A claque que anda de aldeia em aldeia a apoiar as equipas mais pequenas e amadoras

6 abr, 09:18
Super Kop Ter

Lançam uma seta contra um mapa e onde acertar é onde vão. Da última vez eram mais de cem, num pequeno estádio, com fumos, cânticos, tambores, tarjas e bandeiras. A ideia é dar cor aos jogos dos clubes mais pequenos: e claro, pelo caminho aproveitam para comer, beber e construir boas memórias. Chamam-se SuperKopTer, vêm de França e prometem continuar a dar que falar.

Chama-se SuperKopTer e nasceu numa noite de copos durante a pandemia. Três amigos estavam a conversar sobre as limitações impostas pela covid-19 e as saudades de ir a um estádio, quando se fez luz na cabeça deles: e que tal se criassem uma claque diferente de tudo o que existe?

«Em França vivemos sucessivos confinamentos, foi uma época triste. Numa noite com colegas, entre cerveja, vinho e tudo o que vinha à mesa, um de nós lançou a ideia de dar alegria aos campos de futebol indo apoiar uma equipa amadora», contou Alexandre, um dos fundadores do grupo.

«A intenção é criar um ambiente de Liga dos Campeões em campos habituados a ter pouca gente e ao mesmo tempo divertirmo-nos. Somos conhecidos por ser bon-vivants na nossa região.»

Ora a região é Vendée, pouco abaixo de Nantes, na zona oeste de França, a cerca de 60 quilómetros do Golfo de Biscaia e do Oceano Atlântico. Uma região de 600 mil habitantes e muito campo.

A partir daí surgiu a criação deste grupo de amigos: uma claque de futebol que apoia apenas equipas muito pequenas e amadoras. A equipa a apoiar é sorteada da forma mais criativa: lançam um dardo contra o mapa da região, veem onde ele acerta e procuram a equipa dessa localidade.

Foi assim que nasceu a SuperKopTer.

«O nome é um jogo de palavras entre a série Supercopter [uma série de 1984 que em Portugal tinha o nome Airwolf: Lobo dos Céus] e um Kop de adeptos. Foi Christophe Glumineau, o presidente da claque, conhecido entre os amigos por La glu, quem teve a ideia», adianta ao Maisfutebol Lioune Fahouse, uma das pessoas que também está à frente da claque desde o início.

«A primeira edição aconteceu em março de 2022, depois das bancadas voltarem a abrir, após muito tempo encerradas por causa da covid-19. Nessa primeira vez éramos em torno de cinquenta pessoas. Começámos a falar da ideia entre os nossos conhecidos e no dia do jogo, entre amigos, amigos de amigos e amigos de amigos de amigos, conseguimos reunir 50 pessoas.»

Nessa primeira iniciativa, em março de 2022, a seta acertou em Nesmy: uma aldeia de dois mil habitantes, com um clube que dá pelo nome de Joana DArc e joga nos distritais de Pays de la Loire.

Depois disso, a claque já se juntou mais duas vezes e tem mais uma agendada para outubro de 2023.

A segunda edição foi em outubro, visitou uma aldeia com mil habitantes chamada Saint-Hilaire-le-Vouhis e «reuniu cerca de 70 pessoas». Agora em março, a claque realizou a terceira edição, visitou o FC BMP, de Saint-Prouant, uma aldeia de 1600 habitantes, e reuniu «mais de cem membros.»

«A única pessoa que sabe que vamos estar presentes é o presidente do clube, com quem combinamos tudo. O objetivo é preservar o efeito surpresa, para que seja de facto surpreendente e as pessoas fiquem felizes por nos verem. Criamos cânticos próprias para a equipa, utilizamos roupa com as cores do clube, levamos fumos, bombos, bandeiras.»

Mas como é, afinal de contas, um domingo da SuperKopTer?

«Reunimo-nos sempre ao meia dia de domingo numa aldeia próxima, fazemos um piquenique todos juntos, treinamos um pouco os cânticos que criámos especialmente para aquela equipa e recordamos as regras de boa conduta a toda a gente, porque a nossa filosofia é de respeito por todos e queremos sempre salvaguardar o bom desenrolar do jogo. Nós queremos que a nossa presença seja agradável e uma boa memória para todos», refere Lioune Fahouse.

«Quando acabamos de almoçar, vamos para o estádio e com a cumplicidade do presidente do clube, que nos avisa quando os jogadores regressam ao balneário para se preparar para o jogo após o aquecimento, nós entramos silenciosamente na bancada. Depois só nos manifestamos quando os jogadores saem para começar o jogo. Nessa altura cantamos, gritamos, fazemos todo o barulho possível, lançamos fumos, enfim. A surpresa das equipas é enorme.»

Em média, é verdade, a claque junta-se duas vezes por ano, o que pode parecer pouco: mas há duas boas razões para isso.

Por um lado, a intenção é criar verdadeiras invasões, com dezenas de pessoas, o que obriga a uma grande logística. Por outro lado, são os próprios membros que pagam com todas as despesas associadas ao apoio a uma equipa.

«Não temos nenhum apoio. É verdadeiramente cada pessoa que quer participar que contribui para as despesas de deslocação e apoio à equipa. Como é uma iniciativa regional, é relativamente fácil combinar a viagem de toda a gente para o local. De resto, todos os objetos que utilizamos, os fumos, as tarjas, são contruídos em casa por nós e suportados por nós. As pessoas que vêm participar têm de dar um pouco delas e contribuir, embora não haja nenhuma obrigação. Depende da vontade de cada um.»

Após três viagens, a sensação que os líderes da claque têm é que o esforço vale a pena. Cada vez há mais gente a juntar-se a eles e nas redes sociais já cativaram milhares de seguidores.

A SuperKopTer tornou-se, aliás, um fenómeno em França, gerando várias reportagens junto dos maiores órgãos de comunicação social. Do jornal Le Parisien à magazine So Foot.

«A nossa maior satisfação é ver a surpresa na cara das pessoas quando chegámos. Somos muito bem recebidos, mesmo pela equipa adversária, que mostra um grande fair-play por nós. Geralmente no fim do jogo reunimo-nos todos e estamos um pouco a conviver.»  

Por tudo isso prometem não parar.

«Vale a pena. A nossa presença é sempre uma grande felicidade e isso enche-nos de satisfação. Existimos apenas para dar essa alegria às pessoas, para trazer cor ao jogo delas. E elas adoram.»

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