O SOM E A FÚRIA

Passos está para a Geração X como Cavaco está para os “baby boomers”

Ter, 27 fev 2024

Olá. Este é uma newsletter sobre as eleições, para as eleições, até às eleições.

Passos Coelho surge em cena e parece que perde tudo a cabeça. O PSD chama-lhe um filho, o Chega chama-lhe um figo, o PCP vê o Diabo, o PS espanta-espíritos, as TV abrem os jornais, os jornais abrem as páginas, ele é uma espécie de arma em movimento – secreta para os que exultam, de arremesso para os que insultam, Passos Coelho entrou na campanha só para jantar e dizer “eu estive aqui, Luís”, foi o tempo de uma raspadinha, mas para o PS é como um luar de lobisomem, é para cegar de desdém durante dois dias com o seu monstro preferido.

Para o PS, Passos Coelho é um jovem Cavaco Silva: não lhe interessa o que diz, interessa se diz. E se diz, não é para ouvir, é para apoucar; ensurdecem à voz dele e querem ensurdecer os outros com a deles. Não se pode ouvi-lo, portanto. Vê-lo, nem pintado.

Depois de ter primeiro garantido que “votar AD é votar Ventura”, o que perdeu o zénite nos debates, o PS reencontra-se no “votar AD é votar Passos”, o que muitos PSD até lamentam não ser verdade. Mas é falta de imaginação de Pedro Nuno Santos: bastar-lhe-ia dizer a verdade, que “votar PSD é votar Montenegro”, porque o líder da AD segue assim-assim em modo de bacalhau basta. E o que Passos ontem mostrou a Luís Montenegro não foi só um módico de apoio, foi também como fazer um bom discurso eleitoral.

Foi bom porque foi certeiro, na crítica ao PS pelos governos que, para permanecerem, pouco fizeram, deixando cofres cheios e estratégias vazias, despojoadas de reformas e de investimento, com um crescimento medíocre e áreas sociais a esgaçar as fardas públicas; o governo que se portou como “o dono do próprio Estado" e que usou o “o oportunismo político” de dar “qualquer coisinha” de dinheiro mas não de futuro.

Mais não o cito, cito-me a mim: quando há quase ano e meio escrevi que o “governo não sabe o que fazer ao dinheiro” e portanto entregava subsídios atrás de subsídios, no que representava “a demissão de ter política económica”, porque “dar dinheiro é mesmo só dar dinheiro. Não é uma escolha política, não é uma opção estratégica, não é basicamente nada a não ser passar cheques”.

Citar-me é só uma maneira de dizer que, quanto a isto, concordo com Passos Coelho.

E desconfio que o Pedro Nuno Santos que quer “mais ação e menos conversa”, que quer “deixar de arrastar os pés” e que sabe que “a melhor forma de alguém se aguentar no governo é não fazer nada”, também concorda com uma boa parte. Nunca o dirá. Dirá apenas, no meio da arengada autorizada, que Passos não deu propriamente um fortíssimo apoio a Luís Montenegro. Pois não, pelo contrário: “O resultado natural destas eleições é a vitória da AD. É a coisa mais natural do mundo”. É como quem diz: ó Luís, esta corrida até um perneta ganha, põe-te fino.

Mas Luís Montenegro está a empastelar. Ontem, no debate das rádios, voltou a falar muito e dizer pouco. O líder da AD está claramente a fazer uma campanha estratégica, arriscando uma em cada cem vezes, e nem se pode dizer que lhe esteja a correr mal. Arriscou quando foi aos Açores por-se ao lado de quem podia perder e ganhou. Arriscou quando ao primeiro minuto de debate com Ventura se demarcou dele. Mas pelo meio sobram longo dias de bocejo. A estratégia é óbvia: a melhor maneira de não pisar minas é não correr pelo terreno; e para parecer sério e credível entre um candidato que grita outro que provoca, o melhor é falar baixo. Mas quantos mais dias aguentará ele tão seráfico?

Achar que se convence um eleitorado calado é como confundir a hora da mudança com a mudança da hora. A Luís Montenegro, o ex-líder Pedro Passos Coelho é o contrário do Melhoral, tanto faz bem como faz mal. Mas ontem ele fez o melhor discurso desta campanha: quem desperdiça uma maioria absoluta não merece ganhar eleições. E isto é eficaz.

