O meu país partilha uma fronteira de 1.300 quilómetros com a Rússia. A invasão da Ucrânia mudou completamente a forma como vejo a NATO

CNN , Marja Heinonen
16 mai, 18:53

OPINIÃO. Entrada na NATO da Finlândia e da Suécia será uma das maiores mudanças geopolíticas na Europa desde a queda do Muro de Berlim.

O meu país partilha uma fronteira de 1.300 quilómetros com a Rússia. A invasão da Ucrânia mudou completamente a forma como vejo a NATO

Marja Heinonen, escritora finlandesa e autora de vários livros, tem mais de três décadas de experiência como jornalista, editora e investigadora. Trabalhou também na academia e tem um doutoramento em comunicação. As opiniões aqui expressas são suas.

A questão da adesão à NATO tem sido debatida no meu país natal, a Finlândia, há décadas. Ou, devo dizer, costumava ser debatido, até que a invasão da Ucrânia pela Rússia nos ajudou a resolver a questão.

Após décadas de objeções, a Finlândia parece pronta para encontrar abrigo sob o amplo guarda-chuva de defesa da NATO. A primeira-ministra, Sanna Marin, que se reuniu em abril com a sua congénere sueca, Magdalena Andersson, destacou a mudança de pensamento que muitos de nós sentimos aqui.

"Temos de estar preparados para todos os tipos de ações da Rússia", disse Marin em conferência de imprensa em Estocolmo, acrescentando que uma decisão sobre a adesão à NATO "vai acontecer muito rápido - em semanas, não em meses".

Na quinta-feira, apenas quatro semanas após a conferência de imprensa, Marin e Sauli Niinisto, presidente da Finlândia, anunciaram o seu apoio à adesão à NATO. Isso levou o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia a alertar que o Kremlin "seria forçado a tomar medidas de retaliação, tanto de natureza técnico-militar quanto de outra natureza, a fim de interromper as ameaças à sua segurança nacional que surgem a este respeito".

Mas Niinisto culpou o presidente russo, Vladimir Putin, no início desta semana: "O senhor causou isso. Olhe ao espelho".

À medida que os horrores da agressão russa na Ucrânia se desenrolam a cada dia, políticos e pessoas comuns aqui na Finlândia - um país que há muito se orgulha da sua neutralidade - tornaram-se mais francos em expressar o seu apoio à adesão à NATO.

A guerra de Putin saiu pela culatra, pelo menos num aspeto: a sua tentativa de fazer a Ucrânia - e outros países europeus à porta da Rússia - se afastarem da perspetiva de se juntarem à NATO pareceu aproximar alguns da aliança militar liderada pelos EUA.

De facto, a guerra de Putin está a redesenhar a política de segurança e defesa da Europa moderna, embora talvez não da maneira que ele imaginava. A entrada na NATO da Finlândia e da Suécia seria uma das maiores mudanças geopolíticas na Europa desde a queda do Muro de Berlim.

O erro de cálculo de Putin levou a negociações sobre a aceleração do cronograma para a admissão da Finlândia ao pacto militar. A questão já não é se a Finlândia vai aderir à NATO, mas com que rapidez isso acontecerá.

Aninhada no noroeste da Europa, com uma população de cerca de 5,5 milhões de habitantes, a Finlândia abriga o que se diz ser o povo mais feliz do mundo. Temos um elevado rendimento per capita, excelentes resultados educativos e um sistema de saúde elogiado. Mas o nosso sentimento de contentamento foi abalado pela invasão da Ucrânia por Putin. A Finlândia e a Rússia partilham uma fronteira de 1.300 quilómetros (830 milhas).

Como um pequeno país tendo um golias russo como vizinho, a Finlândia, por necessidade, sempre procurou uma política muito pragmática. No coração da Realpolitik finlandesa está a ideia de que, embora seja decididamente uma democracia ocidental, não devemos provocar desnecessariamente a Rússia. Mas as atrocidades na Ucrânia mudaram as nossas mentes.

Há seis meses, apenas um quarto dos finlandeses era a favor da adesão à NATO. Apesar da nossa proximidade ao gigante russo, as pessoas aqui historicamente rejeitaram a adesão à NATO. Sempre sentimos que tínhamos toda a segurança de que precisávamos. Confiámos em que o diálogo e o comércio com a Rússia garantiriam a paz na Europa. E, embora não fôssemos membros da NATO, tínhamos uma estreita cooperação com a aliança transatlântica, inclusive participando ocasionalmente em manobras militares.

