O longo inverno

24 nov, 17:34

Nove meses de guerra numa Ucrânia às escuras e ao frio

Nove meses depois, apaga-se a luz na Ucrânia invadida. Haverá metáfora mais expressiva das trevas da guerra do que um povo totalmente às escuras e ao frio? Começou o longo inverno.

A Rússia, humilhada no terreno de batalha pela vontade da autodeterminação de um povo – que será sempre maior do que as vontades do invasor -, após sucessivamente falhar os seus principais objetivos militares, sendo repetidamente expulsa de Kiev, Kharkiv ou Kherson, o tríptico K da derrota, continua a fazer tiro aos alvos energéticos para aterrorizar, ainda mais, a população ucraniana. Repetidos ataques russos, semanas a fio, massacraram a rede elétrica até ao ponto em que estamos agora: a Ucrânia à beira de uma nova catástrofe humanitária.

Praticamente metade do país vive por estes dias nas sombras, condenado às temperaturas negativas nas duras condições diárias da devastação ditada pela lei do míssil. São cerca de 10 milhões de pessoas a viver assim, um Portugal inteiro, imagine-se, para dar um exemplo, o nosso exemplo.

Baterias de mísseis que a Rússia dispara como manobra de distração para ganhar tempo e congelar o conflito, fixando as posições ucranianas até conseguir fazer entrar, totalmente, as novas forças convocadas pela mobilização parcial. E o risco nuclear imediato, não está na possibilidade de ativar uma arma “tática”, ou o que quer que isso signifique face ao potencial exterminador, mas na concretização dos alvos energéticos que desligaram da rede esta semana, pela primeira vez em décadas, todas as centrais ucranianas. Todas.

A Rússia tem pressa em provocar o colapso porque também tem as horas e as armas contadas. Cercada pelas sanções, isolada do mundo, restam-lhe acordos com outros párias, como o Irão, para conseguir a tecnologia que precisa. E mesmo assim.

Não bastava um país soberano ter de lutar pela sua soberania e sobrevivência, não bastavam os milhares de mortos, os milhões de refugiados e deslocados, as casas e as escolas e os hospitais dizimados, os crimes de guerra, os horrores da ocupação - não bastava tudo isto. A estratégia do terror da invasão é agora exterminar um povo pelo frio, na escuridão. Como uma longa noite de pesadelos.

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