Como a "pior assassina em série da Austrália" pode ser inocentada pela morte de quatro filhos bebés

24 mai, 13:25
Kathleen Folbigg durante julgamento em 2019 (Joel Carrett/AP)

Mulher perdeu quatro filhos em oito anos e acabou presa em 2003, depois de o tribunal ter dado como provado que tinha sido a responsável pelas mortes. Mas uma investigação científica pode agora desvendar que a história foi bem diferente e inocentar uma mulher que está presa há quase 20 anos

É conhecida como a “pior assassina em séria da Austrália” depois de ter sido condenada pelo homicídio de quatro filhos, que asfixiava à nascença. Kathleen Folbigg acabou condenada a 30 anos de prisão em 2003, depois de o tribunal ter dado como provado que tinha sido a mulher a matar Caleb (em 1989), Patrick (em 1990), Sara (em 1993) e Laura (em 1997).

Mas a vida desta mulher está prestes a mudar. Uma cientista espanhola, a imunologista Carola García Vinuesa, descobriu uma malformação genética que pode ajudar a explicar as mortes, ilibando assim a mãe.

Tudo começou em 2018, depois de uma chamada de um antigo aluno seu, David Wallace, que na altura estava a tirar um curso de Direito e estudou o caso de Kathleen Folbigg - a mulher tinha sido condenada com provas circunstanciais, algo atípico em Direito Penal.

Carola García Vinuesa, que se mudou para a Austrália no início do século, acabou por ser contactada pelo jovem, depois de este ter visto um documentário sobre o caso, o que o levou a colocar em causa a possibilidade de haver uma causa genética para as mortes.

“Contactou os advogados da Kathleen e contactou-me a mim. Perguntou-me se poderia fazer algo”, explicou a espanhola ao El Mundo.

O culminar dessa aventura foi uma decisão de um tribunal australiano, que agora pediu uma revisão da condenação com base numa descoberta da cientista.

Carola García Vinuesa aceitou o desafio, juntando-se ao antigo aluno e a um colega deste, Todor Arsoy. Juntos elaboraram uma lista das possíveis causas para as mortes, todas com uma base genética. “Não incluímos apenas doenças cardiovasculares, mas também causas de epilepsia ou outras condições raras que sabemos que podem resultar na morte súbita de crianças. Havia uma lista com cerca de 400 genes”, conta a cientista, que, como passo seguinte, recolheu uma amostra da saliva da mãe condenada.

Em novembro daquele ano, a descoberta chave: Kathleen Folbigg tem uma mutação rara no gene CALM2, que modifica uma proteína importante – a calmodulina - para regular o funcionamento cardíaco, controlando a entrada e saída de cálcio das células do coração. “Sabe-se que é causa de morte súbita em crianças e de arritmias que em geral são muito letais”, sublinha a imunologista.

Só faltava saber se as crianças tinham herdado essa malformação, pelo que a equipa de investigação teve de recorrer aos dados dos testes à nascença e a tecidos congelados nas autópsias. Os dados das duas meninas, os últimos bebés a morrer, apresentaram a mesma mutação, enquanto as análises nos meninos não.

“Os dois bebés também tinham mutações, mas num gene ainda pouco estudado. Estamos a fazer experiências para comprovar, mas as análises forenses comprovaram que as mortes foram de causa natural”, refere Carola García Vinuesa, adiantando que Caleb nasceu com laringomalácia, pelo que “não podia engolir e respirar simultaneamente com facilidade”.

“Tinha uma obstrução nas vias respiratórias e morreu aos 19 dias de vida”, acrescenta a especialista, que ainda refere que o quarto bebé desenvolveu uma forma grave de epilepsia aos quatro meses, acabando por morrer aos oito meses na sequência de um ataque epilético.

A teoria da mutação genética das crianças acabou por ser acrescentada ao pedido de revisão e até contou com o testemunho de Peter Schwartz, especialista do Instituto Auxológico de Milão, e um dos melhores na investigação de patologias relacionadas com a calmodulina.

O especialista enviou uma carta ao juiz que ia decidir o caso, mas o magistrado acabou por não considerar a teoria relevante. “O juiz decidiu ignorar esta informação e dar mais importância a provas circunstanciais que estão desacreditadas”, diz Carola García Vinuesa.

Mesmo assim a espanhola não deu o caso por perdido, e decidiu falar com vários especialistas mundiais, até reunir um grupo de 27 pessoas. Todos corroboraram as suas conclusões e um estudo acabou publicado em 2021 na Universidade de Oxford. O caso ganhou ainda mais dimensão e 150 cientistas, entre os quais três prémios Nobel, escreveram uma carta a pedir um indulto para Kathleen Folbigg, que foi enviada a 3 de março para o governador do Estado de Nova Gales do Sul.

Embora não tenha resultado no esperado indulto, a carta motivou uma nova revisão do caso, quase 20 anos depois de a mulher ter sido condenada. Atualmente a trabalhar em Londres, Carola García Vinuesa congratulou-se com a decisão, até porque, como diz, encontrou uma “mulher forte e agradecida” quando foi visitar Kathleen Folbigg à prisão.

"Era apenas uma mãe que estava mal porque os seus filhos morriam", termina a especialista, referindo-se a passagens dos diários, como uma em que a mulher diz que "só queria calar a filha", como frases infelizes que foram retiradas do contexto.

Resta agora esperar por uma decisão final, mas a investigação científica pode transformar a maior assassina em série da Austrália numa mulher injustiçada que perdeu quatro filhos sem culpa.

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