Russo envolvido em polémica com refugiados em Setúbal já tinha alertado Kremlin sobre ucranianos "radicais"

4 mai, 07:00
Fotografia publicada por Igor Khashin na rede social russa ok.ru

O imigrante que estava a ajudar a Câmara Municipal de Setúbal a acolher refugiados ucranianos foi presidente do Conselho Coordenador de Compatriotas Russos em Portugal. Nessa altura, e algum tempo depois do conflito entre Rússia e Ucrânia ter começado, em 2014, Igor Khashin denunciou, numa entrevista ao Ministério dos Negócios Estrangeiros Rússia, a existência entre os refugiados em Portugal de “elementos radicais que apresentam os eventos de uma forma exclusivamente politizada"

Igor Khashin, o cidadão russo que tem estado sob polémica por suspeitas de ter ligações a Putin e de estar a acolher em conjunto com a Câmara Municipal de Setúbal refugiados da guerra, chegou há uns anos a denunciar ao Kremlin a existência em Portugal de ucranianos que classificou como "elementos radicais". 

O alerta foi feito depois de terem começado a chegar a Portugal muitos refugiados ucranianos que fugiam do país após a Primavera Ucraniana, um protesto de larga escala a favor da integração europeia que culminou com a queda do governo de Yanukovyich e o consequente início da guerra no Donbas e a crise na Crimeia, em 2014. Um ano depois, mais precisamente a 25 de março de 2015, Igor Khashin deu uma entrevista ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Moscovo, publicada no portal oficial.

"A situação é definitivamente tensa" em Portugal, contou o russo. "Há definitivamente elementos radicais que estão a tentar apresentar os eventos (da guerra) de uma forma exclusivamente politizada e à sua maneira”, alertou, explicando que existia uma "grande onda de refugiados", vindas de várias zona da Ucrânia.

Nessa entrevista, Igor Khashin, que tem assumido ao longo dos últimos anos uma posição de relevo para o Kremlin em Portugal, referiu também que "é difícil falar com os radicais, porque têm uma ideologia corrompida, sendo impossível explicar-lhes alguma coisa".

Estes "elementos radicais", segundo Pavlo Sadhoka, presidente da Associação de Ucranianos em Portugal, são os ucranianos que, como ele próprio, "organizaram manifestações contra a anexação da Crimeia e a favor da União Europeia". "Igor Khashin acusou-nos várias vezes de sermos neonazis e de dividirmos a comunidade ucraniana". 

Para Pavlo Sadhoka, aquelas afirmações de Igor Khashin ao MNE russo são "preocupantes, porque se trata de um órgão direto do governo da Rússia".

Aliás, a informação prestada por Igor Khashin e publicada no portal do governo da Rússia consta de um conjunto de documentos que a Associação de Ucranianos em Portugal está a reunir sobre este cidadão russo que acusam de ser apoiante de Putin.

O presidente da Associação de Ucranianos acrescenta que em 2015, quando a atual Embaixadora da Ucrânia em Portugal, Inna Ohnivets chegou a Portugal, foi feita uma reunião com todas as associações que representam ucranianos no Alto Comissariado para as Migrações. Nela, explica Sadhoka, "a embaixadora perguntou a cada uma das associações qual era, sem reservas, a sua posição sobre a anexação da Crimeia e Igor Khashin respondeu que era a favor".

 

 

Trabalhou no governo da segunda maior cidade da Rússia antes de chegar a Portugal

Khashin tem 46 anos e está em Lisboa há cerca de vinte. Em Portugal, não só foi presidente do Conselho Coordenador de Compatriotas no país, que responde diretamente ao ministério dos Negócios Estrangeiros russo, como também tem mantido contactos estreitos com a Embaixada Russa em Lisboa e com agências de influência em Moscovo.

Nasceu no dia 30 de agosto em Saratov, a segunda maior cidade da Rússia, onde se formou primeiro em eletromecânica e, depois, tirou o curso de Direito. A primeira experiência em cargos públicos foi mesmo na sua cidade natal, como contou em 2015 na entrevista publicada no site do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia. “Comecei como recepcionista do Conselho da Federação Russa na região de Saratov e, após algum tempo, comecei a trabalhar diretamente no aparelho”. Igor Khashin foi convidado a entrar para esse organismo federal enquanto estava a acabar o curso de Direito, altura em que também conheceu Yulia, a mulher com quem casou e com quem viria para Portugal quando ambos tinham cerca de 25 anos. 

