A Ucrânia quer muito este drone letal - e os EUA estão a trabalhar para isso

CNN , Alex Marquardt
17 nov, 08:00
Drone

Num momento em que as forças russas recuaram no sul da Ucrânia, a administração Biden anunciou uma série de novos pacotes de apoio militar à Ucrânia, mas em todos faltava um equipamento que há muito os militares da Ucrânia desejam: o drone multiuso Gray Eagle, armado com mísseis Hellfire.

Segundo dois responsáveis, os EUA estão a estudar modificações que podem ser feitas ao drone letal. Modificações que diminuiriam muito o potencial de perder um drone - com a tecnologia sensível que possui - e possivelmente aumentariam a probabilidade de a Ucrânia recebê-los.

“Há pequenos ajustes e retoques específicos e muito técnicos que podem ser feitos para que isso seja possível a curto prazo”, disse um responsável do congresso. “Mas estas coisas demoram e são bastante complexas.”

Um representante dos EUA confirmou que o exército está a enveredar esforços para estudar quais as mudanças que são possíveis fazer ao drone, que é produzido pela General Atomics e referido no Exército como MQ-1C.

“Quando falamos de drones, este é o melhor que podemos ter”, diz Seth Jones, diretor do Programa de Segurança Internacional do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais. “São drones realmente sofisticados.”

No entanto, sem qualquer alteração, o Gray Eagle, que pode transportar quatro mísseis Hellfire e voar a 25.000 pés de altitude durante quase 30 horas, não terá muitas probabilidades de entrar nas próximas listas de ajuda militar à Ucrânia.

“Continua a existir um interesse real em fornecer este sistema específico, desde que possamos fazer as alterações necessárias e de forma a que ainda sejam úteis para a Ucrânia no campo de batalha”, disse o representante dos EUA.

Continuam a decorrer as discussões sobre o Gray Eagle e o mesmo não foi descartado ou oficialmente negado à Ucrânia, disseram representantes dos EUA e da Ucrânia. O Wall Street Journal tinha reportado que o Pentágono tinha recusado o pedido da Ucrânia.

Ucrânia está a "pressionar"

“Estamos a pressionar, não desistimos”, disse o representante ucraniano. “É uma questão de sobrevivência [para a Ucrânia].”

O porta-voz do Pentágono, o coronel Roger Cabiness, não quis tecer qualquer comentário específico sobre o Gray Eagle, dizendo apenas que o Departamento de Defesa continua a coordenar com a Ucrânia em matérias de ajudas de segurança.

A Casa Branca recusou-se a comentar e a General Atomics não respondeu a um pedido de comentário.

Além da capacidade letal dos mísseis que transporta, o Gray Eagle daria às forças ucranianas uma maior capacidade de recolher informações, de efetuar reconhecimentos de uma distância maior, de expandir o apoio aos alvos da artilharia no solo e de combater os drones russos.

Ao longo da guerra, os EUA têm sido lentos e relutantes em fornecer à Ucrânia capacidades mais avançadas e de maior alcance, como mísseis que permitissem à Ucrânia atacar território russo e, como tal, ser potencialmente encarado por Moscovo como uma escalada significativa no conflito.

No caso do Gray Eagle, um representante dos EUA argumentou que a preocupação é menos com a escalada do que com a segurança tecnológica, ou seja, com o potencial de os drones dispendiosos caírem na Ucrânia e serem recuperados pelos russos.

“São sistemas muito dispendiosos e há preocupações de que possam ser abatidos”, disse o mesmo representante, recusando-se a dizer que peças do drone seriam mais perigosas de acabar em mãos russas.

É um cenário no qual os EUA têm experiência. Depois de os drones iranianos terem sido abatidos na Ucrânia, os EUA puderam examinar os destroços, informou o The Washington Post.

O representante dos EUA recusou-se a pormenorizar a tecnologia mais sensível do Gray Eagle, mas disse que não seria considerado uma escalada, já que estão a ser fornecidos recursos semelhantes.

