos simpatizantes do Chega inquiridos em setembro e outubro de 2021 concordaram com essa afirmação, enquanto que, no que se refere a apoiantes do Bloco de Esquerda (BE), 34,5% partilharam a mesma opinião.

O estudo em questão baseou-se num inquérito de opinião à população portuguesa feito ‘online’ ou por via telefónica em duas vagas: “na primeira vaga, o trabalho de campo realizou-se entre 16 de março e 20 de maio de 2021, num total de 3.643 entrevistas”; “na segunda vaga, entre 6 de setembro de 2021 e 2 de outubro do mesmo, procedeu-se à reinquirição de aproximadamente 50% da amostra da primeira vaga, num total de 1.640 novas entrevistas”.

O estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos é apresentado esta quinta-feira no sábado no Teatro Camões, em Lisboa, no âmbito de um encontro intitulado “Outra vez nunca mais – prevenção e resposta a pandemias”.

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