Navio que naufragou há centenas de anos encontrado no fundo de um lago em perfeitas condições

CNN , Taylor Nicioli
18 dez 2022, 11:00
Navio medieval encontrado no maior lago da Noruega

No fundo de Mjøsa, o maior lago da Noruega, encontra-se um navio naufragado há centenas de anos e está em perfeitas condições, congelado no tempo.

A embarcação, com os seus cadastes únicos e pranchas sobrepostas, revela um momento na história marítima do lago e estima-se que seja de entre 1300 e 1800.

Os investigadores descobriram os destroços durante a execução do projeto “Missão Mjøsa”, que visa mapear o leito do lago de 363 quilómetros quadrados através do uso de tecnologia sonar de alta resolução.

O Norwegian Defence Research Establishment liderou a missão dois anos depois de ter efetuado várias inspeções com veículos operados remotamente, ou ROV, a áreas do lago onde tinham sido despejadas grandes quantidades de munições.

O lago é uma fonte de água potável para cerca de 100 mil pessoas na Noruega, segundo a Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, pelo que as munições representam riscos para a saúde. O navio naufragado foi visto durante as buscas no lago.

Através da tecnologia sonar, o projeto “Missão Mjøsa” tem como objetivo mapear o leito do lago para encontrar munições.

"A minha expectativa era que também pudessem ser descobertos navios naufragados enquanto mapeávamos as munições que foram despejadas, o que acabou por acontecer", disse Øyvind Ødegård, investigador sénior de arqueologia marinha da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia e investigador principal da missão. "A hipótese estatística de encontrar navios naufragados bem preservados era considerada bastante elevada."

Possível embarcação medieval

O navio naufragado recentemente descoberto está localizado a uma profundidade de cerca de 411 metros e foi captado em imagens de sonar, um sistema que usa impulsos sonoros para detetar e medir a área abaixo da superfície da água. As imagens revelaram que o navio tinha dez metros de comprimento.

O ambiente de água doce e a falta de ondas naquela profundidade mantiveram o navio em perfeitas condições, com exceção da corrosão de alguns pregos de ferro em cada extremidade do navio. Para Ødegård, o desgaste do metal é uma indicação clara de que o navio naufragado está no leito do lago há algum tempo, uma vez que a corrosão levaria centenas de anos a ocorrer. “O navio acabará por perder a sua estrutura quando todos os pregos se desintegrarem,” disse ele.

Na secção da popa da embarcação, há indícios de que existe um leme central, uma característica usada para dirigir, mas só surgiu perto do final do século XIII. Combinando estas duas características, os arqueólogos foram capazes de estimar que a construção do navio não ocorreu antes de 1300 e que ocorreu o mais tardar em 1850.

O navio parece ter sido construído através do uso de uma técnica nórdica, na qual as tábuas do corpo são sobrepostas umas em cima das outras. Este método foi usado durante a Era Viking como uma forma de tornar o navio mais leve e mais forte, e é conhecido como construção de clínquer.

Como o navio naufragado foi encontrado no meio do lago, Ødegård pensava que se tinha afundado devido ao mau tempo. Ele acrescentou que é provável que o navio tenha usado velas em forma de quadrado, e isso dificultava a navegação em condições extremamente ventosas.

História norueguesa

A embarcação mais antiga a ser descoberta nas águas da Noruega até à data foi a piroga Sørum, encontrada no Bingen Booms no rio Glomma e remontava a 170 a.C. O barco naufragado com quase 2.200 anos estava relativamente bem preservado tendo em conta o facto de ter milhares de anos.

"Os barcos naufragados de madeira podem estar muito bem preservados em água doce, uma vez que não contém os organismos que normalmente comem madeira que existem, por exemplo, no oceano", disse Ødegård. "Presumo que se vamos encontrar veículos intactos da Idade do Ferro ou veículos medievais na Noruega, então o lago Mjøsa será o lugar indicado para procurar, uma vez que é grande o suficiente para ter tido a sua própria história marítima distinta, com muita navegação e comércio."

Durante a Era Viking, o lago serviu como uma grande rota comercial, embora existam grandes lacunas no que é conhecido antes e durante esses tempos, segundo Ødegård. "Independentemente da idade, qualquer achado ajudar-nos-á a entender melhor como era o desenvolvimento da tradição da construção naval num lago interior, em comparação com os países nórdicos."

Mais a ser explorado

Para mapear o fundo do lago, a equipa de pesquisa usou um veículo subaquático autónomo de última geração chamado Hugin, da empresa tecnológica norueguesa Kongsberg Maritime.  

Esta é a primeira vez que este tipo de equipamento é utilizado num ambiente de água doce, segundo Ødegård, e não tem sido muito utilizado em arqueologia.

O veículo subaquático autónomo chamado Hugin (na foto) está a ser usado pela primeira vez num ambiente de água doce para investigar o leito do lago de Mjøsa, na Noruega.

No último dia da exploração, os investigadores enviaram um ROV numa tentativa de captar imagens dos destroços, mas tiveram de abortar a missão devido ao mau tempo. Ødegård pretende regressar no próximo ano para tentar novamente.

Entretanto, os investigadores continuam a mapear o fundo do lago. Até agora, eles só mapearam 39 quilómetros quadrados e têm muito mais para percorrer. Ødegård disse que espera que sejam descobertos mais barcos naufragados.

"Poderemos encontrar embarcações desde o início da atividade humana na área e em boas condições", disse Ødegård. "Não se pode excluir nada."

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