Pedro Passos Coelho está para a Geração X dos quarentões e cinquentões como Cavaco Silva está para os “baby boomers” reformados e pensionitas: uns amam, outros detestam – e qualquer entrada em cena é sempre um alarido. Claro que as gerações Y e Z provavelmente não lhes ligam pevide. Afinal, são elas que emigram mais, que votam menos – e que, a julgar pelas sondagens, mais estão a abandonar o centro. E a extrema-direita sorri.

 

 

Já agora, quem ganharia na Geração Z?

Se apenas eleitores com menos de 34 anos (ou seja, nascidos depois de 1990) votassem, o favorito seria o Chega. É pelo menos isso que indicava a sondagem da Duplimetris/IPESPE publicada na semana passada, e que, no geral, dava a AD à frente do PS e do Chega.

A mesma sondagem analisava também as intenções de voto por idades. E em três classes etárias diferentes o favoritismo pendia para três partidos diferentes. Ora veja (sem distribuição de indecisos):

 

Dos 18 aos 34 anos. Chega 25%, AD 19%, IL 11%, PS 10%, BE 7%, Livre 3%, PAN 2%, CDU 1%. Outros, brancos e nulos 5%. Indecisos 13%.

Dos 35 aos 54 anos. AD 22%, Chega 18%, PS 15%, IL 8%, BE 3%, Livre 2%, PAN 2%, CDU 1%. Outros, brancos e nulos 4%; Indecisos 20%

Dos 55 anos ou mais.: PS 32%, AD 28%, Chega 9%, BE 2%, Livre 2%, IL 1%, CDU 1%, PAN 1%, Aliança 1%. Outros, brancos e nulos 5%; Indecisos 10%

 

Daqui também se retira que são os mais velhos os que estarão menos indecisos. E os 35 aos 54 anos que estarão mais.

 

A ficha técnica desta sondagem realizada pela Duplimétrica/ IPESPE, em entrevistas aleatórias por cotas realizadas entre 10 e 20 de fevereiro de 2024, com recolha de 800 entrevistas representativas do eleitorado recenseado de Portugal, e margem de erro máxima de 3,5% para um grau de confiança de 95,45%, pode ser lida na íntegra aqui.

 

E já agora, de Geração X

“Depois de estares morto e enterrado, e a flutuares seja em qual for o lugar para onde vamos, qual vai ser a tua melhor memória da Terra? Que momento único define para ti o que é estar vivo neste planeta? O que levas daqui? Experiências yuppies falsas em que tiveste de gastar dinheiro, como rafting ou passeios de elefante na Tailândia, não contam. Quero ouvir um pequeno momento da tua vida que prove que estás realmente vivo".

Excerto do livro “Geração X: Contos Para Uma Cultura Acelerada”, de Douglas Coupland (1991).

 

Onde é que eu já ouvi isto? 

É hora de mudar de política”. Cartaz do PCP (Paulo Raimundo), 2024

É hora de mudança”. Cartaz do PSD (Luís Montenegro), 2024

Está na hora do país mudar de vida”. Cartaz da IL (João Cotrim de Figueiredo), 2021

Está na hora de mudar”, Cartaz do PSD (Passos Coelho), 2011

Hora de devolver”. Cartaz do BE (Francisco Louçã), 2010

 

É a Hora!”. Excerto de “Nevoeiro, in “Mensagem” (Fernando Pessoa), 1934             

 

Nove anos separam estas fotografias

À esquerda, Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho em março de 2015, no final do governo quando um era líder da bancada parlamentar e o outro primeiro-ministro. Meses depois, Passos ganharia as eleições mas não conseguiria formar governo, que seria ocupado pela primeira “geringonça”. À direta, Passos Coelho e Luís Montenegro ontem no Algarve, numa ação de campanha eleitoral. As duas fotos são da Agência Lusa, sendo a última do fotógrafo Tiago Petinga.  

 

E por hoje não é tudo

Continuaremos a acompanhar intensamente a campanha eleitoral. Vemo-nos a qualquer hora no canal 7 da sua televisão, a qualquer minuto no nosso site e por aqui amanhã de manhã.

Tenha um dia bom.

 

 

O SOM E A FÚRIA

Newsletter diária de Pedro Santos Guerreiro sobre a campanha eleitoral das legislativas de 2024