Rogério Samora: enérgico, excessivo, generoso e "um talento singular"

15 dez 2021, 17:47

Os realizadores João Mário Grilo e Fernando Vendrell contam como foi trabalhar com o ator. Rogério Samora morreu esta quarta-feira, com 62 anos, mas ainda iremos vê-lo em dois filmes no cinema, no próximo ano

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"O ser humano tem necessidade de ser reconhecido publicamente. É uma forma de poder. Ter dinheiro e ser conhecido é uma forma de poder. E os miúdos pensam que ser ator é uma profissão fácil, ganha-se dinheiro depressa e é-se reconhecido rapidamente. Esquecem-se que se vive pouco. Trabalha-se muito, morre-se cedo", dizia Rogério Samora em entrevista publicada em 2000, no DNA, suplemento do Diário de Notícias.

Mais à frente, referindo-se à morte da avó, a pessoa de quem foi mais próximo, declarava: "Tenho uma relação muito especial com a morte": "Isto se calhar é um bocado cruel, mas eu já resolvi a morte na minha cabeça. Aceito-a. Todos nós temos de ter consciência que vamos morrer. Os nossos amigos morrem. Os nossos familiares morrem. O pai e a mãe morrem. Eu aceito a morte como uma parte da vida".

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Vinte anos depois, o ator de 62 anos confrontou-se com a sua morte. Sofreu uma paragem cardiorrespiratória durante as gravações de uma novela a 20 de julho, esteve 147 dias em coma e morreu esta quarta-feira.

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Rogério Samora nasceu na Amadora e cresceu em Lisboa. A primeira vez que pisou um palco foi na Voz do Operário, tinha cinco anos, fazia de marinheiro e dançava. Com a avó Rosalina foi muitas vezes ao cinema (até para ver filmes que não eram para a sua idade) e ao teatro, viu revistas no Parque Mayer e deu largas aos sonhos na Feira Popular. Entrou para o Conservatório mas não concluiu o curso porque não conseguia conciliar os estudos com o trabalho numa loja de eletrodomésticos. 

Na juventude foi "rebelde e às vezes parvo", como, de resto, quase todos os jovens. Casou aos 19 anos, esteve casado por 13 anos. Não teve filhos. Era, nas suas palavras, um "enfant terrible et seule. Gostava muito de estar sozinho. A controlar, à distância. E tinha muitas namoradas ao mesmo tempo".

Estreou-se profissionalmente como ator na Casa da Comédia, no espetáculo "A Paixão Segundo Pier Paolo Pasolini", dirigido por Filipe La Féria, com o qual recebeu o Prémio de Ator Revelação da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, em 1981. Ficou ali cinco anos a aprender o que tinha que aprender sobre teatro: "Fiz de tudo. Deitei abaixo paredes, pintei paredes, fiz assistência de encenação, assistência de produção, vendi copos, vendi bilhetes, arrumei pessoas. A vida não deve ser fácil. Tem que ser difícil. Sabe-nos melhor quando a vida tem contrariedades", dizia ao DNA.

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Rogério Samora começou a partir corações quando apareceu na televisão, em 1982, em "Vila Faia". Tinha 24 anos, o cabelo muito escuro, um rosto sério que podia abrir-se num grande sorriso ou só num meio-sorriso malandro. Era um sedutor, dentro e fora do ecrã. Tinha uma voz grave e uma maneira envolvente de falar que não deixava ninguém indiferente. Sentávamo-nos a conversar com ele sobre personagens e filmes e quando dávamos por nós estávamos a falar de comida, de viagens, da vida.

Ainda vamos ver Rogério Samora no cinema

Fernando Vendrell, que foi colega de Rogério Samora no Conservatório, guarda do amigo a imagem de uma pessoa "muito viváz, energética eloquente". "A personagem do ator Rogério Samora era esta pessoa excessiva e desmedida, um bocadinho brutal até, com um espírito loquaz e muito generoso", diz à CNN Portugal o realizador que o dirigiu em "Noites Brancas", filme que se encontra agora em pós-produção e que deverá estrear no outono de 2022.

