A forma como os EUA tentam ajudar a Ucrânia sem desencadearem uma guerra (ainda) maior frente à Rússia

CNN , Jeremy Herb, Jeremy Diamond, Kevin Liptak, Natasha Bertrand e Lauren Fox
13 mar, 16:00
Bombardeamento no centro de Kharkiv, na Ucrânia (Getty Images)

A rápida rejeição por parte dos EUA de um plano polaco para levar caças MiG-29 para a Ucrânia é o exemplo mais claro das complicações que os EUA e os seus aliados da NATO enfrentam ao tentar ajudar a Ucrânia a defender-se contra o ataque brutal da Rússia, garantindo ao mesmo tempo que não são arrastados para uma guerra de maiores proporções.

As negociações terminaram quase tão rapidamente como começaram. O anúncio da Polónia, na terça-feira, de que estavam dispostos a fornecer caças MiG à Ucrânia, através de uma base da Força Aérea dos EUA na Alemanha apanhou os Estados Unidos desprevenidos. Na manhã de quarta-feira, representantes norte-americanos e polacos ainda discutiam a possibilidade de fornecer caças à Ucrânia, revelou um funcionário da administração à CNN.

No entanto, na tarde de quarta-feira, o Pentágono anunciou que se opunha à ideia, o que o Secretário de Defesa Lloyd Austin transmitiu numa chamada ao seu homólogo polaco.

"O secretário Austin agradeceu ao ministro pela disponibilidade da Polónia em continuar a procurar formas de ajudar a Ucrânia, mas sublinhou que não apoiamos a transferência de aviões de combate adicionais para a Força Aérea ucraniana neste momento e, portanto, também não queremos vê-los sob nossa custódia", disse o porta-voz do Pentágono, John Kirby, em conferência de imprensa.

O episódio enfatiza a forma como os EUA e os seus aliados podem estar a atingir o limite do que podem fazer para ajudar a Ucrânia - mantendo-se fora do conflito - e aponta para possíveis falhas numa aliança que permaneceu fortemente unida no início da guerra, à medida que os membros decretaram sanções rígidas e forneceram auxílio na segurança. Também demonstra que a Administração Biden ainda está à procura de sintonia.

A rejeição do Pentágono do plano de fornecer jatos veio depois de o Secretário de Estado, Antony Blinken, ter apoiado a ideia no início da semana, e de um legislador senior do Partido Republicano ter dito que havia divisões dentro da Administração sobre o que fazer quanto a este assunto.

Os representantes oficiais dizem à CNN que qualquer discussão pública sobre o plano só o torna menos provável de acontecer, pois só aumenta a capacidade de Moscovo de recorrer a movimentos de escalada e aumenta o nervosismo de países como a Polónia, nervosa por estar na mira do Presidente russo, Vladimir Putin.

Os representantes norte-americanos ficaram profundamente frustrados por a Polónia ter tornado pública a oferta, dizendo que parecia ser uma encenação para dentro do próprio país, para mostrar que estão a fazer tudo o que podem para ajudar a Ucrânia, bem cientes de que a logística ainda não tinha sido definida.

Em Varsóvia, na quinta-feira, a vice-presidente Kamala Harris procurou sublinhar a força da aliança polaco-americana, apesar da reviravolta desta semana.

"E quero ser muito clara. Os Estados Unidos e a Polónia estão unidos naquilo que fizeram e estão preparados para ajudar a Ucrânia e o povo da Ucrânia, ponto final", disse Harris ao lado do Presidente polaco, Andrzej Duda, numa conferência de imprensa conjunta.

Harris evitou abordar diretamente a questão durante a conferência de imprensa e, em vez disso, sublinhou o apoio militar que os Estados Unidos já estão a fornecer à Ucrânia, que tem pouco poder aéreo, incluindo mísseis antitanque, dizendo: "Estamos a fazer entregas todos os dias, na medida das nossas possibilidades."

Quando lhe perguntaram o que mais podia esperar a Ucrânia, Harris respondeu: "Esse processo está em curso e não vai parar, na medida em que existe uma necessidade."

Preocupações com a escalada

Os comentários de Kirby deixaram bem claro que há receios sobre que medidas mais diretas possam aumentar ainda mais as tensões com a Rússia e arriscar arrastar a NATO diretamente para a guerra.

Um representante do Governo disse que os EUA receavam que a Rússia pudesse interpretar como um ataque os jatos que voavam para a Ucrânia a partir de uma base da NATO.

