"As pessoas estão a sofrer muito, é errado ter-se um discurso triunfalista": a conselheira de Estado Lídia Jorge teve pena de não poder fazer este "reparo" a António Costa

28 out, 19:15
Lídia Jorge (Lusa)

Escritora não pôde marcar presença na reunião desta sexta-feira

Empatia, humanidade, compaixão, olhar pelo próximo: a escritora Lídia Jorge quis transmitir tudo isto no seu novo livro, "Misericórdia", em homenagem à mãe, uma das vítimas da pandemia de covid-19. Numa entrevista ao Expresso, no podcast "A Beleza das Pequenas Coisas", a também conselheira do Estado sublinhou que tudo isto é o que falta no discurso governamental numa altura em que se vive uma crise económica e social com uma conjuntura bastante imprevisível. 

"No momento em que as pessoas estão a sofrer muito, é errado ter-se um discurso triunfalista dos números. Não vale a pena apresentar números se quando saímos à rua percebemos que há um contraste entre o discurso político e a vida das pessoas."

A escritora defende que tem de haver uma melhor distribuição da riqueza e, para isso, é preciso que sejam implementadas medidas. Não diz isto como uma crítica ao Governo, mas como um "reparo". "Tenho pena de não estar no próximo Conselho de Estado [que se realizou esta sexta-feira], pois este talvez fosse um dos aspetos que tocaria. Não para criticar, mas para prestarem atenção a que a oratória é uma mensagem muito importante. Há que encontrar as palavras para estar junto das pessoas. E têm de reconhecer e dizer que não chegam a todos - mas não de forma fria, matemática. Têm de o dizer colocando-se ao lado. Isso parece-me que está a faltar."

Para Lídia Jorge os discursos da redução do défice e da dívida são importantes mas são números e não é isso que as pessoas querem ouvir - muito menos as que estão a passar por sérias dificuldades. Quando se fala às pessoas, explicou, é preciso mudar a cassete. 

Na semana passada, o semanário Expresso revelou que havia vários supermercados que estavam a colocar alarmes em produtos alimentares - do bacalhau ao salmão congelados, das latas de atum às garrafas de azeite. Nesse mesmo artigo, o diretor-geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), Gonçalo Lobo Xavier, explicou que se estava a assistir a um aumento significativo de furtos. Numa reação a isto, a autora lembra que há muita gente que roubam porque não tem o que comer.

"Nunca me hei de esquecer de que certa vez, falando com a Sophia de Mello Breyner, abordaram-se os roubos que havia na altura no Brasil - ninguém dava conta nos supermercados. E ela disse-me uma coisa muito séria: 'Em qualquer parte do mundo, se os meus filhos tivessem fome eu roubaria para eles'. Nunca mais me esqueci. Porque há no mundo os grandes roubos...", referindo-se aos banqueiros e empresários. "Eles estão aí e não são tratados como ladrões, mas a pessoa que rouba uma lata de atum é um ladrão. Temos de olhar para isto com outros olhos e não deixar que a sociedade atinja uma situação de penúria imensa." 

Num apelo a uma sociedade mais justa, empática e humana, é preciso também uma sociedade que faça mais ruído nas ruas para reclamar "aquilo que é devido". Mas para isso é necessário haver "capacidade de organização e vozes educadas", caso contrário alimentamos o populismo: "As pessoas vão atrás de quem protesta de forma violenta, antidemocrática". 

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