Khashin, segundo consta naquela informação prestada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, trabalhou diretamente com o governador da região de Saratov, Dmitry Fyodorovich Ayatskov, especialmente como conselheiro nas áreas de direito constitucional. “Esta atividade ajudou-me muito, porque na altura eu estava a tirar Direito - e a disciplina de Direito Constitucional naquela época era nova, estava em desenvolvimento. Foi muito interessante trabalhar com várias comissões da Duma (Parlamento russo) e com o Conselho da Federação”.

Igor e Yulia chegaram a Portugal no ano de 2001. A decisão surgiu porque ambos tinham amigos cá, mas ao princípio a ideia era mudarem-se para outro país. “Viemos ter com os nossos amigos, decidimos ficar por cá uns tempos, mas não definitivamente. Mas quando começámos a trabalhar e a comunicar com a população local, mudámos a nossa mentalidade”, contou o próprio.

 

Igor Khashin e Yulia Khashinada, a jurista afastada da autarquia de Setúbal / D.R 

 

Já em Portugal, começou por trabalhar numa “empresa grande de produção de tubos de plástico”, deu aulas em cursos de ciências e tecnologias. Tudo antes de ser convidado, em 2007, para chefiar o Conselho de Coordenação dos Compatriotas Russos, cargo que abandonou em 2015 para dar lugar a Yulia Gundarina, outra russa que consta da lista enviada pela associação de ucranianos às Secretas Portuguesa, como noticiou a CNN Portugal na investigação sobre a teia de ligações a Putin de associações que acolhem refugiados

Também como líder do Conselho de Coordenação dos Compatriotas Russos, Igor Khashin ajudou em 2012, Sergei Lavrov, atual ministro dos Negócios Estrangeiros, a preparar um evento anual para todos os organismos de representação de russos a nível internacional. Em 2014, também foi responsável por organizar uma conferência em Lisboa que reuniu representantes da comunidade russa em vários países da Europa. O objetivo, contou na altura a um outro site do Governo de Putin, chamado “Janela da Rússia”, era o “desenvolvimento de acordos intergovernamentais, em particular no campo da educação, relativos à promoção e popularização da educação russa”. 

Igor Khashin (quinto na última da fila da direita) num evento em Moscovo, no qual esteve Sergei Lavrov, em 2012

 

 

Por outro lado, em novembro de 2016 e já depois do início do conflito internacional entre a Ucrânia e a Rússia, Khashin foi convidado a estar numa reunião em Moscovo com o lema “Juntos pela Rússia”. Nesse encontro, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros agradeceu a todos os representantes do Conselho de Coordenação dos Compatriotas Russos “os esforços ativos dos compatriotas para combater a falsificação da história e a reabilitação dos nazis”. 

Em 2018, Igor e Yulia Gundarina, uma professora na escola eslava de Lisboa que trabalhava com Khashin, viajaram para Moscovo para participar no 8.º Congresso de Compatriotas. No discurso de encerramento, foi mesmo Vladimir Putin quem subiu ao palco. “A russofobia e, lamentavelmente, outras formas de nacionalismo agressivo extremo estão em curso. Não há como esconder o facto de que existe uma guerra contra os memoriais e a língua russa na Ucrânia, nos países bálticos e em vários outros países”, disse o presidente da Federação Russa no encerramento do congresso. Esta mensagem dada pelo presidente russo foi interpretada pelos ucranianos como “um sinal de que uma invasão de larga escala na Ucrânia estava a ser preparada”.

As relações com a Câmara Municipal de Setúbal

Ao mesmo tempo que mantinha cargos de representação do governo russo em Portugal, Khashin fundou a associação EDINSTVO, de Setúbal, em 2002. Pelo menos desde 2005 que esta associação tem colaborado com a Câmara Municipal de Setúbal, nomeadamente no acolhimento de refugiados que fugiram da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Esta colaboração estreita levou a um alerta feito pela Embaixadora da Ucrânia em Portugal, em entrevista à CNN Portugal. “A Câmara Municipal de Setúbal tem uma colaboração muito ativa com a associação EDINSTVA. E nas instalações da Câmara Municipal, há um gabinete do senhor Igor Khashin, por isso esta associação está instalada mesmo na câmara de Setúbal”, denunciou Inna Ohnivets, no dia 8 de abril.

Igor Khashin foi, de resto, apoiante do autarca André Martins (CDU) durante a última campanha para as autárquicas.

Esta colaboração era acentuada pela mulher de Igor Khashin. Yulia Khashinada trabalhava na Linha de Apoio aos Refugiados na autarquia de Setúbal e foi afastada depois de o jornal Expresso ter denunciado que os responsáveis russos pela linha estavam a fotocopiar os documentos dos refugiados ucranianos, entre os quais passaportes e certidões das crianças.

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