Na Europa o excesso de calor traz fogos, na Ásia traz inundações, seca e cortes de energia

21 jul, 10:54

China, Japão, Índia, Paquistão e outros países asiáticos têm enfrentado temperaturas recorde nos últimos meses. Nuns locais o calor traz inundações bíblicas, noutros, secas devastadoras. As falhas de energia são cada vez mais comuns

As notícias sobre vagas de calor têm dominado as atenções em Portugal. E em boa parte da Europa. E na América do Norte. E também na Ásia. Um pouco por todo o hemisfério norte os termómetros vão registando sucessivos recordes, assim como se vão batendo recordes de dias seguidos de temperaturas abrasadoras. Sim, sempre houve calor no verão, mas não, estas vagas de calor nunca foram tão frequentes, nem tão prolongadas, nem com valor acumulados tão elevados.

Mas os impactos imediatos destes fenómenos extremos são diferentes nas diversas geografias. Enquanto na Europa a seca e os fogos florestais são as consequências mais imediatas, na Ásia o resultado mais visível são inundações e enxurradas. Mas também falhas no fornecimento de energia, com as redes de abastecimento incapazes de dar resposta ao consumo acrescido com ar condicionado e ventoinhas ligados em milhões de casas e locais de trabalho.

A China é o país asiático que por estes dias mais sofre com uma vaga de calor. Acompanhada por chuvadas intensas e inundações em diversas regiões, mas também seca severa noutras. A atual vaga de calor começou no norte da China, no final de junho, e já atingiu metade do país. Segundo cálculos citados pela CNN Internacional, só na China cerca de 900 milhões de pessoas estão a viver sob calor extremo - ou seja, mais de 60% da população. 

Das 34 províncias, regiões autónomas e outras regiões administrativas chinesas, apenas duas não estão neste momento sob aviso de temperaturas muito elevadas. Quase uma centena de cidades emitiram na semana passada alerta vermelho de risco de calor, para que a população se pudesse precaver.

Outro dado serve de medida das excecionalidade desta vaga de calor: nas últimas semanas, 71 estações meteorológicas da China registaram temperaturas nunca antes vistas nesses territórios. 

Umas regiões enfrentam seca severa ou extrema, outras estão sob chuvadas fortes e inundações - em ambos os casos, as regiões agrícolas veem as produções arruinadas ou fortemente reduzidas. É verdade que nem a seca nem as inundações são novidade no verão chinês - mas ver várias cidades a chegar aos 44º celsius sim, é insólito. E nunca estes fenómenos foram, em simultâneo, tão extremos e tão frequentes.

A tendência, já se percebeu, é global. E não começou este verão. Os últimos sete anos, entre 2015 a 2021, foram os mais quentes de que há registo a nível mundial. E, garantem os cientistas, as alterações climáticas aumentaram as hipóteses de temperaturas mais altas e de vagas de calor mais frequentes, e de fenómenos climatéricos mais extremos, sejam secas ou inundações - ou, nalguns casos, ambos.

Redes energéticas a falhar sob pressão

A verificação desta tendência empurrou governos por todo o mundo para planos de descarbonização, no sentido de cortar o uso de combustíveis fósseis e reduzir a emissão de gases com efeito de estufa. O governo chinês mostrou-se ambicioso nessa viragem verde, apostando em contrariar a imagem de grande poluidor - mas os problemas impostos pela pandemia, primeiro, e pela guerra da Ucrânia, agora, impuseram um retrocesso: centrais de energia a carvão e a petróleo que estavam já desativadas ou em vias de o ser, voltaram a produzir a toda a força, para responder aos picos de procura dos últimos meses. 

Aconteceu quando as fábricas voltaram a laborar em pleno conforme o país se ia livrando das limitações da covid (um processo que está a ser acidentado, com muitos avanços e recuos), e volta a acontecer agora, com grandes consumos de energia à medida que cada vez mais população recorre a ventoinhas e ar condicionado para sobreviver às temperaturas escaldantes. As interrupções no fornecimento de eletricidade tornaram-se comuns na China, tanto em cidades como em zonas industriais.

