"O meu bebé ficou inconsciente durante quatro dias": Yulia tinha-se mudado para Gaza para fugir à guerra na Ucrânia

CNN Portugal , DCT
4 abr, 13:40
Faixa de Gaza (Associated Press)

"Não podia fazer nada porque não há hospitais, nem carros, nem combustível, não há nada. Apenas podia sentar-me lá e chorar”

Yulia, 24 anos, escolheu a cidade de Gaza, de onde o seu marido é natural, para escapar à guerra na Ucrânia. O casal mudou-se com os dois filhos menores e começou a construir uma vida longe de bombas e sirenes. Pelo menos assim o foi até há seis meses. Mas ao contrário do que foi possível em 2022, em Gaza não há uma saída.

Hoje, Yulia e o marido veem os filhos a passar fome. As crianças têm cinco e um ano - esta última já nascida em Gaza, cerca de meio ano antes de o enclave se tornar um campo de batalha. A família é uma das muitas deslocadas, sem um abrigo seguro ou água não contaminada para beber, como conta o Washington Post.

E todas as tentativas para mudar o rumo das coisas são feitas às escuras. O marido de Yulia tem feito viagens arriscadas a outros bairros da Faixa de Gaza para ter acesso à Internet e verificar se há ordens de evacuação atualizadas. Mas o casal quer sair com a família completa, o que até agora não tem sido possível - sempre que há uma nova lista de evacuação aparece apenas um ou dois nomes, nunca o dos quatro.

"Consegue imaginar? Como é que as crianças de um e cinco anos vão sair separadas, sem a mãe e o pai?”, questionou Yulia, embora esteja consciente das condições em que vivem e na fragilidade em que estão os seus filhos. O mais novo - para o qual nem sequer consegue fraldas - adoeceu gravemente depois de beber água contaminada.

“Ele ficou inconsciente durante quatro dias. Não podíamos fazer nada porque não há hospitais, nem carros, nem combustível, não há nada”, lamentou Yulia. “Apenas podia sentar-me lá e chorar”.

Segundo o Washington Post, são cerca de 1.500 os ucranianos que vivem em Gaza, uma comunidade que foi crescendo e que nasceu de um programa da era soviética de intercâmbio de estudantes. Desde o início do conflito entre o Hamas e Israel já conseguiram deixar o enclave 300 cidadãos ucranianos, uns através de grupos de ajuda, outros por contra própria. Mas são muitos os que ainda estão reféns da guerra, seja pela família numerosa que têm e que torna difícil um plano de fuga, seja pela escassez ou ausência de documentação, que impede que consigam passar para o Egito.

Yevgen Korniychuk, embaixador da Ucrânia em Israel, disse ao Washington Post que está a tentar de tudo para que haja novas retiradas de cidadãos ucranianos de Gaza. O objetivo é dar segurança. E, claro, evitar que mais ucranianos morram - até agora, pelo menos quatro perderam a vida e seis ficaram feridos na sequência de ataques israelitas.

Do lado de Volodymyr Zelensky, ocupado com uma guerra interna, também todos os esforços estão a ser feitos, com Kiev a apoiar-se em Washington para conseguir novas rotas de saída dos que estão presos em Gaza. 

“Posso imaginar o quão difícil isto tem sido para o governo ucraniano – há uma guerra interna e também é preciso salvar as pessoas de uma guerra externa”, disse ao jornal Anton Naumliuk, escritor ucraniano e ativista humanitário que entrevistou várias famílias presas em Gaza. 

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