"Noites Brancas" é um filme sobre o escritor José Cardoso Pires. Samora aparece numa única cena, interpretando o papel de Artur Semedo. "Não havia muitos atores que pudessem relembrar este icónico ator e realizador, o Rogério tinha trabalhado com ele e aceitou, com grande generosidade, fazer esta participação, numa pequena cena que se passa no bar Procópio, com as personagens de José Cardoso Pires e António Lobo Antunes", conta Fernando Vendrell. Com chapéu, bigode e a luva preta de Artur Semedo, Rogério Samora está "quase irreconhecível". E foi ele que, sabendo da paixão de Artur Semedo pelo Benfica, trouxe o seu pin pessoal do clube "para contribuir para a caracterização da personagem, foi um pormenor muito tocante".

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Além deste, ainda o veremos em "Amadeo", outro filme biográfico, realizado por Vicente Alves de Ó. No filme, que deverá chegar aos cinemas também no próximo ano, Rogério Samora interpreta a personagem do pai do artista Amadeo de Sousa Cardoso.

"As personagens eram engolidas pelo corpo dele"

Sobre ser ator, Rogério Samora dizia: "É uma busca, é uma procura, é uma motivação. É trabalhar com emoções, com sentimentos, é mentir é iludir. É reivindicar, revolucionar, influenciar imitar... É trabalho, trabalho, trabalho."

O realizador João Mário Grilo, que o dirigiu em "Longe da Vista" (1998) e "A Falha" (2000) recorda à CNN Portugal como foi trabalhar com ele: "Apesar de não ser protagonista, o Rogério interpretou personagens que eram um pouco âncoras, uma espécie de projeção minha nesses filmes. Nós tínhamos a mesma idade e havia entre nós uma grande cumplicidade, uma solidariedade anímica", conta João Mário Grilo. "Havia uma relação de confiança muito grande e eu deixava-o, muitas vezes, criar à sua vontade, sobretudo nos momentos em que ele estava sozinho em cena"

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Recorda-o como um ator "muito plástico": "Ele nunca foi igual, foi sempre evoluindo. Não era um ator de escola, era um ator muito marcado pela sua vida, criava as personagens a partir da sua experiência e isso tornava-o único", conta o realizador.

João Mario Grilo compara-o, por exemplo, ao ator norte-americano John Wayne ou ao português José Viana. "Não nos lembramos das personagens, lembramo-nos deles. São atores muito físicos. O Rogério tinha aquela voz, o sorriso, a maneira como se movia. As personagens eram engolidas pelo corpo dele. Era um talento singular."

São  estes, diz o realizador, "atores de cinema", na verdadeira concepção da palavra. "Gostava de ter tido mais oportunidades para trabalhar com ele, mas era muito complicado, ele tinha um calendário muito preenchido".

Na entrevista de 2000, Rogério Samora falava à jornalista Sónia Morais Santos das suas inseguranças, do "medo de não ser capaz", do medo da crítica que o impediu de tentar encenar. Mas admitia que o trabalho era responsável por grande parte da sua felicidade: "Mas é bom viver assim", dizia. "O meu trabalho dá-me tanto que compensa todas essas coisas que eu perco. (...) Nunca sacrificaria o meu trabalho por nada. Nem por filhos nem por amor. O meu trabalho dá-me tudo o que preciso. Isso pode parecer utópico, irrealista, mas digo-te com a maior das sinceridades: o meu trabalho dá-me tudo o que preciso".

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Uma vénia para Manoel de Oliveira

Fernando Vendrell, que foi assistente de realização em "Os Canibais", conta à CNN Portugal como aconteceu o encontro entre o então jovem ator e o realizador Manoel de Oliveira: "O Manoel de Oliveira lembrava-se que em "Le Soulier de Satin" ("O Sapato de Cetim", 1985) havia um ator português que tinha feito uma vénia muito elegante com um chapéu de abas, mas não sabia dizer quem era. O "Soulier" tinha levado mais de quatro meses a filmar e tinha uns 300 atores, havia imensas vénias, era quase impossível descobrir a quem é que ele se estava a referir. Mas, depois de algumas conversas, a anotadora do Oliveira lá se lembrou que podia ser o Rogério, chamou-o e foi assim que ele entrou em "Os Canibais" (1988)", recorda.

A colaboração não iria ficar por aqui. Rogério Samora entrou em "A Caixa" (1994), "Party" (1996), "Palavra e Utopia" (1998), "Porto da Minha Infância" (2001), "O Quinto Império - ontem como hoje" (2004) e "Singularidades de uma Rapariga Loura" (2009).

