Fiz tantos jogos quanto o Carraça e menos do que o Nanu: consegues adivinhar quem sou?

4 ago 2023, 08:10
Tomás Esteves (Foto: FC Porto)

«Quem é que defende?», o espaço de opinião de Sofia Oliveira no Maisfutebol

Naquela tarde, em Nyon, venderam-se sonhos ao preço da chuva. Levar com o carimbo de primeiros, de um clube português a vencer a Youth League, era, para os miúdos, um visto em direcção ao paraíso. Foram ovacionados e condecorados. Sem que se apercebessem, também foram usados. «Fala-se muito de outros clubes da capital, ignora-se completamente a formação do FC Porto, mas a resposta está aqui», disse Jorge Nuno Pinto da Costa acerca do feito, esquecendo-se de que a competência da formação não se mede pelo número de troféus conquistados, tal como explica, aliás, a gestão de carreira de um dos mais talentosos jogadores daquela equipa, a gestão de carreira de Tomás Esteves.

Havia um paradoxo óbvio entre o perfil do Tomás e o perfil que Sérgio Conceição, já treinador da equipa principal do FC Porto, privilegiava para as laterais. Apesar de Tomás garantir largura e profundidade ao corredor direito, sempre se destacou pelas soluções que também oferecia em terrenos interiores, algo pouco apreciado pelo técnico. No último terço ofensivo, o cruzamento não era o primeiro e o último objectivo do Tomás, que procurava envolver-se com os colegas de forma a ganhar vantagens que aumentassem a probabilidade de sucesso antes de servir zonas de finalização. Para alguém como Sérgio Conceição, que tem no ganho da segunda bola um dos pontos fortes do seu modelo, Tomás Esteves era pouco ligado à corrente, apresentava pausa, variabilidade e critério a mais para um modelo tão fechado. E Sérgio Conceição estava no direito de não querer abri-lo.

Na época que se seguiu à conquista da Youth League, ou seja, em 2019/20, o troféu que Jorge Nuno Pinto da Costa tanto bajulara não se revelou suficiente para garantir um lugar ao Tomás, até porque já havia sido encontrado o substituto de Maxi Pereira: Wilson Manafá. Proveniente do Portimonense por 7M€, o lateral-direito ganhara algum estatuto na temporada transacta, preparando-se, naquela, para segurar a titularidade. Como se já não bastasse ao Tomás ter de competir com o predestinado Manafá, também da Argentina chegara Renzo Saravia, pelo valor de 5,50M€.

Aos 18 anos, Tomás Esteves afundou para terceira opção, daí os parcos 119 minutos pela equipa principal. A superioridade qualitativa do Tomás face a Manafá era evidente, mas, no futebol, o perfil certo é maior do que a soma das partes. Antes de dar por terminada a descrição da produtiva época de 2019/20, convém lembrar que o sector defensivo da equipa B estava mais atulhado de “jogadores” do que o Urban Beach costuma estar de crianças, o que resultou nuns brilhantes 757 minutos para Tomás Esteves na II Liga e em 260 pelos juniores, somente para voltar a disputar a Youth League. Foi um ano em cheio, Jorge Nuno. Bendito seja o troféu ganho em Nyon, que apesar de ter ficado a ganhar pó na secretária, ao menos deu para mandar aquela inteligente bicada aos rivais.

O percurso do Tomás no FC Porto conta-se pelas cerimónias em que participou e não pelas oportunidades que lhe deram dentro de campo, típico de quem é utilizado como trunfo político. Depois da cerimónia de homenagem pós-conquista da Youth League, chegava a cerimónia de celebração de um novo vínculo de contrato com o FC Porto. A 5 de Junho de 2020, o Tomás renovou até 2024 e, para manter a incoerência, Jorge Nuno Pinto da Costa voltou aos discursos: «Vi muita gente a pedir para renovarmos com ele, mas não foi por isso que renovou [lá agora!]. Renovou porque o treinador me transmitiu que tem muita esperança nele e que ele tem muita qualidade e um potencial enorme”. Claro, por isso é que, quatro meses após tão belas palavras e uns ainda mais belos zero minutos na equipa principal, o Tomás foi emprestado ao Reading.

