Estes são os "putos" do Volt

18 jan, 00:54
Volt Portugal em Santarém e Tomar

São um partido europeísta, nem de direita nem de esquerda, talvez centrista, mas sobretudo pragmático e com base na ciência. É o partido mais jovem no panorama político português e quer ser uma "força política bastante importante" daqui a dez anos, mas também já no próximo dia 30. Quem são os membros deste partido e como chegaram até ele? A CNN Portugal acompanhou um dia de campanha do Volt Portugal

"Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos".


Já cantava Carlos do Carmo e podia ser a banda sonora para acompanhar a chegada dos elementos da concelhia do Volt de Tomar para a arruada em Santarém. Mikhaylo 'Misha' Shemily, 22 anos, cabeça de lista por este círculo eleitoral, chega com bandeiras em punho, ainda sem flyers na mão. É o único que tem a iniciativa para uma conversa.

A arruada ainda tardava a começar e quem os observava na praça em frente ao Palácio de Justiça de Santarém, se não visse as bandeiras, diria que eram apenas quatro jovens que se tinham encontrado na rua numa manhã fria de janeiro. Pouco depois chegam, vindos de Lisboa com duas horas de atraso, Diogo Vasques e Tiago Matos Gomes, os mais velhos deste grupo daquele que é o partido mais jovem do panorama político português. Está composta a comitiva Volt Portugal. Pode começar a arruada. 

Mas, quem são estes homens que querem dar o Volt a conhecer a Portugal? Vamos fazer as coisas de forma diferente e, apesar de ser o partido mais jovem, comecemos pelos mais vividos. Tiago Matos Gomes, líder do Volt Portugal e cabeça de lista por Lisboa, não é novo nas andanças da política.

Com 19 anos inscreveu-se na Juventude Socialista, onde permaneceu (Guterres e Sampaio contaram com ele nas campanhas) até 2002, mas a carreira de jornalista levou a que se desligasse do Partido Socialista e tentasse encontrar uma solução europeia em que acreditasse. A política corre-lhe nas veias desde pequeno, ou não tivesse ele nascido a 25 de abril de 1975. "Recebia cravos vermelhos no meu aniversário", conta à CNN Portugal. 

"A política esteve sempre presente na minha vida. Quando deixei, estive muito tempo fora, mas fui sempre acompanhando, sempre interessado, com os meus amigos e em casa sempre falámos de política, até que depois, encontrei online alguns movimentos federalistas, inscrevi-me na UEF (Union of European Federalists) cá em Portugal, até fui à reunião de fundação disso, mas aquilo também nunca funcionou. Depois entrei para a Stand Up for Europe, até que depois conheci o Volt e fiquei".

O Volt sempre teve a ambição de ser um partido, lembra Tiago, orgulhoso do crescimento do partido que trouxe para Portugal e que agora se candidata pela primeira vez a umas eleições legislativas.

Um partido português com coração europeu

Diogo Vasques, 39 anos, é secretário do partido e responsável pela campanha a nível nacional. É ele quem toma conta da agenda de Tiago. O telemóvel não para de tocar entre chamadas e notificações de mensagens e emails que requerem a sua atenção quase de imediato -, mas também conduz o carro que leva o candidato até às iniciativas. "São precisos muitos cafés", confessa em tom de desabafo. Tal como o presidente do partido, o Volt também não foi a sua primeira imersão na política. Antes esteve ligado ao PSD, do qual se desvinculou em 2019, mantendo-se afastado da política até que o partido europeu cruzou o seu caminho, ainda que a muitos quilómetros de Portugal.

"Conheci quando estava a viver no Luxemburgo, através do Jorge Pen, que era o presidente do Volt no Luxemburgo, através de uma conferência que havia com membros de pessoas que estavam no estrangeiro sobre a União Europeia e os países da Europa". 

Para Diogo, o Volt é diferente dos outros partidos na estrutura, no caráter europeu, na funcionalidade. "Naturalmente é um partido português, mas insere-se numa realidade europeia, e o trabalho em rede, dá-nos uma visão muito mais ampla".

Volt Portugal em arruada

Membro do partido desde que este era apenas um movimento, Diogo diz que o Volt se distingue ainda pela voz que dá a quem é membro, dando-lhes oportunidade de participarem no programa do partido e na pluraridade de decisões do partido. 

"É um todo comum que funciona. Porque podemos provar às pessoas que as ouvimos", assegura, lembrando que Portugal é um país acomodado, que "vota de forma comum", mas que tem de se começar a lembrar "que a forma de fazer política em Portugal tem de ser mudada". 

"Ambição de fazer mais pela sociedade"

Gonçalo Venâncio tem 29 anos e juntou-se ao Volt em 2017 depois de uma pesquisa online sobre partidos. O Volt era ainda um movimento, mas Gonçalo deu com ele e rapidamente se juntou à recolha de assinaturas pelas ruas para conseguir que passasse a partido.

"Comecei logo pela recolha de assinaturas, juntei dois ou três amigos na altura, um deles é o Misha, e fomos crescendo, fomos juntando assinaturas, fim de semana a fim de semana fomos fazendo atividades de rua para dar a conhecer, na altura, o movimento e quando nos conseguimos tornar num partido, aí sim, começou uma aventura ainda maior. Responsabilidades maiores".

Responsabilidades que culminaram com Gonçalo e Misha como coordenadores da distrital de Santarém e, na corrida às autárquicas, como candidatos à Assembleia e à Câmara Municipal, respetivamente.