A tecnologia em questão deve, provavelmente, concentrar-se nas imagens e nas capacidades e sensores para recolha de informações, disse Jones do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, acreditando que os receios dos EUA estão mais enraizados na escalada do conflito com a Rússia.

“Permite um voo muito mais afastado das linhas da frente”, disse. “Acho que não arriscariam a usá-los perto e não precisariam de usá-los perto, pois podem disparar à distância e recolher dados à distância.”

EUA já modificaram sistemas de armas antes

Esta não seria a primeira vez que foram feitas alterações a sistemas dos EUA para entregá-los à Ucrânia. O Wall Street Journal informou em março que componentes confidenciais foram retirados dos mísseis antiaéreos Stinger, desapertando apenas vários parafusos. Isso foi o suficiente para os EUA poderem enviá-los.

Assim como aconteceu com o Gray Eagle, os EUA também têm rejeitado os pedidos de mísseis ATAMCS de longo alcance, com um alcance de cerca de 300 quilómetros. A Ucrânia está tão interessada em obtê-los que ofereceu um nível notável de transparência aos EUA, partilhando os seus alvos, disseram fontes à CNN.

“Precisamos dos ATACMS”, reiterou o representante ucraniano quando questionado sobre o que mais, além dos Gray Eagle, está no topo da lista de desejos.

Um pacote de 400 milhões de dólares dos EUA para a Ucrânia, anunciado no início de novembro, incluía um novo compromisso de mais de 1000 drones não tripulados Phoenix Ghost. Ao contrário dos Gray Eagle, são drones suicidas mais pequenos e de uso único.

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia no final de março, a administração Biden tem apoiado a Ucrânia com armas cada vez mais avançadas. Empurrando, enquanto tentam não ultrapassar, uma linha que acreditam que a Rússia veria como excessivo.

Na semana passada, o presidente Joe Biden reiterou as preocupações da sua equipa, dizendo aos jornalistas numa conferência de imprensa: “Não pretendo que [a Ucrânia] comece a bombardear território russo.”

Biden sublinhou o facto de que, embora os EUA tenham dado à Ucrânia os altamente eficazes sistemas de rockets móveis HIMARS, não providenciaram as munições de longo alcance que acompanham esses sistemas, que incluem os ATACMS.

Nem foram enviados para a Ucrânia quaisquer aviões de combate por parte de qualquer país da NATO, talvez a questão mais debatida sobre as armas que devem ser disponibilizadas à Ucrânia.

Segundo três pessoas familiarizadas com a questão, os aviões ainda estão a ser considerados. Se isso significa aviões de guerra dos EUA ou caças de origem soviética como o MiG-29 é uma parte fundamental da conversa. Os EUA podem pedir a um país como a Polónia que disponibilize MiG-29 à Ucrânia e pode dar caças americanos à Polónia.

Enviar aviões de guerra americanos diretamente para a Ucrânia faz pouco sentido, disse um responsável do congresso, já que há pouco combate aéreo, os pilotos ucranianos não têm treino nos aviões e os mesmos exigem uma manutenção significativa.

Depois, há a questão de como isso afetaria o cálculo do presidente russo Vladimir Putin, entre os receios de que ele possa usar uma arma nuclear.

“Estaremos a acrescentar medidas que podem ser toleradas por Putin num balde que pode, a qualquer momento, transbordar?”, questionou outra pessoa familiarizada com as discussões. “Em que nível está esse balde agora? E quanto volume estamos a propor adicionar? São coisas que as autoridades de informações e defesa dos EUA estão sempre a tentar entender.”

As autoridades ucranianas estão cada vez mais frustradas com os receios gerais de escalada da guerra, apontando que já poderiam ter usado o HIMARS - o sistema americano mais avançado na Ucrânia, até à data - para atingir o território russo, mas não o fizeram.

“Sinceramente, são tudo tretas. Que tipo de escalada?”, perguntou o representante ucraniano. “Que eles lancem uma bomba nuclear? Ou do que temos medo? Não entendo.”

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