Antes da guerra na Ucrânia, não poderia imaginar a necessidade de guardar mantimentos de comida em caso de crise, ou de me preparar para uma possível retaliação russa se a Finlândia se candidatasse à adesão à NATO. Como tantos outros no meu país, senti que o equilíbrio de poder da Europa era suficientemente estável. Na prática, o não alinhamento está no centro da política externa e de segurança da Finlândia desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Mas a invasão da Ucrânia gerou um sentimento crescente de mau presságio entre os meus compatriotas. O apoio à adesão à NATO aumentou drasticamente: agora, pelo menos 60% dos finlandeses querem aderir à aliança, de acordo com sondagens recentes.

"Não há outra maneira de ter garantias de segurança que não seja sob a dissuasão e defesa comum da NATO, conforme garantido pelo seu Artigo 5 ", disse Marin, referindo-se à cláusula que afirma que se um membro da NATO for atacado, todos os outros membros da aliança acorrerão em sua defesa.

Então, o que nos levou tanto tempo? Por que os finlandeses não se apressaram em ingressar na NATO antes que se chegasse ao ponto de isso ser uma necessidade de defesa e política externa? A relutância passada da Finlândia baseou-se, em parte, nas preocupações de perder o estatuto de não-alinhado, que nos permitiu desempenhar um papel mediador em conflitos globais.

Muitos finlandeses estavam com medo de nos tornarmos o posto militar mais oriental do Ocidente. Enquanto os estados membros veem a NATO como uma aliança defensiva, alguns países veem-na como tendo capacidades e aspirações ofensivas. Certamente, Moscovo faz isso. Juntar-se à NATO sempre parecia correr o risco de espicaçar o “urso russo”.

A Rússia já ameaçou com graves consequências económicas e militares se a Finlândia ou a Suécia se candidatarem à adesão à NATO. Moscovo até ameaçou introduzir armas nucleares na região do Báltico, se os países aderirem à aliança. E, no que parece ser um movimento de retaliação, a Rússia cortou no sábado as exportações de energia para a Finlândia.

Os decisores e o público em geral precisam de entender todas as maneiras pelas quais a Rússia pode tentar fortalecer-nos à medida que avançamos. Com um alto grau de alfabetização mediática, e sendo abençoados com um dos melhores sistemas educativos do mundo, os finlandeses são menos propensos a serem vítimas da desinformação russa.

Durante o período entre fazer sua o seu pedido formal e ser realmente admitido na aliança, a Finlândia não teria o escudo das garantias de segurança da NATO. Mas estamos menos preocupados com a agressão militar do que com as outras maneiras pelas quais a Rússia pode dificultar a nossa vida.

É possível que Moscovo tente incutir medo nos nossos corações, reunindo tropas perto da fronteira finlandesa. E especialistas dizem-nos que os movimentos para aderir à NATO nos tornarão mais propensos a sermos atingidos por um ataque cibernético. Vimos evidências disso quando sites do governo foram invadidos no momento em que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, fazia um discurso por vídeo ao parlamento finlandês.

A adesão à NATO daria muito valor acrescentado à defesa da Finlândia contra a Rússia, mas isso não é tudo. A principal responsabilidade pela proteção da Finlândia será sempre nossa.

Para um país do nosso tamanho, a Finlândia tem uma forte força de defesa, e o nosso governo está determinado a torná-la ainda mais forte. Em abril, o governo destinou mais 2,2 mil milhões de euros para a nossa defesa nacional para os próximos quatro anos – uma resposta direta ao ataque russo à Ucrânia.

As pessoas neste país ainda se lembram da Guerra de Inverno de 1939, quando os soviéticos pensaram que poderiam facilmente invadir a Finlândia, mas foram rapidamente expulsos. Era um prenúncio da luta agora travada por bravos ucranianos contra um agressor russo mais poderoso. A Finlândia ainda enfrenta um ato de equilíbrio geopolítico, mas não pode encolher-se quando confrontada pelo rufia do bairro. Fazê-lo só convidaria à agressão.

Ficou claro que não há limites para o que Putin está disposto a fazer para promover os seus interesses geopolíticos. No final, é Putin quem, de facto, tornou o caso da adesão à NATO mais forte do que nunca.

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