"Continuo órfão de partido". Ricardo foi o último do PAN por Setúbal em 2022: saiu por não se rever no caminho de Sousa Real

22 fev, 08:00
Ricardo Cruz Reis

LISTA DOS ÚLTIMOS | Filiou-se na Iniciativa Liberal, mas andou por lá muito pouco tempo. Depois, no PAN, ganhou espaço em Setúbal. Foi o último nome do partido na lista de deputados por este distrito em 2022. Desfiliou-se, entretanto, por não se rever numa demarcada visão “animalista”. E por sentir que lhe falta um modelo económico. Vive em casa dos pais e está dedicado à tese: é sobre as entidades nacionais da Rússia e da Ucrânia

Todos os dias faz Setúbal-Lisboa de comboio ou autocarro. Na ida e na volta. Não tem carro, por agora. Mas não descarta vir a ter. “Por enquanto, descarto, porque vivo numa área privilegiada. Se sair da Área Metropolitana de Lisboa e for viver para outro lugar onde os transportes públicos são ineficientes, terei de optar pelo carro”.

Por enquanto, a rotina permite a Ricardo Cruz Reis, de 24 anos, manter este princípio ecologista. É estudante do mestrado em Ciências Políticas e Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Mas não é só disso que vamos falar hoje. É que Ricardo, em 2022, integrava as listas do PAN por Setúbal. Era o último dos nomes efetivos para potenciais deputados pelo distrito, o 18º. Sem perspetivas de eleição, dado o peso do partido, que colocou apenas a cabeça de lista por Lisboa, Inês de Sousa Real. “Na altura, era bastante ativo na distrital. Fui convidado pela comissão política distrital a integrar a lista. Considero que a minha posição refletia a minha posição na altura. Não era só para encher”.

Refletia, verbo no passado, porque, entretanto, desfiliou-se do PAN. Curiosamente, apesar da tenra idade, não foi a primeira vez que se divorciou de um partido. “Antes de me filiar no PAN, no final de 2017, entrei na Iniciativa Liberal mal foi foi legalizada pelo Tribunal Constitucional. Praticamente não se falava de ambiente”. E por isso só ficou por lá uns oito meses.

No PAN ficou mais tempo. Chegou em agosto de 2019. “Já seguia o partido com alguma atenção desde a entrada na Assembleia da República”. E foi fazendo o seu percurso, sobretudo a nível local. Foi número dois pelo partido nas autárquicas. E, como a colega efetivamente eleita estava num regime flexível, acabou por ter o gostinho da vida como deputado na assembleia municipal.

Contudo, apesar da ascensão, desencantou-se com o PAN. “O contexto é muito diferente. Não só no partido como na minha construção ideológica. Sou profundamente ambientalista, defendo os valores da proteção ambiental e da sustentabilidade. Considerava que o PAN, através de André Silva [o anterior porta-voz], era aquele que melhor representava o que defendia. Tinha uma visão mais ambientalista do que animalista”.

Ricardo Cruz Reis não associa a saída do PAN - em dezembro passado, já depois da crise política - à afirmação de Inês de Sousa Real como líder do partido, embora admita que é ela o rosto desse reforço de uma política mais focada nos animais. “Comecei também a notar que o partido não tem uma visão económica consolidada. Perdeu essa parte, não sei se à custa de não se afirmar como de esquerda ou de direita”.

Registo da campanha de 2022 (Cortesia: Ricardo Cruz Reis)

Outras formas de fazer política

Ao sair do PAN, o jovem também abdicou das funções que desempenhava em Setúbal, na autarquia. “Foi uma boa experiência. Como estou a estudar Ciência Política, a analisar a política de fora, foi bom conhecê-la por dentro”.

Mas estar fora de um partido não significa estar fora da política. “Continuo órfão de partido. Continuo focado na minha atividade ativista e académica. Hoje valorizo mais aquilo que é o contributo fora da política convencional”.

Como? Ricardo explica que faz ativismo na área do “bem-estar animal” e do “feminismo interseccional”. Fá-lo através dos núcleos da faculdade e das associações a que pertence. É contra o transporte de animais vivos em longas distâncias. Para Israel, por exemplo. E considera que o “feminismo é também uma forma de libertação do homem”.

Se chegasse a deputado, se chegasse à Assembleia da República, Ricardo Cruz Reis sabe bem que tema queria atacar: a habitação. Mas com que medida concreta? “Com uma estratégia que dê resposta aos problemas”, “adotando a política de habitação da Finlândia”. Ricardo ainda vive na casa dos pais. Como só estuda, “o mercado não lhe dá opções”.

O tempo agora é dedicado sobretudo à tese que está a preparar. “Sobre a guerra da Ucrânia e da Rússia, para fazer uma análise sobre a narrativa nacionalista de ambos os lados, sobre o ponto em que as duas identidades nacionais se separaram”.

A 10 de março, Ricardo Cruz Reis já decidiu em quem vai votar. “Há um partido que consegue responder às minhas aspirações ideológicas”. Não revela qual. Só dá uma pista: não é nem o PAN nem a Iniciativa Liberal.

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