“Ataques” de orcas no mar: há “medo” de ir de férias e alguns barcos andam com “petardos” a bordo

16 jul 2023, 08:00
Orca

Nos últimos anos os ataques das orcas na costa portuguesa e espanhola tem assustado os velejadores portugueses e não só. Em junho já foi registado um ataque na costa escocesa. Em tempo de férias muitos assumem ter medo, por ser “um problema gravíssimo, com potencial perigo de perda de vidas humanas”. Na costa portuguesa, em 2023, já se contabilizaram 30 incidentes

César Pratas faz parte da direção do Clube Naval de Sesimbra e tem muitos anos de experiência como velejador. O aumento de “ataques” de orcas a veleiros, porque é assim que os chama, nos últimos anos, levou-o a criar uma página de Facebook - Orca Atack Iberia - onde reúne informação sobre o assunto e publica avisos. Garante que os velejadores portugueses “têm medo” de ir para o mar e uma grande parte já leva petardos nos barcos para tentar afastar os animais. Há mesmo quem esteja a planear “férias em grupo” por uma questão de segurança. “Isto é um problema gravíssimo, com potencial perigo de perdade vidas humanas”, alerta, lamentando que se tenha adotado “uma postura de guerra contra a náutica”.

Os incidentes com orcas estão a preocupar os velejadores, mas também as autoridades, que até ao momento não conseguem explicar de forma objetiva este comportamento. Nos últimos três anos os “ataques” mais que triplicaram nas Costa Ibérica (Portugal e Espanha). Em 2020 foram identificados 52; em 2021 foram registados 197 e, em 2022, contabilizaram-se 207. Dos 456 incidentes, 142 foram na costa portuguesa, onde infelizmente duas embarcações já naufragaram.

Em 2023 (até dia 14 de julho), contabilizam-se 101 interações, sendo que 30 aconteceram na costa portuguesa. Junho foi o mês com mais incidentes na costa nacional: 15 ao todo. 

Quem ruma ao mar mediterrâneo e ao Oceano Pacífico não tem como fugir à rota da costa ibérica. Com o Verão à porta, quem tem barco quer ir de férias, mas tem medo. “Os velejadores têm-se organizado entre eles. Por exemplo, há pessoas que estão a organizar grupos para ir de férias e fazem isto por medo”, explica César Pratas à CNN Portugal. E assume que também ele tem “receio de ir de férias”.

Mas além de companhia, para se protegerem, muitos levam ainda petardos. “Neste momento, as pessoas que utilizaram petardos conseguiram que as orcas se afastassem do barco. Até ao momento, os petardos parecem estar a funcionar”, afirma o velejador. Que não esconde que “a maior parte dos velejadores que têm barcos para andar no mar, aqui na zona compreendida entre Lisboa, Sesimbra, Setúbal, Sines e Troia, têm petardos a bordo”. Os petardos são atirados à água e é o barulho que parece afastar as orcas.

Um facto que tem levado ao surgimento de “ameaças físicas” violentas em alguns sites de Facebook por parte de “indivíduos que são pró-animais”. 

Mesmo assim, admite que não lhe parece “uma garantia completa” e justifica: “Eu próprio tenho medo de que as orcas se assustem de tal maneira que invistam contra o barco com mais violência. Não obstante, será a defesa que eu vou utilizar porque não tenho mais nenhuma”, desabafa. 

Na verdade, recentemente, já durante o mês de junho foi registado o primeiro incidente com orcas na costa escocesa, ao largo de Shetland. César Pratas soube do ataque e duvida que tenham sido orcas ibéricas: “Penso que não, porque não dava tempo para elas irem para onde foram. Eu acho que isto é um comportamento que se espalha. Haverá algumas orcas destas, mais a norte, que vêm passear cá abaixo e aprendem comportamentos. Depois voltam para os sítios delas”.

Conor Ryan, conselheiro científico do Hebridean Whale and Dolphin Trust, que acompanha e estuda os grupos de orcas na Escócia, considerou em declarações ao jornal britânico The Guardian: “Que se sente relutante em dizer que este comportamento não possa ser aprendido com a população do sul. E que é possível que a ‘moda’ esteja a ser transmitida entre comunidades”.