O mesmo se tem passado, por exemplo, no Paquistão. Os cortes de eletricidade tornaram-se habituais. Não apenas por causa da frágil infraestrutura energética do país, não só porque quem tem acesso a ar condicionados e ventoinhas liga-os, mas também porque a débil situação económica do país - agravada pelas intempéries extremas deste ano - tem afetado as finanças do país, que não consegue pagar às companhias energéticas chinesas.

Sob sucessivas ondas de calor praticamente desde o final do inverno, em março, o Paquistão mal tem conseguido assegurar oito horas de energia elétrica por dia. Nalgumas regiões, são apenas seis horas por dia. Os apagões tornaram-se banais e refrescar uma casa ou um negócio é uma miragem - à noite, só é possível para os privilegiados com acesso a geradores.

Vendo as dificuldades de pagamento do Paquistão, e o aumento de procura no seu próprio país, as grandes energéticas chinesas têm diminuído o fornecimento ao país vizinho.

Japão com alertas de apagão 

Para prevenir apagões, o governo japonês fez o aviso logo em junho, conforme as previsões meteorológicas apontavam para dias de calor extremo no país: apelou a que todos - indivíduos, famílias e empresas - reduzissem o consumo de eletricidade. A questão, para o governo, não era moderar o recurso ao ar condicionado. Era previsível que todos os que o tivessem o ligassem, e os governantes não dissuadiram esse comportamento - pelo contrário, até o recomendaram, por saberem do risco que muitos correm sob temperaturas extremas, sobretudo os mais idosos (e é bom não esquecer que o Japão tem a população mais envelhecida do mundo; seguido por Portugal). A recomendação do governo era que outros dispositivos, como iluminação ou equipamentos supérfluos, fossem desligados sempre que possível.

Muitas lojas e escritórios optaram por funcionar sem luzes ligadas; muitas lojas de tecnologia decidiram desligar os inúmeros ecrãs que costumam estar ligados para seduzir os eventuais compradores.

As previsões de temperaturas extremas confirmaram-se: no último dia de junho, seis estações meteorológicas em seis cidades distintas registaram temperaturas superiores a 40º, algo de que não há memória no país. 

E Tóquio teve este ano o maior número de dias consecutivos com temperatura acima dos 35º: nove dias seguidos, em junho e julho. A sensação de calor é ainda agravada pela humidade na ordem dos 90%. O facto de a época das chuvas, que faz a transição entra a primavera e o verão, ter acabado mais cedo do que é normal fez com que, sem a precipitação para moderar as temperaturas, estas disparassem.

Entretanto, com uma sétima vaga de Covid a formar-se, as autoridades nipónicas chegaram ao ponto de desaconselhar os idosos do uso de máscara em locais públicos desde que pudessem manter distâncias - uma recomendação apenas justificada porque os riscos das temperaturas elevadas são maiores do que os do coronavírus, agora que toda essa população está triplamente vacinada. 

Também no Japão os picos de consumo de eletricidade obrigaram a rever os planos para a transição energética. Se houvesse a perceção de que se trata de um fenómeno passageiro, a pressão não seria tanta, mas há a consciência de que este nível de temperaturas e outros fenómenos extremos vieram para ficar, e poderão agravar-se. Por isso, o governo nipónico já ordenou a reabertura de, pelo menos, uma central a gás que estava desativada. Mas como o país é altamente dependente da importação de energia, e os preços nos mercados internacionais dispararam por causa da guerra na Ucrânia, a resposta a médio/longo prazo é o regresso às centrais nucleares. Desde o incidente de Fukushima, o Japão está a usar menos de um terço dos seus mais de trinta reatores - o primeiro-ministro Fumio Kishida quer “trabalhar firmemente para acelerar” tanto quanto possível a revisão das condições de segurança dos reatores que estão desconectamos da rede nacional de energia, para que possam voltar a funcionar em pleno. 

