Petróleo, gás, cereais e o medo da NATO: “A guerra está em ação apesar de não ter sido declarada"

20 fev, 22:45

Paulo Portas acredita que os acontecimentos na região separatista de Donbass vão ditar os próximos capítulos do confronto e lembra que “o único acordo possível é o nem/nem. Nem a Rússia invade a Ucrânia, nem a Ucrânia entrará na NATO”

“Neste momento, a guerra, embora não do ponto de vista formal ou declarado, está em ação", quem o diz é Paulo Portas. No Jornal das 8, o comentador da TVI explicou o que realmente está em causa na escalada de tensão na fronteira ucraniana e o que têm em comum os três países envolvidos: Rússia, Ucrânia e Bielorrússia.

“Não há boas alturas para fazer guerras, mas esta é provavelmente aquela em que Putin tem mais cartas na mão e a Europa tem mais vulnerabilidades”, evidencia Paulo Portas.

Paulo Portas começa por lembrar que desde 1999 registaram-se 14 novas entradas na NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

  • REPÚBLICA CHECA (1999)
  • HUNGRIA (1999)
  • POLÓNIA (1999)
  • BULGÁRIA (2004)
  • ESLOVÁQUIA (2004)
  • ESLOVÉNIA (2004)
  • ESTÓNIA (2004)
  • LETÓNIA (2004)
  • LITUÂNIA (2004)
  • ROMÉNIA (2004)
  • ALBÂNIA (2009)
  • CROÁCIA (2009)
  • MONTENEGRO (2017)
  • MACEDÓNIA DO NORTE (2020)

Só resta a Bielorrússia e a Ucrânia, que são agora o último "tampão" entre a NATO e o território russo e algo que é hoje por demais evidente: “Os russos não querem ter a NATO na sua imediata fronteira”, como diz Paulo Portas.

O comentador lembra que esta "semana começou com alguns sinais de distensão e terminou com muita deterioração”. O clima de instabilidade política e social é tal que na região separatista de Donbass (Donetsk e Lugansk), só na sexta-feira, o número de violações do cessar-fogo foi 1.666 e deste valor cerca de 1.400 foram explosões, de acordo com os dados da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa).

Como evitar uma guerra de aparente inevitabilidade?

Portas confessa que não arriscaria dizer quantos militares russos estão posicionados na fronteira com a Ucrânia, mas acredita que "são certamente mais de 130 mil militares neste momento”. Mas, como se para uma guerra que aparentemente já está em marcha?

O antigo ministro do Estado e da Defesa Nacional explica que “para evitar uma guerra é preciso que ambas as partes possam salvar a face", acrescentando, contudo, que acredita que "Putin já foi longe de mais para poder recuar sem concessões efetivas”.

“O único acordo possível é o nem/nem. Nem a Rússia invade a Ucrânia, nem a Ucrânia entrará na NATO”, sintetiza Paulo Portas.

Perante as notícias dos últimos dias, Paulo Portas alerta que o mundo está a "conviver certamente com a verdade e a mentira ao mesmo tempo” e lembra que a história da estratégia militar russa assenta em grande parte numa palavra: maskirovka (mascaramento, tradução literal), ou sejas, “medidas para enganar o inimigo quanto à presença de forças”, por definição.

As "formas de dissimular as forças e o dispositivo no terreno para criar uma perceção errada do adversário” passam por um conjunto de técnicas como: usar os uniformes do adversário, simular ataques à sua própria gente, utilizar técnicas de confusão para o outro lado não saber qual é a origem geográfica dos ataques. O comentador lembra que ninguém sabe, com 100% de certeza, o que se passa a cada momento na fronteira ucraniana.

“Sun Tzu também recomendava que se transformassem as fraquezas em forças quando vistas pelo adversário e há muitos exemplos na história desse uso da dissimulação”, lembra.

Donbass: o pretexto perfeito ou a presunção legal indispensável?

A região separatista de Donbass, constituída por Donetsk e Lugansk, é o foco de maior tensão neste momento. Paulo Portas lembra que a “guerra nestas duas províncias já provocou cerca de 14 mil mortos, dos quais 75% são militares, tanto do lado russo como do ucraniano”.

Esta semana o parlamento russo aprovou um decreto que permite a Putin reconhecer independência de Lugansk e Donetsk. O ex-responsável pela Defesa Nacional refere que “a partir do momento, que a Rússia reconheça estas duas repúblicas como independentes, elas podem pedir assistência militar e dotar a Rússia de uma presunção de legalidade numa eventual invasão, como aconteceu isso com a Crimeia”.

Por outro lado, "um tiro de canhão" despropositado entre as forças separatistas pró-russas e as tropas ucranianas pode servir de pretexto para que a guerra seja declarada, como explicou o próprio presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.

Consequências para Portugal em caso de guerra

A Rússia é o principal fornecedor de energia e cereais da Europa e, em caso de guerra, os efeitos colaterais vão espalhar-se por todo o velho continente, incluindo Portugal. 

“A Rússia não é apenas uma potência petrolífera, não é apenas o grande fornecedor de gás de uma grande parte da Europa, a Rússia é também um grande produtor de cereais e de carne", aponta.

Em caso de conflito, "ninguém pode estranhar que a inflação passe para cima dos 10% (nos EUA). O barril de petróleo pode chegar aos 120 dólares ou até 150 havendo sanções impostas à Rússia”, avisa Paulo Portas, que lembra que já houve um país a sofrer um corte parcial e unilateral do fornecimento russo.

“Houve um país que já sentiu o que é uma decisão unilateral da Rússia de parcialmente cortar o fornecimento de gás: foi a Itália. Em janeiro, passou a ter metade do fornecimento de gás tinha vindo da Rússia. Razão que levou Draghi a falar com Putin. Nunca deveria ter havido esta dependência de um só fornecedor”, explica.

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