opinião
Estudante de Doutoramento em Teologia na Universidade da Santa Cruz, Roma

Um bebé especial

24 dez 2023, 19:00

Estive recentemente num jantar onde reencontrei vários amigos do tempo da universidade. Os percursos profissionais e as responsabilidades familiares impedem que nos encontremos com a regularidade que gostaríamos. Um amigo que foi recentemente pai, comentava: “Sempre pensei que a minha vida mudaria quando me casasse: procurar casa, a vida em conjunto, mudar de hábitos, tantas coisas diferentes. Mas dou-me conta que a grande transformação da minha vida aconteceu quando fui pai. A partir desse momento parece que o nosso centro de gravidade muda. Já não vivemos para nós. Aprendemos a viver para uma criança que responde a pouco mais que estímulos, que nos acorda durante a noite, que tem problemas de saúde que nos altera os planos de uma sexta-feira à noite. E, ao mesmo tempo, essa criança é parte de nós, um ser que amamos profundamente. Há algo especial em cada filho, particularmente em cada bebé”. Esta reflexão, vinda de um amigo que não é crente, fez-me pensar no Natal. 

É verdade: há qualquer coisa de especial num bebé. Quando um bebé aparece numa sala cheia de gente, todos vão querer vê-lo. As conversas param, os sorrisos espalham-se pelos rostos das pessoas, os braços estendem-se para o segurar. Até mesmo a pessoa mais fria ou distraída será atraída para o bebé. As pessoas que discutem mudam de atitude. Fazem caretas, riem-se de forma quase patética. Porque cada bebé traz alegria e paz. 

A mensagem central e estranha do Natal é que Deus se tornou um bebé. O omnipotente, criador do universo, o fundamento da inteligibilidade do mundo, a origem da existência, a razão pela qual existe algo em vez de nada. Um bebé vulnerável, indefeso numa manjedoura onde os animais comem. Todos os que rodeavam o berço do Menino Jesus — a sua mãe, S. José, os pastores, os Reis Magos — fizeram o que as pessoas fazem sempre junto dos bebés: sorriam, olhavam com carinho, faziam caretas, cantavam, dançavam. E isso aproximava-os mais uns dos outros, precisamente pela sua preocupação comum com a criança. 

Ao longo de toda a história de Israel, Deus esforçou-se por atrair a si o povo escolhido e por levá-lo a uma união dentro desse mesmo povo. O objetivo de cada livro do Antigo Testamento, da pregação dos profetas, das alianças com Noé, Moisés e David e dos sacrifícios oferecidos no templo era essencialmente este: fomentar a amizade com Deus e um maior amor entre o seu povo. No entanto, Israel permaneceu afastado de Deus: desfez alianças, desobedeceu aos mandamentos, corrompeu o templo. 

Por isso, quando os tempos ficaram maduros, Deus decidiu, não nos intimidar ou dar ordens do alto, mas sim habitar entre nós, fazer-se um de nós, um connosco. Como? Tornando-se bebé. Nascendo no seio de uma família. Quem resiste a um bebé? No Natal, a humanidade já não olha para cima para ver o rosto de Deus, mas para baixo, para o rosto de uma criança. É muito fácil instrumentalizar sentimentalmente o que aconteceu no primeiro Natal. Podemos olhar com distância para o mistério, contemplar o nascimento de Deus bebé sem que isso nos questione e nos faça converter e mudar de vida. 

O Papa Francisco, na recente Exortação Apostólica C’est la confiance por ocasião do 150.º aniversário do nascimento de Santa Teresa do Menino Jesus, recordou-nos os passos com que Deus fez ver o caminho da infância espiritual à santa francesa. É um caminho que todos podemos seguir, em qualquer estado de vida, nos mais diversos momentos da existência. O Deus grandioso mostra um caminho para os pequeninos (cf. Mt 11, 25).

Para o descrever, Santa Teresa recorre à imagem do elevador: «O ascensor que me há de elevar até ao Céu são os vossos braços, ó Jesus! Para isso não tenho necessidade de crescer; pelo contrário, é preciso que eu permaneça pequena, e que me torne cada vez mais pequena» (n. 16). 

Quando compreendemos esta dinâmica essencial do Natal, a vida abre-se de uma forma nova. Mostra-nos que quanto mais pequenino, mais simples, mais consciente das minhas fragilidades for, mais me aproximo do bebé do presépio, daquele Deus que precisou de uma mãe e de um pai para viver e crescer.

A maioria de nós vai reunir-se em família para o Natal. Estarão lá todos: a mãe e o pai, os primos, os tios e as tias, talvez os avós e os bisavós, alguns amigos que se encontram longe de casa. A refeição será mais longa que o normal. Com gargalhadas, conversas animadas. Pode também haver ausências, saudosas e até dolorosas, mas recordadas com carinho, acalmando a mágoa, se existir. 

Os extrovertidos vão-se divertir; os introvertidos vão achar tudo mais desafiante, por vezes stressante. Mas é Natal! Nestas reuniões, a dada altura, poderá aparecer um bebé: o filho recém-nascido, o neto, o bisneto, o primo, ou o sobrinho. E se não se apresentar o bebé real, recuperamos a memória de alguém que cresceu tão depressa e que traz episódios encantadores do bebé que foi. Os bebés captam a atenção, têm um poder magnético, que atrai, que une, que pacifica. 

Celebrar o Natal é celebrar um bebé que é Deus. Nem mais, nem menos. Atrai-nos o magnetismo peculiar dessa criança que é Deus. Mudamos o centro de gravidade das nossas preocupações, como dizia aquele amigo, e envolve-nos uma luz nova que ilumina a vida de cada filho pequeno do mesmo Deus, que somos cada um de nós. Em cada presépio há uma ponte entre Deus e a humanidade. Tocamos esse Deus simbolicamente no presépio, e realmente na Missa, do dia de Natal. Vale a pena o esforço.

Faz sentido que no Natal todos, cristãos, ateus, agnósticos e pessoas de outras religiões troquem prendas. Porque ainda que não vejam nesse bebé o Deus único, podem sentir atração por festejar um bebé que traz festa para todos, que une, que congrega. Mas, se ficarmos pelas prendas, ficaremos aquém. Sentiremos vontade de pegá-lo ao colo, brincar, conviver com os que estão com ele. Trocar prendas saberá a pouco. Pois que assim seja também com este Deus, um bebé especial.

Santo Natal e bom 2024.

 

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