“É tirar a náutica de recreio do caminho das orcas”

Ainda esta semana Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) proibiu as embarcações marítimo-turísticas de se aproximarem ativamente de grupos de orcas, de forma a evitar consequências graves. E em Espanha, em maio, foi interditada uma zona: “A zona em frente a Barbate, sensivelmente, foi definido uma figura parecida com um triângulo, entre determinada a latitude e longitude, onde foi proibida a navegação”. 

Decisões que para César Pratas não protege quem anda no mar. “Os biólogos neste momento adotaram uma postura de guerra contra a náutica. Independentemente de qualquer estudo, neste momento, a postura deles é uma postura completamente bélica e belicista. É tirar a náutica de recreio do caminho das orcas”.

E é exatamente entre o estreito de Gibraltar e Cádiz, onde há mais incidentes, que Espanha impôs a proibição. Mas isso não afasta os problemas da costa nacional. “Na nossa costa tem havido incidentes” que incluem “naufrágios”. “Isto é de facto um problema gravíssimo, com potencial perigo de perda de vidas humanas e de bens materiais, sendo que os bens materiais estão obviamente em segundo plano”.

Apesar da falta de respostas científicas para este comportamento e das muitas teorias que circulam, César Pratas não tem medo de assumir que o considera um “ataque”. E faz uma comparação: “Eu comparo o ataque da orca a andar na rua e vir um cão, sem trela, danado e morder-me. É a mesma coisa, eu considero um ataque”.

E o que fazem as orcas? “Elas abalroam o barco e mordem o leme. Há quem diga que elas só se encostam no leme. Mas não. Elas abalroam o barco e encostam-se ao barco, dão cabeçadas no barco e mordem o leme. Há lemes com dentadas de orcas”.

Este ano, já várias embarcações foram obrigadas a parar em Sesimbra devido a danos após encontros com orcas. “No Clube Naval de Sesimbra, nós notamos que temos tido paragens de pessoas que foram atacadas pelas orcas, com lemes partidos. Foram já quatro ou cinco. E esta não é uma zona muito típica de paragem porque nós não temos espaço na marina.  Não há lugares em Sesimbra. Andamos a tentar construir uma marina nova e não conseguimos”.

“Eu não acho que seja propriamente uma brincadeira. Há várias teorias sobre o comportamento das orcas”; afirma à CNN Portugal explicando algumas das muitas que já ouviu: “Há teorias que dizem que têm a ver com a cor do fundo dos barcos, portanto cores pretas e mais escuras são mais propensas ao ataque. Há a teoria de que é uma brincadeira. Eu não sei, e também não ponho de parte, mas o pergunto ‘é porquê’? Se é brincadeira, porquê ter começado agora?”.

Uma orca chamada Gladys

Os “ataques” tiveram início em 2020, mas muito antes as orcas já andavam na costa ibérica. “Entre princípio de setembro e fim de outubro, eu sempre vi orcas em Sesimbra. Elas andavam por lá, mas vi-as à distância. Andavam ali, de um lado para o outro, porque a água está mais quente nessa altura e andam atrás da comida”. Elas perseguem os cardumes de atum.

Ressalvando que não tem formação na área, assume que sua opinião sobre os incidentes “segue a teoria da vingança”. E é a vingança de “Gladys”. “Era a identificação que era dada a um grupo, a uma família de orcas. Onde várias partilham o mesmo nome. Tem uma mãe, que é a tal Gladys e parece que ela tem uma marca no corpo que pode ter sido de uma hélice ou de outra coisa qualquer”.

“Eu acho que o primeiro comportamento é vingativo e a seguir há o ensinamento. Os animais aprendem pelo exemplo e, provavelmente, o que aconteceu foi isso”, acrescenta. 

A comunidade Gladys terá cerca de 15 animais, com uma fêmea adulta que se chama White Gladys. Este grupo tem surgido como estando ligado a vários incidentes. Todos os animais partilham o nome Gladys, como por exemplo: Grey Gladys, Black Gladys ou Small Gladys.

Na verdade, alguns especialistas admitem que há uma possibilidade deste comportamento ser um ressentimento, mas por enquanto não excluem outras possibilidades.