"Para os serviços de informação, a transferência dos MiG-29 para a Ucrânia pode ser confundida com uma escalada, podendo resultar numa significativa reação russa que aumentará as perspectivas de uma escalada militar com a NATO", disse Kirby. "Portanto, também consideramos que a transferência dos MiG-29 para a Ucrânia é de alto risco."

Os EUA e os seus aliados tomaram uma série de medidas para ajudar a Ucrânia, incluindo o fornecimento de armas e a aplicação de sanções, como a proibição de importação de petróleo russo pelos EUA, que o Presidente Joe Biden anunciou esta semana - outra medida para a qual Zelensky pressionou publicamente.

Um alto funcionário da Defesa disse aos jornalistas que a maior parte dos 350 milhões de dólares para ajuda à segurança, aprovados para a Ucrânia no mês passado, já foi enviada.

Os EUA e outros membros da NATO forneceram até agora à Ucrânia 17 mil mísseis antitanque e 2000 mísseis antiaéreos Stinger, de acordo com um alto funcionário dos EUA.

No entanto, não implementaram uma zona de exclusão aérea nem forneceram à Ucrânia caças MiG-29, apesar de inúmeros pedidos de Zelensky devido ao receio de arrastar a Aliança para o conflito.

Vários legisladores em Washington também pediram uma zona de exclusão aérea, já que republicanos e democratas pressionaram publicamente o Governo Biden para fazer mais.

"Abram os céus, deem-lhes os aviões. Essas questões superam qualquer outra coisa que nos preocupe", disse o deputado Mike Quigley, democrata do llinois e copresidente do Congresso para a Ucrânia, a Kate Bolduan da CNN na quarta-feira.

"Não quero ficar a discutir e a estabelecer limites, quando Putin já disse que as sanções são sinónimo de guerra. Estamos a entregar ajuda letal", acrescentou. "Achamos mesmo que Putin vai fazer uma distinção entre Javelins e Stingers que possam matar russos de forma muito eficaz, e os jatos que protegem os céus?"

Defesa aérea como alternativa

Na quarta-feira, a ministra britânica dos Negócios Estrangeiros, Liz Truss, disse que o Reino Unido forneceria sistemas de defesa aérea à Ucrânia, afirmando também que não pretendiam estabelecer uma zona de exclusão aérea.

"A melhor forma de ajudar a proteger os céus é por meio de armas antiaéreas, que o Reino Unido agora fornecerá à Ucrânia", disse Truss em conferência de imprensa no Departamento de Estado com Blinken.

Kirby disse que o Pentágono acreditava que a melhor forma de apoiar a Ucrânia era fornecer-lhes sistemas anti-blindagem e de defesa antiaérea, como mísseis terra-ar e sistemas terrestres de defesa antiaérea. A inclusão de aeronaves na frota ucraniana "provavelmente não mudaria significativamente a eficácia da força aérea ucraniana em relação às capacidades russas", disse Kirby.

"Portanto, acreditamos que o ganho com a transferência desses MiG-29 é baixo", disse o porta-voz do Pentágono.

Na quarta-feira, Blinken - que tinha dito no domingo que os EUA estavam a trabalhar com as autoridades polacas para transferir os aviões para a Ucrânia e "preencher" o restante efetivo com jatos dos EUA - disse que os EUA continuariam a consultar a Polónia e outros aliados da NATO sobre a forma de fornecimento de caças à Ucrânia.

"Acho que aquilo que estamos a ver é que a proposta da Polónia mostra que há algumas complexidades nesta questão, no que toca a fornecer sistemas de segurança. Temos de ter a certeza de que estamos a fazê-lo da forma correta", disse Blinken.

Há também alguns outros países com os jatos, como a Eslováquia, a Roménia e a Bulgária, e os representantes oficiais não descartam a hipótese de conversações com essas nações para tentar encontrar um caminho a seguir. Um representante disse que o pedido inicial da Ucrânia foi dirigido à Polónia e a esses três países, mas que a Polónia era o único país inicialmente disposto a aceitar uma possível transferência de jatos.

Os representantes oficiais veem aqui uma dupla problemática: existe o problema logístico de levar os jatos para a Ucrânia e o problema político de evitar a escalada com a Rússia. As autoridades dos EUA entendem que o plano polaco não aborda adequadamente ambos os problemas.

Frustrações entre representantes da Polónia e dos EUA

Os representantes polacos, por sua vez, disseram que se sentem injustamente culpabilizados pelo atraso no envio de caças para a Ucrânia, informaram  algumas fontes à CNN.