Sem nunca ter tido contacto com a política, Gonçalo tinha "ambição de fazer mais pela sociedade" e foi no Volt que encontrou "de forma orgânica" a resposta e os ideais que procurava. 

"A parte de ser pragmático, ou seja, de usarmos a ciência e os factos para tomarmos as nossas decisões. Nós somos progressistas e pragmáticos e é isso que me atraiu para o Volt. Foi a liberdade de expressão, a liberdade sexual. Todos os tipos de liberdade dos humanas, dos animais. A parte ecológica do próprio partido. E, principalmente, o facto de sermos pragmáticos".

Pragmatismo é uma palavra chave para o jovem tomarense, que diz que o partido que representa vai trazer "novas ideias que são aplicadas noutros países europeus e onde há provas dadas de que as coisas funcionam". Mas que coisas? "Boas ideias que existem pelo mundo independentemente da sua ideologia política".

"Somos um partido pequenino, mas temos muita força de vontade para atingir objetivos", com o emprego jovem, as alterações climáticas, a digitalização, propostas que aparecem no panfleto que vai distribuindo a quem passa.

Um partido sem "tricas políticas"

Ricardo Antunes tem 27 anos e o olhar perde-se na arquitetura. Os membros do Volt descrevem-no como sonhador, "um rapaz cheio de ideias", com muita vontade de comunicar. No partido, assumiu a pasta de comunicação da concelhia de Tomar. Na arruada, não deixa que ninguém passe por ele sem que leve um panfleto e duas palavras suas.

"Conhece o Volt? Não é um partido nem de esquerda nem de direita, é um partido europeísta, sem tricas políticas, com soluções para as pessoas", vai repetindo a quem passa, com um sorriso que se deixa adivinhar por debaixo da máscara.

Conheceu o partido na faculdade e diz que nunca se tinha identificado com nenhum outro como se identificou com este. "Esperei até que existisse um partido em que eu me conseguisse rever quase até 100% e uma coisa que eu não gosto nos outros partidos é que perdem muito tempo com politiquices, com as tricas interpartidárias e que retiram o foco da política: a política deve ser na melhoria da vida dos cidadãos, no presente e no futuro. E aquilo que assistimos nos debates foi mais de metade do tempo foi a discutir o passado. E isso não resolve os problemas dos cidadãos".

Para Ricardo, apenas o Volt foca no futuro e no pragmatismo para as soluções que o país precisa, seja no ambiente, seja na educação. Ou até na arquitetura urbanística, onde o jovem se vê como uma mais valia para o partido.

"Quer queiramos, quer não, a arquitetura urbanística é o que sobra do legado cultural das populações e a forma como vivemos está muito relacionada com a arquitetura. A forma das deslocações, dos transportes, da reciclagem, tudo são processos que envolvem a sociedade e envolvem o urbanismo. E é aqui que posso dar o meu contributo porque a arquitetura deve ser inclusiva e ambientalmente sustentável".

Misha, o primeiro candidato luso-ucraniano

Mikhaylo Shemily chegou a Portugal com 7 anos - "vim em fevereiro e fiz 8 em maio" - depois dos pais terem vindo à procura de melhores oportunidades e, o que era para ser uma viagem temporária, tornou-se numa mudança de vida. Tomar tornou-se casa para esta família ucraniana e Misha, como é tratado pelos amigos, conhece a cidade de olhos fechados. 

Percorremos as ruas da cidade templária ao lado do cabeça de lista por Santarém enquanto vai distribuindo folhetos e, ao ombro, carrega a bandeira de Portugal. Cara do partido em Tomar, com apenas 22 anos, o luso-ucraniano foi também candidato do partido à Câmara Municipal pelo Volt Portugal candidaturas nas autárquicas de 2021. Uma tarefa que aceitou com orgulho e à qual chegou naturalmente depois de ter ajudado a fundar a distrital.

"Eu sempre tive muita curiosidade pela política e discutíamos entre amigos que tinham a mesma curiosidade. E surgiu o assunto do Volt, na altura que encontrámos ainda estava apenas a ser um movimento, mas decidimos - eu e o Gonçalo - contactar e entrar no movimento. Gostamos maioritariamente das ideologias".

No Volt, Misha diz ter conseguido encontrar um caminho na política que lhe estaria vedado nos "partidos tradicionais", até porque sendo "um jovem de descendência ucraniana" tem dúvidas "que tivesse a mesma oportunidade" que teve no partido europeísta.

"O Volt é muito inclusivo. Eu sendo um jovem de descendência ucraniana duvido que teria a mesma oportunidade que tive aqui, por exemplo. Óbvio que nunca esperei assumir um cargo nem ser cabeça de lista, tanto para as autárquicas como para as legislativas. Foi a oportunidade que me deram e que duvido que nos outros partidos me dessem. Tinha de passar por muitos escalões (JS, JSD), noutros partidos seria apenas membro durante muitos anos, porque os partidos normais não dão voz aos jovens. Falta juventude na política e falta política nos jovens". 

Quando o partido se oficializou, Misha e Gonçalo foram "fundadores" e, a partir do zero, criaram a distrital que, atualmente já conta com mais de 20 membros. 

Planos de futuro? Muitos. "Fazer a equipa crescer ainda mais, mas agora ter um resultado bastante positivo (nas legislativas) e sermos uma grande potência na política portuguesa e europeia". 

"Dentro de dez anos seremos uma força política bastante importante".

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