Em declarações ao jornal britânico The Guardian, Alfredo López Fernandez, do GTOA - grupo que reúne especialistas portugueses e espanhóis e que estudam a orca atlântica – admite duas hipóteses: “As orcas inventaram um comportamento novo e repetem-no. Um comportamento que encaixa no perfil das orcas juvenis” ou é “uma resposta a uma situação adversa, em que um ou mais animais viveram uma experiência traumática e estão a tentar parar o barco para que a experiência não se repita. Um comportamento que coincide com perfil dos animais adultos”.

O que devem fazer os velejadores?

Os primeiros protocolos das autoridades oficiais pediam aos velejadores para recolherem as velas, desligarem os motores e não mexerem no leme, mas quem fez isso “continuou a ser atacado”, garante César Pratas. Agora, o motor já deve ficar ligado. 

Segundo o Instituto Conservação da Natureza e Florestas “nos casos em que as orcas se tentem aproximar das embarcações, estas devem se afastar de modo a evitar situações de possíveis interações”. Ou quando “as orcas se aproximem das embarcações sem que a tripulação se aperceba a embarcação deverá ser imediatamente parada (se as condições do mar e de segurança o permitirem) deixando, no entanto, o motor em funcionamento, e o comportamento dos animais deverá ser continuamente vigiado pela tripulação. Só quando as orcas se afastarem poderá ser retomada a navegação”.

Já César Pratas, com base na experiência de outros velejadores, acha que também se pode tentar “engatar o barco a ré, ou seja, arriar as velas o mais rapidamente possível, ligar o motor e começar a andar a ré, ou seja, para trás”. Porquê? “Porque o leme está atrás da hélice”. 

“Na propulsão para a frente, a orca facilmente ataca o leme sem ter qualquer perigo, sem se magoar na hélice. Se estivermos a andar para trás, a orca não consegue andar para trás e, portanto, tem de se virar ao contrário para ir atacar o leme”, explica.

Pescadores também sofrem ataques, mas não dizem nada

Grande parte dos incidentes reportados são de veleiros particulares, embarcações de recreio. Quase como se os barcos dos pescadores fossem poupados. Mas a realidade pode não ser assim. “Estando ligado à marina de Sesimbra ouço muita coisa. Na doca houve-se muita coisa. Portanto, aquilo que se diz é que os pescadores também são alvos destes ataques, mas que por uma questão legislativa muitas vezes não dizem nada”. 

E o motivo é simples: “Os pescadores quando são atacados, quando os barcos têm algum tipo de dano, são sujeitos a uma vistoria. E uma vistoria implica tempo fora de água. Tempo fora de água implica não trabalhar e implica não ter dinheiro. A maior parte não faz nada, nem diz nada”. E se isto for verdade, os números oficias de incidentes podem não corresponder ao que se está efetivamente a acontecer.

“Há um semáforo vermelho, amarelo ou verde diante os relatos”

Nem sempre é possível saber onde as orcas estão, mas segundo César Pratas, neste momento, “tendo em conta os ataques que tem havido, parece que há um grupo ou subgrupo dessa família que já se está a dirigir para norte", diz,. “Houve um ataque em frente a Vila Nova de Milfontes, em frente a Zambujeira, em frente a Sines, e já foram vistas também ali na zona compreendida entre o Cabo Espichel e Sines”. 

Fonte oficial da Marinha confirmou à CNN Portugal que não tem dados oficiais sobre o número de incidentes porque só registam “quando há apoio ou socorro às tripulações” e “muitas vezes há interações, mas não há estragos”. É o Instituto de Conservação da Natureza e Floresta que compila toda a informação.

E como as orcas “seguem normalmente a rota do atum, umas vezes estão para norte, para a Galiza, outras para baixo, para sul. "É com base nos relatos que chegam que sabemos - mais ou menos - em que zona é que elas andam. Nem têm um padrão muito fixo de comportamento”, acrescenta a fonte.

Todavia, atualmente existe “uma espécie de semáforo. Com base nestes relatos, há um semáforo vermelho, amarelo ou verde. Ou seja, o navegador pode olhar para esse semáforo e tentar perceber qual é a probabilidade de haver ataques. Imagine-se, por exemplo, que houve ataques na zona da Galiza, então é colocada lá o sinal vermelho”, conclui.

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