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, a 24 de fevereiro, os representantes polacos disseram aos seus homólogos americanos que estariam dispostos a disponibilizar à Ucrânia os seus jatos MiG-29. Mas dada a possibilidade de intensificação da agressão russa, os polacos disseram aos EUA que precisariam de jatos de substituição.

Os Estados Unidos disseram que nenhum deles estaria disponível até 2024, dado que várias nações, incluindo Taiwan, estavam à frente da Polónia à espera de aviões de combate de fabrico americana. Por isso, a Polónia sentiu que tinha de aguardar.

Mas a pressão pública sobre a Administração Biden para enviar os jatos aumentou consideravelmente, desde que Zelensky implorou aos legisladores dos Estados Unidos para facilitarem a transferência, durante videochamada por Zoom, no sábado de manhã.

Antes da videochamada, as autoridades dos EUA tinham minimizado as perspetivas de ajuda na transferência dos aviões MiG, que os pilotos ucranianos foram treinados para pilotar. As autoridades disseram que estavam concentradas noutras áreas de assistência à segurança, como o envio de mísseis antitanque e antiaéreos. Os desafios logísticos de levar as aeronaves para a Ucrânia pareciam ser um desafio impraticável, colocando-se em causa a eficácia dos aviões.

Mas o pedido de Zelensky na videochamada, que os legisladores descreveram como fervoroso, pareceu mudar todo o cálculo. Imediatamente após o fim da sessão, republicanos e democratas, incluindo o líder da maioria do Senado Chuck Schumer, demonstraram o seu apoio.

Um assessor do Senado, no entanto, argumentou que a Administração Biden estava um pouco à frente do Congresso, ao considerar a ideia de transferir os jatos. Embora a apresentação de Zelensky fosse convincente e houvesse amplo interesse em explorar todas as possibilidades, o assessor disse que não houve um esforço conjunto para que a Administração Biden apoiasse a transferência.

Mas as autoridades dos EUA disseram que o apoio público não deixou grande opção à Administração, senão apoiar publicamente a ideia, mesmo que alguns representantes estivessem céticos. Os EUA começaram então a anunciar publicamente que a decisão seria apenas da Polónia.

Blinken disse à CBS no domingo que os Estados Unidos tinham dado luz verde à Polónia para enviar os jatos, apesar de a Polónia deixar bem claro aos EUA que eles não seriam capazes de fazê-lo sem as devidas substituições.

Os comentários deixaram as autoridades polacas profundamente frustradas e - após dias de sentimentos injustos de culpa pelo atraso - o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia, na noite de terça-feira, fez um anúncio surpresa de que estariam dispostos a transferir os jatos para os EUA, através da Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, para os EUA enviarem diretamente para a Ucrânia. Os Estados Unidos rejeitaram prontamente a ideia.

Divisões dentro da administração

O representante do Texas Mike McCaul, o principal republicano na Comissão de Relações Externas da Câmara de Deputados, disse à CNN na quarta-feira, após uma reunião confidencial sobre a Ucrânia, que parecia haver uma divisão interna na Administração Biden entre funcionários do Pentágono e do Estado sobre como lidar com a proposta da Polónia.

"(O) secretário de Defesa tinha reservas sobre isso e desencadeando... o artigo 5.º ", disse McCaul. Quando perguntara, se era Blinken e o Secretário de Defesa Lloyd Austin que estavam divididos, McCaul disse: "Sim."

"Eu incentivei o secretário a fazer isso quando estávamos na Polónia, e ele concordou", disse McCaul.

A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse na quarta-feira que havia um "sério problema logístico", enquanto sublinhava que as discussões estão em andamento entre as autoridades de defesa e os respetivos homólogos ucranianos.

Um funcionário da Administração disse que a relação bilateral entre os dois países continua forte e que a assistência adicional de segurança dos EUA continuou a fluir para a Ucrânia via Polónia, inclusive no último dia.

O alto funcionário da Defesa disse na quarta-feira que a "maioria" da frota aérea ucraniana ainda está "intacta e operacional". Os ucranianos têm aviões de asa fixa disponíveis, disse este representante, relembrando que o espaço aéreo da Ucrânia continua a ser "contestado".

"O espaço aéreo é contestado", disse este funcionário. "E tal como eu disse ontem, os russos têm escudos antimíssil terra-ar que cobrem praticamente todo o país."

(Ellie Kaufman, Barbara Starr, Oren Liebermann e Jennifer Hansler da CNN contribuíram para este artigo)

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