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Samora tratava-o por "mestre " e dizia que Oliveira era como "uma criança sábia; muito divertido, com sentido de humor, libidinoso, pecador e muito católico". E gostava do modo como o grande realizador, apesar de muito exigente, dava aos atores "a liberdade de interpretar o texto como melhor achassem".

A cumplicidade com Fernando Lopes

"Vou para qualquer lugar com o Fernando, sempre que ele queira", dizia Rogério Samora em 2006, numa conversa a propósito da estreia de "98 Octanas", sobre o realizador Fernando Lopes. Trabalharam juntos pela primeira vez em "Matar Saudades" (1988). Depois houve um hiato enorme e voltaram a encontrar-se em "O Delfim" (2002): este foi, verdadeiramente, o início de uma grande amizade. Rogério Samora tornou-se o ator principal dos últimos filmes de Fernando Lopes: de "Lá Fora (2004), outra vez ao lado de Alexandra Lencastre, e, depois, de "98 Octanas" e "Os Sorrisos do Destino" (2009).

"O Fernando deu-me o Abel, o Tomás, o José Maria e o Diniz", contava o actor, enumerando as personagens que já tinha interpretado em filmes de Fernando Lopes. "O Abel, do Matar Saudades, é alguém que regressa para se vingar. O Tomás Palma Bravo, de O Delfim, é o símbolo de um país, de uma época. O José Maria, de Lá Fora, para mim já não era um homem vivo, era um fantasma, dependente dos computadores e do mundo virtual."

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Rogério e Fernando eram mais do que amigos, eram cúmplices. "Somos como pai e filho, ou como irmão mais velho e irmão mais novo", confirmava na altura o realizador, conhecido por manter o máximo possível as suas equipas, de um filme para outro.

Fez de tudo um pouco

Ao longo de quatro décadas de carreira, Rogério Samora trabalhou incansavelmente em todos os meios.

Na televisão, apresentou programas, entrou em séries e em telenovelas, como "Nazaré" e "Mar Salgado", da SIC, "Flor do Mar" ou "Fascínios", da TVI.

No cinema conta com mais de meia centena de títulos, tendo trabalhado com realizadores como José Álvaro Morais, João Botelho, Manuel Mozos, Miguel Gomes, António-Pedro Vasconcelos, Maria de Medeiros, Luís Filipe Rocha, Margarida Cardoso, Rosa Coutinho Cabral, José Fonseca e Costa, Joaquim Leitão, Raoul Ruiz e Jorge Crame. Fez filmes mais comerciais e outros ditos "de autor" e ainda deu voz a filmes de animação.

No teatro, trabalhou com Carlos Avilez, diretor do Teatro Experimental de Cascais, onde se apresentou em peças como “Hamlet”, de Shakespeare, e em “Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente”, de Natália Correia. Mas também com outros encenadores, como Fernanda Lapa, em “Medeia é bom rapaz”, de Luís Riaza, “As Bacantes”, de Eurípides, e em “Sétimo Céu”, de Caryl Churchill, com Artur Ramos, em “A Castro”, de António Ferreira, com Luís Miguel Cintra, em “Cimbelino”, de Shakespeare, e com Solveig Nordlund, em “Traições”, de Harold Pinter.

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Pedro Zegre Penim, atual diretor do Teatro Nacional D. Maria II, recordou esta quarta-feira a participação de Rogério Samora em "Worst Of", que se estreou em 2018 e haveria de ser a última peça do ator:

"Durante os ensaios de Worst Of, um espetáculo do Teatro Praga estreado no Teatro nacional Dona Maria II, o Rogério dizia que seria essa a sua despedida do teatro. Ninguém acreditava, claro: a sua energia era inesgotável, era um ator obstinado, com uma necessidade comovente de ser amado a cada segundo. Para mais falava também da sua estreia, como pajem-figurante de uma produção do Monólogo do Vaqueiro, peça Vicentina inaugural do teatro português, que citávamos no Worst Of. Para ele aquele círculo parecia perfeito, desenhado entre o princípio e o fim. Na última cena usávamos ele e eu um figurino idêntico, o momento em que o espetáculo se engolia a si mesmo. Há pouco tempo voltei a usar as calças desse figurino para uma sessão fotográfica. Chegaram-me às mãos não as minhas mas as do Rogério. E meti-me mais uma vez na sua personagem. O Rogério não voltou a fazer teatro… Os círculos são assim, consolam e apoquentam. Viva o Rogério."

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