No seu lugar, manteve-se o deslumbrante Wilson Manafá, dono de atributos técnico-tácticos admiráveis. Uma vez que o indiscutível Manafá, naturalmente, precisava de descansar a sua mestria, o FC Porto lembrou-se de recrutar dois rapazes para lhe limparem as botas. Carraça veio do Boavista a custo zero e Nanu veio do Marítimo por valores que rondaram os 2M€. Agora, sim, havia profundidade na lateral-direita: Manafá, Nanu e Carraça. O talento era tanto que foi nessa temporada que João Mário, extremo de raiz, começou a ser adaptado a lateral daquele lado. Contudo, ninguém pode roubar os 117 minutos que Carraça fez na equipa principal do FC Porto, menos dois do que o Tomás havia feito na época anterior.

Seguiu-se 2021/22, com uma paragem de 251 dias para Wilson Manafá (rotura do tendão rotuliano, em Dezembro de 2021). Tomás Esteves, regressado de Inglaterra, guardara as palavras de Pinto da Costa - «(…) renovou porque o treinador me transmitiu que tem muita esperança nele (…)» -, mantendo viva a possibilidade de, finalmente, acrescentar minutos aos 119 de 2019/20. Descolar de Carraça no ranking de minutos de utilização na equipa principal e, na loucura, ultrapassar o número de jogos de Nanu (19) eram dois dos seus maiores objectivos, mas o tempo demonstrou-lhe que sonhava demasiado alto e que, mesmo com o empréstimo de Nanu ao FC Dallas, esperavam-lhe mais 1117 minutos na equipa B, assim como duas lesões no tornozelo (a primeira a 10 de Setembro de 2021 e a segunda a 15 de Fevereiro de 2022) que o obrigaram a uma paragem de 183 dias.

Porventura, será mais divertido imaginar que, sem as lesões, o Tomás teria sido opção para Sérgio Conceição, uma realidade paralela que é bem capaz de esbarrar no facto de o Tomás ter ficado fora da apresentação oficial da equipa, no dia 31 de Julho de 2021. Presentes estiveram Carraça, emprestado ao B SAD 24 dias depois, e Nanu, emprestado ao FC Dallas 10 dias depois. Bendito seja o troféu ganho em Nyon.

Por conta da visita do Papa Francisco a Portugal, estava preparado um discurso sobre os zero clubes da Primeira Liga portuguesa interessados num empréstimo do Tomás em 2022/23. Ao que parece, nem o Papa se achou suficientemente eloquente para explicar que somente o Pisa, clube da Série B italiana, mostrou a intenção de contar com o Tomás. O empréstimo fez-se em torno de uma cláusula obrigatória de compra que permitia ao emblema, em caso de subida à Série A, ficar com o jogador por 5,5M€. Por esta altura, sabia-se, pela boca de Jorge Nuno Pinto da Costa, que a cláusula de rescisão havia subido dos 10M€ para os 40M€ aquando da produtiva renovação, em Junho de 2020. «Renovámos, tem uma cláusula de 10 milhões, passou a cláusula para 40. Eu não quero que ele saia, mas se chegar alguém que bata a cláusula… não podemos fazer nada», revelou o presidente do FC Porto no dia 8 de Junho de 2020, em entrevista ao Porto Canal.

Daí até ao empréstimo ao Pisa - o segundo consecutivo -, o Tomás não voltou a vestir a camisola da equipa principal do FC Porto. Assinou meia dúzia de papéis, prometeram-lhe “o mítico 2”, que foi a expressão utilizada na notícia lançada no site oficial do clube, e despacharam-no como carne para canhão sem que sequer houvesse uma tentativa de enquadramento num cenário competitivo propício ao seu desenvolvimento individual. Enquanto isso, Rodrigo Conceição cumpriu 25 jogos na equipa principal. Bendito seja o troféu ganho em Nyon.

O Pisa não subiu à Série A, a cláusula obrigatória de compra não foi activada e o Tomás, ontem, foi vendido pelo FC Porto ao Pisa por cerca de 1M€. Recordo que a cláusula do FC Porto estava fixada nos 40M€ e que o Tomás tinha um contrato válido até 2024.

Para a história fica a gestão danosa da carreira de um jovem com um potencial tremendo.

«Quem é que defende?», o espaço de opinião de Sofia Oliveira no Maisfutebol

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