"É apocalíptico"

Se, no Japão, a época das chuvas de primavera encolheu, na Índia, Paquistão e Bangladesh, a primavera que praticamente desapareceu. A partir de março, estes países saltaram diretamente para o verão, passando do frio invernal para temperaturas recorde e inundações mortíferas. Nunca houve um mês de março tão quente como o último na Índia, e em abril as temperaturas em Nova Deli já passavam dos 40º. Em maio, chegaram aos 49º. No Paquistão, registaram-se por várias vezes mais de 50º na cidade de Jacobabad. 

O subcontinente indiano está na linha da frente das alterações climáticas, e o Paquistão é, provavelmente, o melhor país para se perceber as suas consequências. Segundo um estudo do Met Office (Gabinete de Meteorologia) do Reino Unido, devido às alterações climáticas, é agora cem vezes mais provável que países como a Índia e o Paquistão registem ondas de calor com sucessivos valores recorde.

As vagas de calor deste ano afetaram 70% da Índia e 30% do Paquistão, respetivamente o primeiro e o quinto países mais populosos do mundo. Só na Índia, mais de mil milhões de pessoas viram-se expostas a calor excessivo - e os mais afetados foram os mais pobres, sem capacidade de se refrescar ou refugiar do calor em casas climatizadas.

Um relatório divulgado no início de julho dá conta de que em março, abril e maio, as temperaturas na Índia estiveram consistentemente entre 3º e 8º acima da média para essa época, e no Paquistão andaram 5º a 8º acima do normal. 

As consequências foram imediatas: pelo menos uma centena de mortes diretamente relacionadas com o calor, fogos florestais na Índia, e uma redução das colheitas estimadas entre 10% e 35%. O primeiro-ministro da Índia, que antes destes fenómenos tinha apresentado o seu país como um novo celeiro do mundo, capaz de compensar pelas dificuldades de exportação de cereais da Ucrânia, inverteu o discurso rapidamente, ordenando uma proibição de exportação de cereais, com medo do impacto das intempéries extremas na produção do país.

No norte do Paquistão, um glaciar derreteu e o excesso de água provocou enormes inundações. 

No início da vaga de calor foi notória a redução do volume de chuva na região. Em maio, algumas regiões do Paquistão registaram casos de cólera, devido à falta de água e ao desespero das populações para se refrescarem - muitos acabaram por recorrer a águas impróprias para consumo, que provocaram surtos de cólera. 

Mas a chuva acabou por chegar, em excesso. Em junho, a Índia e o Bangladesh sofreram violentas inundações e enxurradas que fizeram dezenas de mortos e afetaram milhões de pessoas, deixando muitas sem habitação. 

Só no Bangladesh a ONU estima que mais de quatro milhões terão perdido casa ou pertences devidos às inundações e enxurradas. No nordeste do país, o Departamento Nacional de Gestão de Catástrofes estima que tenham acontecido as inundações mais graves dos últimos 122 anos. 

Trata-se de uma das zonas mais pobres do Bangladesh, mas a fúria da natureza não fez distinções. No Paquistão, a capital financeira do país, Carachi, ficou inundada. Trata-se da cidade mais populosa do Paquistão, e as águas atingiram tanto os bairros de lata como as ruas bem arranjadas do centro financeiro onde estão sedeadas grandes multinacionais e o Banco Central. Ruas habituadas à força das monções, mas não a tanta força.

O Paquistão, com 220 milhões de pessoas, é responsável por 1% da emissão de gases com efeito de estufa, mas é o oitavo mais exposto a fenómenos climáticos extremos, segundo um ranking da ONG Germanwatch. A ministra paquistanesa das alterações climáticas não tem dúvidas: “Isto é apocalíptico”, conforme dizia há dias ao Japan Times.

Sherry Rehman é uma antiga diplomata, que já viu muito mundo e já viu suficientes filmes-catástrofe para perceber aquilo que enfrenta. “Quando temos um apocalipse à nossa frente... não viram os filmes de Hollywood?... Temos de o encarar de frente.”

Só no seu país, Rehman tem degelo glaciar no Norte que provoca inundações, regiões com temperaturas de 50º no Sul, fogos florestais no Oeste, e no Leste cidades com uma permanente e sufocante neblina de poluição. “A tempestade perfeita”, diz ela. Neste caso, não é uma força de expressão, e as tempestades são várias.

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