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Proposta do ministro da Defesa põe "armas de fogo" nas mãos "de delinquentes"

30 abr, 18:00
Forças Armadas - Fuzileiros

Militares estão estupefactos com Nuno Melo, que sugeriu a integração nas Forças Armadas de jovens delinquentes. Reações dos peritos: "estapafúrdio", "absurdo", é no que dá "quando não se percebe" do assunto, lembrem-se "do que dissemos dos russos". Entretanto a ministra da Administração Interna deu o aval à proposta de Nuno Melo. Mais reações dos peritos: "Só agrava a situação"

Para os especialistas militares, trata-se de uma ideia que “não faz qualquer sentido” e que arrisca transformar as Forças Armadas “numa colónia penal” e os quarteis “numa penitenciária”. “A proposta não faz sentido nenhum, é não ter o mínimo de ideia do que é as Forças Armadas. Não podemos fazer do exército uma colónia penal. Quando não percebemos para que servem as instituições militares, surgem estas ideias estapafúrdias”, critica o major-general Agostinho Costa.

Para o major-general Isidro de Morais Pereira, a medida seria altamente danosa para as Forças Armadas enquanto instituição e, além disso, colocaria jovens com registo criminal e, em muitos casos, com problemas psicológicos em contacto com armas de fogo. “Qualquer psiquiatra ou psicólogo desaconselha que estas pessoas tenham contacto permanente com armas de fogo. Pessoas com historial de delinquência e distúrbios de personalidade sérios não podem servir nas Forças Armadas. Para ingressar é preciso fazer uma série de testes psicotécnicos e psicológicos que barram a entrada destes indivíduos.”

Esta opinião é espelhada pelas associações militares que representam os oficiais, sargentos e praças, que classificaram esta possibilidade como "uma ideia peregrina" e "absurda". Em declarações à Lusa, o presidente da Associação Nacional de Sargentos insistiu que não faz sentido transformar as Forças Armadas numa "instituição de reinserção social". “Isto não é uma escola de gente mal formada e não pode ser”, alerta.

Os militares destacam que existem problemas práticos que seriam impostos quase de imediato nos quartéis em todo o país, com os soldados a terem de guardar as instalações não de potenciais intrusos mas sim dos próprios recrutas institucionalizados.

“Começamos a ter guaritas guarnecidas para que os reclusos não saiam? Se saírem responsabiliza-se quem? O general, o coronel? Isto ia transformar completamente a instrução militar numa casa de correção. Se criticamos os russos por esvaziarem as prisões para encher as fileiras, não nos parece correto fazer o mesmo”, refere Agostinho Costa.

Horas depois das palavras de Nuno Melo, a ministra da Administração Interna, Margarida Blasco, afirmou que concorda com a ideia, sublinhando que a medida pode mesmo vir a ser implementada. Isidro de Morais Pereira frisa que o aval da ministra “agrava” a situação e pode significar que o assunto já foi debatido em Conselho de Ministros. “Espero que isto não seja uma solução debatida em Conselho de Ministros para resolver os problemas da atratividade de carreira militar com a contratação de delinquentes. Temos de recompensar aqueles que estão dispostos a dar a sua vida pelo país. Não podemos dar o salário mínimo a um jovem”, sublinha Agostinho Costa. Isidro Morais Pereira completa com outro ponto de vista: “Muitos dos nossos polícias vêm das Forças Armadas. A polícia quer ter ex-delinquentes? Querem polícias com cadastro? Merecemos políticos mais sérios no nosso país”.

A própria bastonária da Ordem dos Advogados admitiu que o que Nuno Melo disse “poderá ser preconizado (…) como pena substitutiva, em vez do pagamento de uma pena pecuniária, que as pessoas nem sempre têm - assim opta-se por serviço público”. Refira-se que Nuno Melo afirmou que os jovens “institucionalizados por pequenos delitos” acabam por ser enviados para instituições que acabam por funcionar como “escola de crime para a vida”. O ministro da Defesa sugeriu que, ao cumprir serviço militar, uma parte destes jovens teria “oportunidade de um exercício de formação, de autoridade, de valores”, tornando-se cidadãos “muito melhores”.

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