Do "absolutamente nada a ver" até à confirmação do ataque. Como a Rússia justificou os mísseis contra Odessa

24 jul, 10:58

Porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo disse que ataque a Odessa enviou "uma embarcação militar ucraniana para a morada preferida do regime de Kiev com um ataque de alta precisão"

A porta-voz da diplomacia russa admitiu este domingo que mísseis russos destruíram, no sábado, uma infraestrutura militar do porto de Odessa, que é vital para a exportação de cereais ucranianos.

"Os mísseis Kalibr destruíram a infraestrutura militar no porto de Odessa, enviando uma embarcação militar ucraniana para a morada preferida do regime de Kiev com um ataque de alta precisão", escreveu Maria Zakharova na rede social Telegram.

O comunicado de Zakharova admite, assim, o ataque que no sábado tinha sido negado por Moscovo, registado um dia depois de Rússia e Ucrânia terem assinado com intermediação da Turquia um acordo com a ONU para a exportação de cereais ucranianos, através dos portos no Mar Negro.

Também este domingo, as agências russas avançaram com um comunicado do Ministério da Defesa de Moscovo, que dá mais detalhes sobre o ataque: "Um navio de guerra uraniano ancorado e um armazém com mísseis anti-navio Harpoon, fornecidos pelos EUA, foram destruídos por mísseis navais de longo alcance e alta precisão no porto de Odessa, no território de um estaleiro", detalha a declaração das forças russas, citada pela Reuters.

Mas, ainda no sábado, o ministro da Defesa da Turquia disse que as autoridades russas informaram o governo turco de que Moscovo não era responsável pelo ataque ao porto ucraniano de Odessa.

“No nosso contacto com a Rússia, os russos disseram que não têm absolutamente nada a ver com este ataque e que estavam a examinar a questão muito de perto e em detalhe”, disse o ministro Hulusi Akar, em comunicado citado pela Reuters.

Porém, o ministro da Defesa não deixou de destacar que o sucedido não passou despercebido aos olhos da Turquia. “O facto de que tal incidente ocorreu logo após o acordo que fizemos ontem realmente preocupa-nos” acrescentou.

Segundo o porta-voz da Força Aérea da Ucrânia, dois mísseis atingiram o território portuário de Odessa e outros dois foram intercetados por defesas antiaéreas antes de atingirem o alvo. As estruturais necessárias para armazenamento e exportação de cereais não foram atingidas, mas um dos mísseis fez deflagrar um incêndio que destruiu algumas habitações nas imediações do porto, bem como um posto de combustível.

"Cuspir na cara" da ONU

O governo ucraniano acusou ainda ontem a Rússia de “cuspir na cara” da ONU e da Turquia, com o ataque com dois mísseis lançado contra o porto comercial de Odessa.

Num comunicado citado pelo portal oficial Ukrinform, de Kiev, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia afirmava que a Rússia deveria assumir “toda a responsabilidade” se o acordo alcançado na sexta-feira em Istambul, entre Kiev e Moscovo, for quebrado.

“É um ataque de Vladimir Putin ao secretário-geral da ONU, António Guterres, e ao Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan”, sustentou o porta-voz do ministério, Oleg Nikolenko, recordando o papel de Guterres e Erdogan enquanto supervisores do acordo.

O porto de Odessa é uma infraestrutura chave para a exportação de cereais pelo Mar Negro e um dos três portos cruciais para debloquearem os alimentos retidos. O ataque das forças russas de sábado aconteceu poucas horas depois de ter sido selado um acordo entre os dois países em guerra, a Turquia e a ONU.

Já este domingo, o conselheiro para a Economia do presidente ucraniano veio dizer que o país poderia exportar 60 milhões de toneladas de cereais, dentro de oito a nove meses, se os seus portos não estivessem bloqueados; mas assinalou que o ataque russo ao porto de Odessa mostra que atingir essa meta não será fácil.

Falando na televisão estatal ucraniana, Oleh Ustenko admitiu que o país poderia ganhar cerca de 10 mil milhões de dólares com a exportação de 20 milhões de toneladas de cereais nos silos, mais 40 milhões de toneladas das novas colheitas. Se os portos não estiverem a funcionar corretamente, a Ucrânia necessitará de cerca de dois anos para conseguir exportar este volume de cereais: entre 20 a 24 meses, assinalou o conselheiro. 

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